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D. José De Lacerda

Meu presado sir Henry.

Se podesse haver logar a alguma duvida ácerca da importancia de colligir, e metter no corpo da nossa litteratura, as reliquias dispersas das primeiras relações dos descobrimentos geographicos, a duvida acharia condigna resposta na inquieta curiosidade com que os mais esclarecidos anglo-saxões, habitantes da America, voltam a attenção para as particularidades, ainda de menos monta, que respeitam ás primeiras narrações historicas da sua terra adoptiva.

Um vasto campo de colonisação, inferior sómente á America, se está desenvolvendo com rapidez no sul; e podemos presumir naturalmente que se ha de tornar questão de não pequeno interesse para os que tiverem escolhido a Australia como terra natal de seus filhos, o conhecer quaes foram os primeiros descobridores de um territorio tão vasto nas suas dimensões, tão importante nas suas condições essenciaes, e cujo verdadeiro modo de existir se conservou todavia em segredo por milhares de annos.

No anno de 1859 tive a honra de publicar para a sociedade Hakluyt uma obra intitulada Primeiras viagens á terra Austral, comprehendendo uma collecção de documentos e de extractos dos primeiros mappas manuscriptos, tendentes a esclarecer a historia dos descobrimentos sobre as costas daquella vasta ilha, desde o começo do seculo XVI até ao tempo do capitão Cook. Na minha introducção áquella obra coube-me fazer vêr que, na primeira parte do seculo XVI, havia indicações, nos mappas, de ter sido já descoberta a Australia, mas sem documentos escriptos para o confirmar; emquanto que, no seculo XVII ha documentos auctorisados para demonstrarem que as suas costas foram visitadas pelos hollandezes em grande numero de viagens, posto que não se encontrem documentos que as descrevessem immediatamente. As primeiras viagens dos hollandezes foram feitas em 1606, e ficou para todos manifesto, como ponto historico fóra de questão, que, n'aquelle anno, o primeiro descobrimento authentico da Australia foi feito pelos hollandezes.

É meu objecto n'este escripto annunciar que, nos dias ultimamente findos, o Musêo Britannico me deparou um documento, que, sem hesitação, transfere aquella honra da Hollanda para Portugal, por tal modo que dá a este ultimo paiz uma vantagem sobre o primeiro de cinco annos de indisputavel prioridade. O facto de que a Australia foi na realidade descoberta mais de sessenta annos antes, e com toda a probabilidade tambem por portuguezes, não diminue a importancia d'este outro facto--que desejo agora recordar como pela primeira vez revelado--que a primeira viagem conhecida á Australia, a que se póde marcar data, e o nome do descobridor, foi feita pelos portuguezes em 1601. Comtudo, se eu houvesse de limitar-me á simples enunciação do facto, sem mostrar a posição que tem de tomar na historia do indicado e authentico descobrimento da Australia, receio que a noticia por mim annunciada fosse para vós tão destituida de interesse, como a mim proprio me deixaria descontente. A fim, por tanto, de estabelecer com clareza a minha questão, julgo que devo apresentar-vos um summario do que mais amplamente já escrevi na introducção da minha obra Primeiras viagens á Australia, declarando, que por amor da brevidade, tenho omittido as circumstancias de menos momento, e algumas vezes modificado a minha linguagem; porém não me atrevi, por mera ostentação, e quando não ha com isso a ganhar, a fazer alteração no que primeiramente havia escripto. Um tal procedimento affigurou-se-me pouco delicado e menos digno.

Fallei das suppostas indicações da Australia, porque, assim como em relação á America, assim tambem em relação á Australia, podem assignalar-se suspeitas da existencia d'aquelles differentes territorios nos escriptos dos antigos, nos monumentos geographicos da idade média, e, testimunhos ainda mais positivos, com respeito á Australia, nos bem delineados mappas manuscriptos da primeira parte do seculo XVI.

Entre os primeiros escriptores, a citação mais notavel que posso offerecer com referencia ao continente austral, é a que se encontra no Astronomicon de Manilio, liv. 1.º, v. 234-238, onde, em seguida a uma extensa dissertação, diz:

Ex quo colligitur terrarum forma rotunda: Hanc circum variae gentes hominum atque ferarum Aeriaeque colunt volucres. Pars ejus ad arctos Eminet, Austrinis pars est habitabilis oris, Sub pedibusque jacet nostris.

A data em que Manilio escreveu, posto que não possa fixar-se com exactidão, suppõe-se, com fundamento nas conclusões deduzidas das provas internas que nos suggere o seu poema, que foi no reinado de Tiberio.

No ultimo periodo, a crença da existencia de um grande continente austral anterior aos descobrimentos dos portuguezes no oceano Pacifico, demonstra-se pelos mappas manuscriptos e outros monumentos geographicos, colligidos pelas investigações do meu chorado amigo, o fallecido erudito, e laborioso visconde de Santarem no seu Essai sur l'Histoire de la Comosgraphie et de la Cartographie du Moyen Age. No vol. I, pag. 229 d'esta obra, informa-nos de que «D'autres cartographies du moyen-âge continuèrent à représenter encore dans leurs mappemondes l'Antichthone, d'après la croyance qu'au delá de la ceinture de l'océan Homérique il y avait une habitation d'hommes, une autre région temperée, qu'on appelait la terre opposée, ou il était impossible de pénétrer á cause de la zone torride.»

A mais antiga asserção do descobrimento de uma terra que tem posição, no primeiro mappa, analoga á da Australia, foi feita a favor dos chins, que se suppoem terem tido conhecimento daquellas costas muito antes do periodo da navegação européa ao oriente.

Thévenot, nas suas Relations de divers voyages curieuses, part. I, pref. París, 1663, diz: «La terre Austral, qui fait maintenant une cinquième partie du monde, a été découverte á plusieurs fois. Les chinois en ont eu connaissance il y a longtemps; car l'on voit que Marco Polo marque deux grandes isles au sud-est de Java, ce qu'il avait appris apparemment des chinois».

A relação de Marco Polo descreve um territorio na direcção da Australia, que contêm oiro, elephantes e especiarias, descripção que se vê claramente não poder applicar-se á Australia. Sem duvida houve erro na direcção da indicação suggerida, e parece certo que a terra que se pretendeu descrever era a Cambodia. Não me detenho a dissertar sobre os varios erros crassos a que esta relação deu origem, em presença dos primeiros mappas hollandezes, gravados, que appareceram na derradeira parte do seculo XVI. Fallei d'elles circumstanciadamente no meu Hakluyt. São interessantes em relação ao importante territorio a que parece terem referencia, e na realidade recrêam pela sua natureza, variedade e numero.

O primeiro descobrimento da Australia, reclamado por alguma nação, é o de um francez chamado Binot Paulmier de Gonneville, natural de Honfleur, que deu á vela d'aquelle porto em junho, 1503, de viagem para os mares do sul. Depois de ter dobrado o cabo da Boa Esperança, foi assaltado d'uma tempestade que o lançou sobre uma terra desconhecida, na qual foi tractado com hospitalidade, e d'onde, depois da demora de seis mezes, voltou á França, trazendo coinsigo o filho do rei d'aquella região. Infelizmente o diario de Gonneville, na sua tornada, cahiu nas mãos dos inglezes e perdeu-se; porém um ecclesiastico, descendente d'um dos naturaes d'esta região austral, que fôra casado com uma parenta de Gonneville, havia colligido das tradições, e papeis avulsos da familia, e egualmente d'uma declaração judicial, feita perante o almirantado francez em data de 19 de junho de 1505, materiaes para a obra que foi impressa em París por Cramoisy em 1663, intitulada Mémoire touchant l'établissement d'une mission chretienne dans la terra Australe; par un ecclesiastique originaire de cette même terre. O auctor, de feito, estava animado do ardente desejo de prégar o Evangelho na terra dos seus antepassados, e consumiu a vida em diligenciar obter dos que tinham a seu cargo as missões estrangeiras o enviarem-no para alli; e demais d'isso, preencher d'alguma sorte, a promessa que fôra feita pelo primitivo navegador francez de que visitaria novamente aquella região. O trato amigavel com os naturaes, descriptos por Gonneville, que falla d'elles como tendo feito alguns progressos na civilisação, é absolutamente incompativel com o caracter desleal e barbara crueldade que vemos attribuida aos naturaes da Australia-Norte por todos os mais recentes viajantes. «Considere-se toda a narração desprevenidamente, diz Burney, e a idea que de prompto e muito naturalmente ha de occorrer é que a India Austral, descoberta por Gonneville, foi Madagascar. Tendo rodeado o Cabo, foi arrojado pelos temporaes para as latitudes pacificas, e tão proximo d'esta terra que para alli foi encaminhado pelo vôo dos pássaros. Outro ponto que merece ser conhecido, a recusa da tripulação de proseguir até á India Oriental, difficilmente póde crer-se que tivesse logar, a estarem tanto ávante para o nascente como a Nova Hollanda.»

Reclamação mais razoavel do que a precedente, ao descobrimento da Australia nos principios do seculo XVI, pode ser produzida pelos portuguezes, fundando-se no testimunho de varios mappas manuscriptos ainda existentes, pois que a tentativa, feita recentemente, de accrescentar a honra d'este descobrimento a Magalhães, na famosa viagem do Victoria ao redor do mundo em 1520, é, como procurei mostrar, de todo o ponto insustentavel. A reclamação d'esta honra para a Hespanha, é defendida nos seguintes termos no Compendio Geographico Estadistico de Portugal y sus posesiones ultramarinas por Aldama Ayala, 8.º Madrid, 1855, p. 482: «Os hollandezes reclamam o descobrimento do continente da Australia no seculo XVII, com quanto haja sido descoberta por Fernando de Magalhães, portuguez, de ordem do imperador Carlos V, no anno de 1520, como se prova com documentos authenticos, taes como o Atlas de Fernando Vaz Dourado, feito em Goa em 1570, n'um dos mappas do qual está traçada a costa da Australia. O dito magnifico Atlas, illuminado com perfeição, conservava-se antigamente na livraria da Cartucha em Evora.»

Similhante reclamação foi tambem feita por um seu distincto conterraneo, embora a viagem fosse emprehendida em serviço da Hespanha, em um almanack publicado em Angra, na ilha Terceira, pela imprensa do governo em 1832, e composto, segundo se suppõe, pelo visconde de Sá da Bandeira, actual ministro da Marinha em Lisboa.

Na investigação d'este assumpto tive por fortuna o auxilio do dr. Martin, de Lisboa, editor do Mariner's Tonga Islands, cujo exame do mappa de Dourado me dá o convencimento de que o tracto descripto no mappa como descoberto por Magalhães, é de feito um memorandum ou nota-marginal carthographica do real descobrimento da Terra do Fogo por Magalhães, e que, em consequencia da sua inexacta collocação no pergaminho, foi ao depois applicada erradamente por Mercator áquella parte do mundo agora conhecida como Australia, e d'ahi a reclamação de que se tracta.

Agora porém passo a uma indicação mais plausivel do descobrimento da Australia pelos portuguezes na primeira parte do seculo XVI, que decorre entre os annos de 1512 e 1542. Esta indicação acha-se por fórma similhante em diversos mappas manuscriptos, todos francezes, onde, immediatamente abaixo de Java, e separado d'aquella ilha sómente por um apertado braço do mar, está traçado, na margem dos differentes mappas, um largo territorio que se vai estreitando para o sul. Este territorio é chamado a grande Java. No maior numero d'estes mappas, o largo territorio continúa sempre ao longo da porção sul do globo, formando a grande terra Austral, em que desde tempos immemoriaes tão largamente se tem acreditado, e juntando-se novamente com o mundo conhecido na Tierra del Fuego. Mas n'um d'estes mappas occorre uma excepção, muito para notar, a esta regra; o traçado da costa dos dois lados, oriental e occidental, da grande Java, termina em pontos que offerecem fundado argumento de que representam os actuaes descobrimentos. Por exemplo, o ponto mais austral em que termina o traçado da costa occidental é o grau 35, latitude real do ponto sudoeste. O traçado da costa oriental não é tão correcto, mas estende-se muito por baixo do ponto mais ao sul da terra de Van Diemen; comtudo pela sua distante posição teria de ser a parte de menos provavel investigação, e, posto que incorrectamente delineado, concorda com o facto geral de que a inclinação sul do traçado oriental da costa é muito maior que o da linha occidental. Com respeito á longitude da grande Java, póde affirmar-se que, apesar de todas as discrepancias que se notam nos mappas, não ha outro territorio que demore dentro das mesmas parallelas e na mesma extensão, entre a costa oriental da Africa e a costa occidental da America; e que a Australia realmente jaz entre os mesmos meridianos que a grande massa de territorio ali traçada. Relativamente ao contorno da costa, basta um mero relancear dos olhos para descobrir a geral similhança no lado occidental, embora no oriental as discrepancias, como era de esperar, sejam mais consideraveis.

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