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Os Lusíadas
Language: pt453 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: Poetry·Classics of Literature
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #27236.
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Produced by Rui Baptista. This book was transcribed from the online scans produced by the Portuguese Biblioteca Nacional Digital (http://purl.pt/1/1/).
OS LVSIADAS de Luis de Ca- moẽs.
COM PRIVILEGIO REAL.
Impreſſos em Lisboa, com licença da ſancta Inquiſição, & do Ordinario: em caſa de Antonio Gõçaluez Impreſſor. 1572.
Eu el Rey faço ſaber aos que eſte Aluara virem que eu ey por bem & me praz dar licença a Luis de Camoẽs pera que poſſa fazer imprimir neſta cidade de Lisboa, hũa obra em Octaua rima chamada Os Luſiadas, que contem dez cantos perfeitos, na qual por ordem poetica em verſos ſe declarão os principaes feitos dos Portugueſes nas partes da India depois que ſe deſcobrio a nauegação pera ellas por mãdado del Rey dom Manoel meu viſauo que ſancta gloria aja, & iſto com priuilegio pera que em tempo de dez anos que ſe começarão do dia que ſe a dita obra acabar de empremir em diãte, ſe não poſſa imprimir nẽ vender em meus reinos & ſenhorios nem trazer a elles de fora, nem leuar aas ditas partes da India pera ſe vender ſem licẽça do dito Luis de Camoẽs ou da peſſoa que pera iſſo ſeu poder tiuer, ſob pena de quẽ o contrario fizer pagar cinquoenta cruzados & perder os volmes que imprimir, ou vender, a metade pera o dito Luis de Camoẽs, & a outra metade pera quem os acuſar. E antes de ſe a dita obra vender lhe ſera poſto o preço na meſa do deſpacho dos meus Deſembargadores do paço, o qual ſe declarará & porá impreſſo na primeira folha da dita obra pera ſer a todos notorio, & antes de ſe imprimir ſera viſta & examinada na meſa do conſelho geral do ſanto officio da Inquiſição pera cõ ſua licença ſe auer de imprimir, & ſe o dito Luis de Camões tiuer acrecentados mais algũs Cantos, tambem ſe imprimirão auendo pera iſſo licença do ſancto officio, como acima he dito. E eſte meu Aluara ſe imprimirà outroſi no principio da dita obra, o qual ey por bem que valha & tenha força & vigor, como ſe foſſe carta feita em meu nome por mim aſſinada & paſſada por minha Chancellaria ſem embargo da Ordenação do ſegundo liuro, tit. xx. que diz que as couſas cujo effeito ouuer de durar mais que hum ano paſſem per cartas, & paſſando por aluaras não valhão. Gaſpar de Seixas o fiz em Lisboa, a .xxiiij: de Setembro, de M.D.LXXI. Iorge da Coſta o fiz eſcreuer.
❧ OS LVSIADAS DE LVIS DE CAMÕES.
Canto primeiro.
As armas, & os ba- rões aſsinalados, Que da Occidental praya Luſi- tana, Por mares nunca de antes na- uegados, Paſſaram, ainda alem da Taprobana, Em perigos, & guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana. E entre gente remota edificarão Nouo Reino, que tanto ſublimarão.
E tambem as memorias glorioſas Daquelles Reis, que forão dilatando A Fee, o Imperio, & as terras vicioſas De Affrica, & de Aſia, andarão deuaſtando, E aquelles que por obras valeroſas Se vão da ley da Morte libertando. Cantando eſpalharey por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho & arte.
Ceſſem do ſabio Grego, & do Troyano, As nauegações grandes que fizerão: Calleſe de Alexandro, & de Trajano, A fama das victorias que tiuerão, Que eu canto o peyto illuſtre Luſitano, A quem Neptuno, & Marte obedeçerão: Ceſſe tudo o que a Muſa antigua canta, Que outro valor mais alto ſe aleuanta.
E vos Tagides minhas, pois criado Tendes em my hum nouo engenho ardente. Se ſempre em verſo humilde, celebrado Foy de my voſſo rio alegremente, Daime agora hum ſom alto, & ſublimado, Hum estillo grandiloco, & corrente, Porque de voſſas agoas Phebo ordene, Que não tenhão enueja aas de Hypocrene.
Daime hũa furia grande & ſonoroſa, E não de agreſte a vena, ou frauta ruda: Mas de tuba canora & belicoſa, Que o peito acende, & a cor ao geſto muda: Daime igoal canto aos feitos da famoſa Gente voſſa, que a Marte tanto ajuda: Que ſe eſpalhe & ſe conte no vniuerſo, Se tam ſublime preço cabe em verſo.
E vos ò bem naſcida ſegurança Da Luſitana antigua liberdade, E não menos certiſsima eſperança, De aumento da pequena Chriſtandade: Vos o nouo temor da Maura lança, Marauilha fatal da noſſa idade: Dada ao mundo por Deos q̃ todo o mande, Pera do mundo a Deos dar parte grande.
Vos tenrro, & nouo ramo florecente, De hũa aruore de Christo mais amada Que nenhũa naſcida no Occidente, Ceſarea, ou Christianiſsima chamada: Vedeo no voſſo eſcudo, que preſente Vos amostra a victoria ja paſſada. Na qual vos deu por armas, & deixou As que elle pera ſi na Cruz tomou.
Vos poderoſo Rei, cujo alto Imperio, O Sol logo em naſcendo ve primeiro: Veo tambem no meio do Hemiſpherio, E quando dece o deixa derradeiro. Vos que eſperamos jugo & vituperio, Do torpe Ismaelita caualleiro: Do Turco Oriental, & do Gentio, Que inda bebe o licor do ſancto Rio.
Inclinay por hum pouco a magestade, Que neſſe tenrro gesto vos contemplo, Que ja ſe mostra, qual na inteira idade, Quando ſobindo yreis ao eterno templo, Os olhos a real benignidade Ponde no chão: vereis hum nouo exemplo, De amor, dos patrios feitos valeroſos, Em verſos deuulgado numeroſos.
Vereis amor da patria, não mouido De premio vil: mas alto, & quaſi eterno Que nam he premio vil, ſer conhecido Por hum pregão do ninho meu paterno. Ouui vereis o nome engrandecido Daquelles de quem ſois ſenhor ſuperno. E julgareis qual he mais excelente, Se ſer do mundo Rei, ſe de tal gente:
Ouui, que não vereis com vãs façanhas Fantaſticas, fingidas, mentiroſas, Louuar os voſſos, como nas eſtranhas Muſas, de engrandecerſe deſejoſas, As verdadeiras voſſas ſam tamanhas, Que excedem as ſonhadas fabuloſas: Que excedem Rodamonte, & o vão Rugeiro, E Orlando, inda quefora verdadeiro.
Por eſtes vos darey hum Nuno fero, Que fez ao Rei, & ao Reino tal ſeruiço, Hum Egas, & hũ dom Fuas, q̃ de Homero A Citara parelles ſo cobiço: Pois polos doze pares daruos quero, Os doze de Inglaterra, & o ſeu Magriço. Douuos tambem aquelle illustre Gama, Que para ſi de Eneas toma a fama.
Pois ſe a troco de Carlos Rei de França, Ou de Ceſar, quereis iqual memoria: Vede o primeiro Afonſo, cuja lança Eſcura faz qualquer eſtranha gloria: E aquelle que a ſeu Reino a ſegurança Deixou, com a grande & proſpera victoria. Outro Ioane, inuicto caualleiro, O quarto, & quinto Afonſos, & o terceiro.
Nem deixarão meus verſos eſquecidos, Aquelles que nos Reinos la da Aurora, Se fizerão por armas tam ſubidos, Voſſa bandeira ſempre vencedora. Hum Pacheco fortiſsimo, & os temidos Almeidas, por quem ſempre o Tejo chora. Albuquerque terribil, Caſtro forte, E outros em quem poder não teue a morte.
E em quanto eu eſtes canto, & a vos nam poſſo Sublime Rei, que nam me atreuo a tanto, Tomay as redeas vos do Reino voſſo, Dareis materia a nunca ouuido canto: Comecem a ſentir o peſo groſſo, (Que polo mundo todo faça eſpanto,) De exercitos, & feitos ſingulares, De affricas as terras, & do Oriente os mares.
Em vos os olhos tem o Mouro frio, Em quem vè ſeu exicio afigurado, So com vos ver o barbaro Gentio, Moſtra o peſcoço ao jugo ja inclinado: Thetis todo o ceruleo ſenhorio, Tem pera vos por dote aparelhado: Que affeiçoada ao geſto bello, & tenro, Deſeja de compraruos pera genro.
Em vos ſe vem da Olimpica morada, Dos ous auôs, as almas ca famoſas, Hũa na paz Angelica dourada, Outra polas batalhas ſanguinoſas: Em vos eſperão, verſe renouada, Sua memoria, & obras valeroſas. E la vos tem lugar no fim da idade, No templo da ſuprema eternidade.
Mas em quanto eſte tempo paſſa lento, De regerdes os pouos, que o deſejão: Day vos fauor ao nouo atreuimento, Pera que estes meus verſos voſſos ſejão: E vereis ir cortando o ſalſo argento: Os voſſos Argonautas, por que vejão, Que ſam vistos de vos no mar yrado, E costumaiuos ja a ſer inuocado.
Ia no largo Occeano nauegauão, As inquietas ondas apartando, Os ventos brandamente reſpirauão, Das naos as vellas concauas inchando: Da branca eſcuma, os mares ſe moſtrauão Cubertos, onde as proas vão cortando. As maritimas agoas conſagradas, Que do gado de Proteo ſam cortadas.
Quando os Deuſes no Olimpo luminoſo, Onde o gouerno esta, da humana gente, Se ajuntão em conſilio glorioſo, Sobre as couſas futuras do Oriente: Piſando o criſtalino Ceo fermoſo, Vem pela via Lactea, juntamente Conuocados da parte do Tonante, Pelo Neto gentil do velho Atlante.
Deixão dos ſete Ceos o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que ſo co penſamento Governa o Ceo, a Terra, & o Mar yrado: Ali ſe acharão juntos num momento, Os que habitão o Arcturo congelado. E os que o Auſtro tem, & as partes onde A Aurora naſce, & o claro Sol ſe eſconde.
Eſtava o Padre ali ſublime & dino, Que vibra os feros rayos de Vulcano, Num aſſento de estrellas criſtalino, Com geſto alto, ſevero, & ſoberano, Do roſto reſpiraua hum ar diuino, Que diuino tornàra hum corpo humano: Com hũa coroa, & ceptro rutilante, De outra pedra mais clara que diamante.
Em luzentes aſſentos, marchetados De ouro, & de perlas, mais abaixo estavão Os outros Deuſes todos aſſentados, Como a Razão, & a Ordem concertauão. Precedem os antiguos mais honrrados, Mais abaixo os menores ſe aſſentauão: Quando Iupiter alto, aſſy dizendo, Cum tom de voz começa, graue & horrendo.
Eternos moradores do luzente Eſtelifero polo & claro aſſento, Se do grande valor da forte gente, De Luſo, não perdeis o penſamento, Deueis de ter ſabido claramente Como he dos fados grandes certo intento Que por ella ſeſqueção os humanos, De Aſsirios, Perſas, Gregos & Romanos.
Ia lhe foy (bem o vistes) concedido Cum poder tam ſingelo & tam pequeno Tomar ao Mouro forte & guarnecido, Toda a terra que rega o Tejo ameno: Pois contra o Caſtelhano tam temido Sempre alcançou fauor do Ceo ſereno. Aſsi que ſempre em fim com fama & gloria, Teue os tropheos pendentes da victoria.
Deixo Deoſes atras a fama antigua, Que co a gente de Romulo alcançarão, Quando com Viriato, na inimiga Guerra Romana tanto ſe affamarão. Tambem deixo a memoria, que os obriga A grande nome, quando aleuantarão Hum, por ſeu capitão, que peregrino Fingio na Cerua eſpirito diuino.
Agora vedes bem, que cometendo, O diuidoſo mar, num lenho leue, Por vias nunca vſadas, não temendo De Affrico & Noto a força a mais ſatreue: Que auendo tanto ja que as partes vendo, Onde o dia he comprido, & onde breue. Inclinão ſeu propoſito, & perfia A ver os berços, onde naſce o dia
Prometido lhe eſtà do fado eterno, Cuja alta ley nam pode ſer quebrada, Que tenhão longos tempos o gouerno Do mar, que vé do Sol a roxa entrada. Nas agoas tem paſſado o duro Inuerno, A gente vem perdida & trabalhada. Ia parece bem feito, que lhe ſeja Mostrada a noua terra que deſeja.
E porque, como viſtes, tem paſſados Na viagem, tam aſperos perigos, Tantos Climas & Ceos experimentados, Tanto furor de ventos inimigos Que ſejam, de termino, agaſalhados Neſta coſta affricana como amigos. E tendo guarnecida a laſſa frota, Tornarão a ſeguir ſua longa rata.
Eſtas palauras Iupiter dezia, Quando os Deoſes por ordem reſpondendo, Na ſentença hum do outro difiria, Razões diuerſas dando & recebendo. O padre Baco, ali nam conſentia No que Iupiter diſſe, conhecendo Que eſquecerão ſeus feitos no Oriente, Se la paſſar a Luſitana gente.
Ouuido tinha aos Fados que viria Hũa gente fortiſsimo de Heſpanha, Pelo mar alto, a qual ſojeitaria Da India, tudo quanto Doris banha: E com nouas victorias venceria, A fama antiga, ou ſua, ou foſſe eſtranha. Altamente lhe doe perder a gloria, De que Niſa celebra inda a memoria.
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