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Paz e Arbitragem
Language: pt346 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: PT Política e Sociedade·History - Modern (1750+)·History - Warfare
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #28914.
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No fim do seculo XIX, nota-se este contraste singular e monstruoso: ao passo que as industrias attingem um desenvolvimento maximo, nunca o poder do militarismo foi maior do que em nossos dias. A guerra é um crime no ponto de vista humanitario; é um crime no ponto de vista social; é um crime no ponto de vista moral; e é um crime no ponto de vista economico e financeiro. O movimento pacifico tem tomado, por toda a parte, proporções assombrosas. Só na Allemanha existem mais de sessenta sociedades da paz. Os Estados-Unidos da America e a Inglaterra revelam-nos, a cada passo, a tendencia para as idéas pacificas, pela pratica da arbitragem. O principio da arbitragem é a maior conquista d'este seculo. É a acção do individuo substituindo-se cada vez mais á acção do Estado. Os amigos da paz, além da suppressão dos exercitos permanentes, pretendem resolver pela arbitragem todos os litigios internacionaes. Nada mais racional e nada mais justo. A democracia moderna fez da arbitragem uma das suas primeiras reivindicações. Haja vista o que succede em todas as grandes republicas; como a Suissa, onde existe um verdadeiro partido pacifico, organisado e disciplinado, tendo por orgão o interessante jornal--_Os Estados Unidos da Europa_, fundado por Charles Lemonnier e como meio de propaganda a Liga da Paz e da Liberdade que foi presidida, nas suas primeiras sessões, por Garibaldi e Victor Hugo; o Brazil que, ainda ha pouco, recorreu a nós na questão relativa á ilha da Trindade; os Estados-Unidos da America que, n'este momento, negoceiam com a Inglaterra um tratado de arbitragem permanente. Os amigos da paz encontram o seu principal ponto de apoio no desenvolvimento intellectual e material das sociedades. As condições economicas hão de impor o desarmamento, n'uma épocha mais ou menos proxima. A guerra só pode aproveitar aos chefes de Estado, ambiciosos de glorias e de conquistas. A guerra e a paz armada constituem um mesmo mal e uma mesma calamidade. A affirmação da paz e a condemnação da guerra entra hoje, como ponto obrigado, de todas as reivindicações operarias. Por occasião do ultimo congresso socialista, que se reuniu em Londres, o meeting de Hyde-Park, em favor da paz, foi de uma imponencia desusada. Affirmar a paz é affirmar o respeito pela vida e pela dignidade humana. Affirmar a paz o mesmo é que consagrar o principio do trabalho. A guerra só pode interessar aos reis e aos imperadores que n'ella encontram o esteio ás suas ambições desregradas e á sua cupidez nunca assaz saciada. A democracia quer e consagra a paz, como suprema aspiração social.
Sustentam alguns que a guerra é uma solução, e que só ella pode resolver as contendas que dividem os povos entre si. Mas, dado que assim fôsse, como se explica que oito mil e tantas guerras nada puderam resolver até hoje? Só Napoleão, á sua parte, causou a morte a 3.700.000 pessoas. Em que melhorou a sorte da França com isso? E, porventura, modificou ou alterou essa horrivel matança, no minimo que fôsse, os destinos da humanidade? Desde 1648 a guerra tem custado á Europa 400 biliões de francos, roubados á producção e ao trabalho. A paz armada absorve dois terços do rendimento das nações. Está calculado que, em impostos directos ou indirectos, a guerra absorve, cada anno, cêrca de um decimo do rendimento de cada francez. O cidadão que possue 10.000 francos de rendimento é obrigado a contribuir, para as despesas de guerra, com mil francos por anno, sem prejuizo de toda a sua fortuna e mesmo da sua vida se ella lhe fôr exigida e reclamada. O operario, independentemente dos tres annos que é obrigado a servir na caserna, dos vinte oito dias de serviço, em tempo de guerra, em cada anno de plena paz, trabalha um mez para a guerra. Egual cálculo se poderia fazer em relação aos outros paizes. Simplesmente monstruoso!
Para fazer cessar semelhante estado de cousas, o movimento pacifico entendeu dever ampliar a sua esphera de acção, dirigindo-se simultaneamente a todas as classes sociaes sem distincção, aos grupos nacionaes, aos partidos politicos, aos governos, aos parlamentos e á grande massa trabalhadora que parece ainda não ter comprehendido claramente as vantagens que, para a civilisação, poderiam advir de um desarmamento geral. A idéa de patria está hoje consubstanciada nos exercitos permanentes, nas alfandegas, n'um proteccionismo economico levado ao seu maximo exaggêro e n'outros meios artificiaes que servem sómente para cavar um abysmo, cada vez mais fundo, entre os povos. Em nome de um falso patriotismo, commettem-se os maiores absurdos e as maiores infamias. No dia em que todos se convencerem que o patriotismo, invocado pelos governos, não passa de um pretexto para illudir e escravisar os povos; no dia em que o proletariado responder ao chamamento ás armas com uma gréve geral ou com a recusa ao serviço militar, n'esse dia terá soado a ultima hora para essa nefasta politica que alguem appellidou a politica dos kilometros quadrados.
A paz é a grande questão, por excellencia, a que estão subordinadas todas as soluções, sociaes, philosophicas e humanitarias. Assim o comprehendem os pensadores, os philantropos, os jornalistas e os publicistas de todos os paizes. Qual o meio de crear uma opinião internacional efficaz, capaz de reagir contra o militarismo?--eis o problema. É, n'este sentido, que se dirigem as vistas de todos os que se interessam pelo bem-estar da humanidade e pelo futuro da civilisação. O movimento pacifico, já hoje muito poderoso, comprehende as quatro divisões seguintes: 1.º, a conferencia inter-parlamentar, exclusivamente composta de delegados dos parlamentos; 2.º, o congresso universal da paz, composto de delegados de todas as sociedades da paz; 3.º, os comités parlamentares; 4.º, as sociedades da paz. A propaganda é, no fundo, obra eminentemente prática para a qual concorrem milhares de trabalhadores. Os grupos inter-parlamentares teem o seu Bureau central, em Berne, e as sociedades da paz teem, como principal orgão, o Bureau internacional da paz, com séde tambem em Berne. As sociedades sobem, presentemente, ao numero de 18 nos Estados-Unidos da America, com uma centena de succursaes e de 69 na Europa, com 190 secções, regularmente constituidas, sem falar dos numerosos grupos locaes. Muitas e importantes sociedades de damas, tendo em vista a reivindicação dos direitos da mulher, pronunciaram-se tambem por uma propaganda energica em favor das idéas de paz. Innumeras sociedades operarias se proclamaram solidarias com a obra da paz. Todas estas organisações se puzeram em contacto, umas com as outras, nos differentes congressos internacionaes (Paris, 1889; Londres, 1890; Roma, 1891; Berne, 1892; Chicago, 1893; Antuerpia, 1894; Budapesth, 1896; Hamburgo, 1897.) O Bureau de Berne serve do centro de communicação aos diversos grupamentos e está em correspondencia, com todos os paizes do mundo. Os partidarios da paz contam com numerosos e importantes orgãos na imprensa de todos os paizes: na França--_La France_; l'Epoque; La paix par le droit; Almanach de la paix; La revue liberale; La Coopération des Idées; Le Devoir; Petits plaidoyers contre la guerre: na Inglaterra--_Concord_; The Herald of Peace: na Suissa--_Les Etats Unis d'Europe_; La conférence inter-parlementaire; Correspondance bi-mensuelle: na Dinamarca--_Fredebladet_; na Suecia--_Ned Med Vapnen_: na Noruega--_Det Norske Frebsblad_; na Italia--Almanach Giu le armi; la libertá e la pace: na Hollanda--_Pax Humanitate_: na Austria--_Die Waffen Nieder_: na Allemanha--_Monatliche Friedens Korrespondenz_: na Belgica--_L'Independance belge_: nos Estados-Unidos da America--_The advocate of peace_; The peace-maker.
Para que se possa avaliar, com exactidão, do movimento que hoje preoccupa os espiritos em todo o mundo civilisado, damos, em seguida, a historia summaria e a lista das sociedades da paz, com o interesse que nos inspiram todas as manifestações do direito, da justiça e da consciencia publica, qualquer que seja o paiz onde ellas se realisem.
1--Sociedade da paz de New-York, fundada em 1815 por um grupo de vinte individuos. Creou um grande numero de secções até á sua fusão com a Sociedade americana da paz.
2--Sociedade da paz de Ohio, fundada em 2 do dezembro de 1815, sob a influencia de uma brochura do dr. Noah Worcester. Contava 8 secções em 1815.
3--Sociedade da paz de Massachusets, fundada em 26 de dezembro de 1815, pela iniciativa do dr. Worcester. Contava 22 membros do momento da sua fundação. Em 1831 tinha 19 secções.
4--Sociedade americana da paz, fundada em Nova York, a 8 de maio de 1828, pela fusão das sociedades de Maine, Massachusets, de Nova York e da Pensylvania. A sua séde foi transferida, em 1837, de Nova York para Boston.
5--Sociedade da paz de Connectitut, fundada em 1935. Creou um grande numero de secções.
6--União universal da paz. Esta sociedade foi fundada, em 1866, pelo sr. Alfredo Love, em Philadelphia, e conta mais de 30 secções, espalhadas nas differentes regiões dos Estados-Unidos, entre outras, Washington, Nova York, Rhode Island, Pensylvania, Massachusets, Connectitut, Carolina do Sul e Chicago.
7--Associação dos amigos da paz da America, fundada, em 1869, em Nova Vienna. Extendeu-se até Richmond.
8--Arbitragem christã e Sociedade da paz, fundada em Philadelphia, em 1866.
9--Departamento da paz, sociedade de damas, fundada, em 1887, pela Senhora Hannah J. Bailey, em Maine.
10--Associação nacional de arbitragem, fundada em Washington, em 1877, por Belva Lockwood.
11--Sociedade nacional da paz, fundada, em 1893, em Kansas.
12--Liga internacional feminina da paz, fundada, em 1895, por Frost Evans, em Mystic, Conn., possuindo secções em várias regiões.
13--Sociedade da paz da Carolina do Sul, Columbia.
14--Sociedade da paz Illinois, Chicago.
15--Sociedade pacifica de arbitragem, California.
16--Sociedade da paz de Rhode Island.
17--Associação dos amigos da paz de Philadelphia.
18--Conselho da arbitragem, Philadelphia.
1--Sociedade da paz, fundada em 14 de julho de 1896, com séde em Londres, e tendo 31 sociedades filiadas como auxiliares.
2--Liga internacional da arbitragem, fundada em dezembro de 1868, em Londres. Possue numerosos grupos.
3--Associação internacional da paz e arbitragem, fundada por Hodgson Pratt, em 1880. Possue uma secção em Oxford, creou uma secção em Bruxellas e muitas outras sociedades da paz na Italia.
4--Sociedade feminina da paz e arbitragem de Liverpool e Birkenhead, fundada em fevereiro de 1886, em Birkenhead.
5--Comité da sociedade dos amigos da paz, fundada em 1888, em Haslemere.
6--União christã da concordia internacional, fundada em Londres, em 1889, pelo fallecido George Gillett.
7--Associação de arbitragem britannica e extrangeira, Liverpool.
8--Associação de arbitragem, Londres.
9--Associação internacional da lei, Londres.
10--Sociedade da paz de Dublin, Dublin.
2--Sociedade francesa da arbitragem entre as nações fundada por Frederico Passy, em 1867, sob a designação de «Liga internacional da paz». Foi denominada mais tarde: Sociedade francesa dos amigos da paz.
3--Grupo dos amigos da paz de Puy-de-Dôme, fundado em Clermont Ferrand.
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