Storieta
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Scenas Contemporâneas apresenta‑se como um romance de ficção narrado por um caçador‑poeta que, entre tiros e reflexões, descreve uma jornada de caça na serra coberta de neve. O texto abre com o narrador vangloriando‑se de suas façanhas – a captura de melros, tordos e até de uma coruja noturna – antes de mergulhar numa cena onde seis homens, divididos em três grupos, sinalizam‑se com disparos para não se perderem na neblina. A partir daí, a narrativa se desenrola entre relatos de perseguições de coelhos, encontros com um furão, diálogos carregados de ironia e descrições de um nevoeiro que o narrador transforma em fogo apocalíptico. Essa mescla de ação ao ar livre, monólogos introspectivos e interlúdios de humor cria um ritmo que oscila entre o realismo da caça e a fantasia de visões poéticas.

A voz do autor, Camilo Castelo Branco, combina um estilo barroco de exuberante digressão com um humor satírico típico do século XIX português. O texto, repleto de arcaísmos, construções longas e vocabulário regional, atrai leitores que apreciam narrativas experimentais, personagens excêntricos e diálogos que brincam com a linguagem. Ideal para quem gosta de literatura que mistura aventura rural, crítica social e um toque de melancolia poética, sem a pretensão de uma trama linear convencional.

The opening · free to read

Fui muito contente da consideração que se me dava, como caçador, porque, em verdade vos digo, atirei com certeiro olho a perdizes e galinholas. Se nunca matei nenhuma, o que tambem é verdade, deve-se á pessima polvora das nossas fabricas. Em compensação, matei muito melro e tordo nas serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos caçadores famosos de certo não fizeram. Eu fui um grande homem antes de escrever folhetins! Deus perdôe a quem me torceu a vocação! Eu podia, a estas horas, ser um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre dos galgos sociaes.

Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu és um d'elles, permitte-me dizer-te que tens o faro muito descaçado, e que eu hei-de saltar por cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se não és galgo, sensato amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar direitos de mercê.

Agora, vai entrar a historia direitinha até ao fim.

III.

Subimos á esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em tres grupos, e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de nos perdermos encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso esconder-nos os cabeços das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.

Assim combinados, cada grupo, com dous cães, seguiu as pégadas dos coelhos impressas de fresco na neve. Eram muitos, e morriam á pancada, porque os pobresinhos alapados debaixo das urzes, se fugiam, eram logo mordidos pelos cães; se esperavam eram apanhados á mão. Alguns, mais previdentes, tinham emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas sinuosidades interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o furão, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os cães, farejando as avenidas da colheita, recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o rancor do instincto, e atiravam-nos mortos aos nossos pés.

Andamos assim uma hora, tão entretidos, tão esquecidos do mundo, que nunca tão distrahida hora eu tive na minha vida, a não ser aquellas em que durmo, e sonho que hei-de tornar áquelles meus dias de candura, depois de lidar muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que vestiriam, por innocentes, como Adão e Eva, se a serpente lhes não dissesse que andavam indecentes.

Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de neve.

O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque (dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pégadas estarão cobertas, e não saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.

--Eu, por ora, não vou--lhe disse eu.

--Porque?

--Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola em ondas aos nossos pés, e sobre a nossa cabeça, afigura-se-me o fumo do grande incendio no juizo final! Olha... não te parece que o vento espalha já as cinzas d'uma grande cidade! Não vês Sodoma lá em baixo vomitando columnas de fumo?...

--Eu não vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas visões... vamos embora...

--Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, dá um tiro, que eu lá vou ter. Estou bem aqui; não me mudo por cousa nenhuma.

--Até logo.

IV.

E eu continuei a vêr as minhas visões.

Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em elevações d'alma para cousas de imaginação, que não era esta fria imaginação, que tenho hoje.

Absorvido no meu quadro do juizo final, que só uma phantasia abrasada poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e não fiz caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por aquelles homens, prosa vil, que não tiravam partido do grandioso panorama, que a mão liberal da natureza desenrolava diante de meus olhos absortos.

Não sabeis que o nevoeiro embriaga?

É uma verdade. A cabeça enfraquece; nos ouvidos ha um zunido, que vos faz perder o rumo. Sentis uma sensação desagradavel, semelhante á do giro penoso em que a indigestão do vinho vos traz a cabeça vertiginosa.

Foi o que eu senti, quando me furtei ás minhas contemplações improprias do tempo e do lugar.

Ergui-me, e não sabia já designar a direcção que levára o meu companheiro, nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha clavina, mas a humidade inutilisára a escorva. Os cães, que poderiam ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. Não desanimei.

Tal direcção pareceu-me que deveria ser a melhor, e segui-a. O nevoeiro deixava-me vêr apenas o espaço que pisava. Atravessei a lombada da serra, e comecei a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da encosta, e senti a neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro, descendo, descendo, sem encontrar uma povoação. Conheci que estava perdido. A neve augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de vida! Então, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum lobo.

E, de mais a mais, eu tinha fome.

Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um pedaço de brôa para o meu furão. Reparti-o entre nós. O animalsinho comeu com appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar fóra um gato bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados de neve.

Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo!

Continuei o meu caminho, sem esperanças de encontrar pousada.

Escureceu.

Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre cabeça uma cabeça academica.

Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma povoação, por isso que os castanheiros, campos, e paredes eram indicios de aldêa proxima. N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma sineta, que tocava ás «Ave-Marias.»

Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido. Orei com a devoção dos dezoito annos. Não vos digo mais nada a este respeito, porque me não entenderieis. Sois excellentes pessoas para devorar um romance em dez volumes; mas não lerieis, sem abrir tres vezes a bocca, uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do céo, que o poeta não deve nunca profanar, misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao alcance de todas as capacidades.

Eu creio que entre vós ha entendimentos muito finos, paladares muito apurados no sabor do bello, corações muito brandos para emoções suaves. Creio que sim; mas o melhor é fazer de conta que os não ha.

V.

Minutos depois, achava-me n'uma povoação, onde nunca estivera. Encontrei uma velha que castigava um porco, rebelde á invocação de sua ama, com uma roca.

Perguntei-lhe que povo era aquelle.

--Alpedrinha--disse ella.

Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era necessario pernoitar alli. Perguntei á dita velha onde morava o parocho. Mostrou-me a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que n'esse momento voltava da igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem eu era, e tratou-me delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa de minha familia.

O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da côrte. Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa correcção, e offerecia aos seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em bons crystaes e polida salva de prata.

Momentos depois que eu chegára, apeou á porta do meu sympathico sacerdote um cavalleiro, ainda moço, muito pallido e magro, com chapéo hespanhol, faxa vermelha, e botas d'agua.

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