Storieta
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About this book

Os Pobres é uma obra de ficção centrada na miséria, na dor e nas vidas daqueles que ocupam as margens da sociedade. Precedida por uma carta-prefácio de Guerra Junqueiro, apresenta-se como uma confissão espiritual e religiosa, em que figuras como Gebo, Luíza, Sofia e a Mouca se unem numa visão mais ampla do sofrimento humano. O livro aproxima hospitais, cadeias, bairros miseráveis e prostíbulos de santuários de angústia, tratando ladrões, prostitutas e abandonados menos como culpados do que como vítimas de uma ordem social cruel. A pobreza surge, assim, não apenas como condição material, mas como revelação moral e símbolo da luta entre força e justiça.

A linguagem é ardente, visionária e intensamente poética, marcada por imagens cósmicas, exclamações, contrastes religiosos e longos movimentos de reflexão. Em vez de se concentrar no realismo minucioso de caracteres individuais, a obra transforma as suas personagens em expressões de uma dor comum, numa atmosfera febril e compadecida. Publicado no contexto literário português de finais do século XIX e início do XX, agradará a quem procura prosa de forte carga lírica, crítica social veemente e interrogações sobre o mal, o amor, a natureza e a possibilidade de redenção.

Characters in this book

  • GeboWeathered Portuguese laborer, gaunt face, threadbare coat, weary eyes, late nineteenth-century setting
  • LuizaPale Portuguese woman, dark braided hair, worn shawl, sorrowful expression, modest nineteenth-century attire
  • SophiaSomber Portuguese woman, delicate features, dark gown, restrained posture, impoverished nineteenth-century surroundings

The opening · free to read

Meu bom amigo:

O seu livro é a historia patetica d'uma alma. Qual? A do Gebo, a de Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos Pobres emfim? Não. A sua. Historias diversas, que se resumem n'uma historia unica: a da sua alma, transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta d'um organismo que sente a musica mysteriosa do universo, d'um coração que repercute a dôr eterna da natureza, mas que só ao cabo de oscilações, duvidas e desanimos, coordena a idealidade do ser com as aparencias do ser, o espirito com as formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.

Não vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos, da imaginação e da volupia. Vejo um acto profundo, espontaneo, d'imensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-analise, a confissão dos criticos, rol de inteligencia, catalogo de ideias. Mas a esplendida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e de mysterio. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se taes almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o genio explue, conta-nos a natureza a sua historia. O genio supremo é o santo. O verbo do santo, eis a lingua clara do universo.

As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a personalidade rigida encarcera e coalha as personalidades volateis e difusas. O inconsciente imenso não acorda, porque está, como um aroma, dentro d'um bloco duro, impenetravel. É o sonho captivo n'um ovo hermetico de bronse. As almas emotivas dos grandes visionarios, essas conservam aquella graça radiante, aquella omnipresença espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cosmica e divina. O sonhador dos Pobres é um evocador atormentado e religioso. Busquei no seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos vêr se a desenho com rapidez e precisão.

Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro, esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece, palpita, murmura e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a féra, a rocha, o lodo, a agua, o ar, braseiros de mundos, aluviões de nebulosas, incorporeidade genesica do ether. Fervedoiro de vidas insondavel, que o tempo não exgota, porque a morte creadora continuamente o desorganisa e reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam, penetram, correspondem. É uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se ella mesma, na eternidade impenetravel, sem ninguem ver o tecelão. Rigidez, solidez, inercia, não existem. Na fraga mais dura, no bronse mais compacto circulam desejos, dramas, turbilhões de moleculas e vontades. As cordilheiras inabalaveis são redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o material evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do sol, que é sol volatilisado, pesa menos que uma folha de rosa na mão d'uma creança. Em cada bloco metalico latejam oceanos dormentes, de vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, electrisado, irradia no ether. Vêde um penedo monstruoso: Parece firme. Desagregou-se, e é lama; a raíz tocou-lhe e é seiva; a seiva gerou, e é flor e é fructo; o fructo, alimento; o alimento sangue; e o sangue vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cerebro que pensa. Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma vida unica. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila, desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se não ha terra em que poise, nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio, ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa os olhos do imenso ao grão d'areia, o grão d'areia, infinitessimo, resolve-se-lhe em vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpusculo, a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e creador.

Abismo de aparencias ocultas, abismo de vozes que se não ouvem. A natureza taciturna exprime-se magicamente, em linguas vagas, silenciosas. E quando n'um pouco de cisco murmuram mais vontades do que bocas humanas ha na terra, o que não dirá o coloquio formidando de todas as vontades do universo! Tem cada organismo a sua lingua peculiar. Os que vivem mais proximos entendem-se melhor. O ar segreda á agua, a raiz ao lodo, a luz á folha, o polen ao ovario. Ha fluidos que se casam, raizes que se querem bem. O oxigenio é intimo do ferro, o azougue é intimo do ouro. Os orbes fraternisam, os metaes amalgamam-se, e as electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!

Materia infinita,--forças infinitas, infinitamente caminhando. E no pelago vertiginoso da mobilidade universal é cada atomo invisivel um desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...

O lexicon sem principio nem fim, das vozes mudas do increado, das linguas tacitas da natureza, alguem o ouviu que se recorde? Alguem: o homem. O homem, crisalida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha e onda; foi nebulosa, foi gaz impalpavel, foi ether invisivel. Articulou todas as linguas, e d'ellas conserva, obscuramente, vagas memorias dormitando. Por isso os poetas adivinham, e raros com a intuição prodigiosa do meu amigo.

Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por tres formas ou em tres fases emotivas. Estudei a primeira,--_a emoção dinamica_. O mundo resolve se lhe n'um jogo de forças, n'um conflicto de vontades, brigando, casando-se, transfigurando-se em aparencias rapidas, ilusorias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.

Mas o que é a vida? Chega á segunda fase. Deslisa da emoção dinamica á emoção moral. Depois de ver o mundo atravez dos sentidos, julga-o atravez da rasão e da consciencia.

O que é a vida?

A vida é o mal. A expressão ultima da vida terrestre é a vida humana, e a vida dos homens cifra-se n'uma batalha inexoravel de apetites, n'um tumulto desordenado de egoismos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram. O Progresso, marca-o a distancia que vae do salto do tigre, que é de dez metros, ao curso da bala, que é de vinte kilometros. A fera, a dez passos, perturba-nos. O homem, a quatro leguas, enche-nos de terror. O homem é a fera dilatada.

Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de guerra, com as escamas d'aço, os intestinos de bronse, o olhar de relampagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando lavaredas, vomitando morte.

A pata prehistorica do atlantosauro esmagava o rochedo. As dinamites do chimico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte escavacava um cedro, o canhão Krup rebenta baluartes e trincheiras. Uma vibora envenena um homem, mas um homem, sosinho, arraza uma capital.

Os grandes monstros não chegam verdadeiramente na epoca secundaria; aparecem na ultima, com o homem. Ao pé d'um Napoleão um megalosauro é uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidam algumas duzias de viandantes, emquanto milhões e milhões de miseraveis cahem de fome e de abandono, sacrificados á soberba dos principes, á mentira dos padres e á gula devoradora da burguezia christã e democratica. O matadoiro é a formula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para rezes, outros para verdugos. Uns jantam, outros são jantados. Ha creaturas lobregas, vestidas de trapos, minando montes, e creaturas esplendidas, cobertas d'oiro e de veludo, radiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem pobresas metalisadas. Ha homens que ceiam n'uma noite um bairro funebre de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesans rosarios d'esmeraldas e diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosarios de craneos ao peito de selvagens.

Vivem quadrupedes em estrebarias de marmore, e agonisam parias em alfurjas infectas, roidos de vermes. A latrina de Vanderbilt custou aldeolas de miseraveis. E, visto os palacios devorarem pocilgas, todo o boulevard grandioso reclama um quartel, um carcere e uma forca. O deus milhão não digere sem a guilhotina de sentinella. Os homens repartem o globo, como os abutres o carneiro. Maior abutre, maior quinhão. Homens que têm imperios, e homens que não têm lar.

Os pés mimosos das princezas deslizam lusentes d'oiro por alfombras, e os pés vagabundos calcam, sangrando, rochedos hirtos e matagaes. Bebem champagne alguns cavalos do sport, usam anneis de brilhantes alguns cães de regaço, e algumas creaturas, por falta d'uma codea, acendem fogareiros para morrer. Bemdito o oxido de carbone, que exhala paz e esquecimento! E a natureza, insensivel ao drama barbaro do homem! Guerras, odios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades, deixam-na tão indiferente e inconsciente, como o rochedo imovel, bulindo-lhe a asa d'uma vespa. O clamor atroador de todas as angustias não arranca um ai da imensidade inexoravel. A aurora sorri com o mesmo esplendor aos campos de batalha ou ao berço infantil, e as hervas gulosas não distinguem a podridão de Locusta da podridão de Joana d'Arc. Reguem vergeis com sangue de Iscariote ou com sangue de Christo, e os lyrios inocentes (estranha inocencia!) desabrocharão, egualmente candidos e nevados.

A humanidade, emfim, é a victoria dos arrogantes sobre os humildes, dos fortes sobre os debeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher entre vencidos e vencedores, entre o amor e o odio, o mal e o bem, o riso e as lagrimas, o seu coração misericordioso de poeta inclinou-se espontaneamente para a Dor, como as vergonteas para a luz.

A dôr é o seu deleite. Busca-a, desejo febril!--por hospitaes, por cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros leprosos, cloacas de humanidade, vasadoiros d'almas, onde crimes, virtudes, vicios, angustias, raivas, desesperos, fermentam promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como entulhos. Pesquisa dedalos caliginosos, cafurnas sem fundo, abismos hiantes, boqueirões de sombra. Explora desvãos, trapeiras, minas, covas, esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas, que gotejam sangue, nas roucas escuridões tumultuosas, pavidas de gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfemias.

E do amago d'essas noites insondaveis pululam turbas espectraes de crucificados, hordas de monstros, bandos de miserias, cardumes de abominações e de agonias. Ullulam tropeis disformes e sangrentos, regougam fauces patibulares, choram, coroadas de ulceras, Magdalenas lividas, bocas de escarneo crocitam sem dentes e sem pudor, arquejam ralas estorturantes, gemem creanças vagabundas, tossem tisicos, ardem febres, lusem gangrenas e podridões... E tudo vago, indistincto, confuso, n'um rumor longo e subterraneo. Não se destacam, não se desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. É o mundo cahotico da miseria, que a noite putrida gerou e a noite soturna ha-de engulir... É o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionario, quasi desconhecido e genial.

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