Storieta
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A obra Historia de Portugal de Joaquim Pedro Oliveira Martins apresenta‑se como um estudo historiográfico que parte da análise da civilização ibérica para, em seguida, concentrar‑se na particularidade da história portuguesa. O autor explica que, ao tratar da “segunda metade” da narrativa, pretende ir além da mera exposição de fatos, descrevendo personagens, motivações e circunstâncias de modo a revelar o caráter moral e social da nação. O texto de abertura já indica a intenção de combinar o conhecimento factual com a intuição histórica, reconhecendo as imperfeições da obra e convidando o leitor a aceitar uma abordagem que mescla análise institucional com retrato dos indivíduos.

O estilo é denso, reflexivo e carregado de linguagem do século XIX, com longas sentenças e vocabulário erudito que revelam a preocupação do autor em conciliar o idealismo filosófico com a crueza dos acontecimentos. Essa combinação de rigor acadêmico e tom quase literário atrairá leitores interessados em história de Portugal, em debates sobre identidade nacional e em obras que exigem atenção e paciência para ser absorvidas. Também pode agradar a quem aprecia a escrita de historiadores clássicos, como Alexandre Herculano, que buscam compreender as raízes culturais e políticas da Península Ibérica.

The opening · free to read

Na Historia da civilização iberica tratámos de estudar o systema de instituições e de idéas da sociedade peninsular, para expôr a sua vida collectiva, organica e moral. Tomámos ahi a sociedade como um individuo, e procurámos retratal-o phisica e moralmente. Agora o nosso proposito é diverso. Tratando da historia particular portugueza, somos levados a encarar principalmente o segundo dos aspectos essenciaes da historia geral. A sociedade portugueza, como molecula que é do organismo social iberico, peninsular, ou hespanhol--estas tres expressões teem aqui um alcance equivalente--obedeceu, nos seus movimentos collectivos, ao systema de causas e condições proprias da historia geral da peninsula hispanica. Por isso procurámos sempre, na obra referida, indicar o modo pelo qual as leis geraes se realisavam simultaneamente nas duas nações hespanholas: duas, porque a historia assim constituiu politicamente a Peninsula.

Metade da historia portugueza está, portanto, escripta na Historia da civilisação iberica: a metade que trata da vida da sociedade, como um ser organico. Comprehender-se-ha, pois, que nos abstenhamos agora de repetir o que está dito, e que nos limitemos a enviar o leitor para esse livro; indicando, quando fôr necessario, o logar onde poderá encontrar a explicação das causas geraes a que no texto se tem de alludir.

Resta fazer a segunda metade: resta caracterizar o que ha de particular na historia portugueza; resta fazer viver os seus homens, e representar de um modo real a scena em que se agitam: tal é o programma d'este livro, cujas difficuldades de execução excedem em muito as do anterior. N'esse, bastavam o conhecimento e o pensamento: um para nos dizer como foram as cousas, outro para nos indicar o principio e o systema da civilisação. Agora carece-se do faro especial da intuição historica, e d'um estylo que traduza a animação propria das cousas vivas. Toda a longanimidade do leitor será pois necessaria para desculpar as imperfeições da obra.

É mistér indicar ainda outro assumpto e prevenir uma impressão, natural em quem ler successivamente as duas obras. A Historia de Portugal consiste n'uma serie de quadros, em que, na maxima parte das vezes, os caracteres dos homens, os seus actos, os motivos immediatos que os determinam e as condições e modo porque se realisam, merecem antes a nossa reprovação do que o nosso applauso. Crimes brutaes, paixões vis, abjecções e miserias, compõem, por via de regra, a existencia humana; e por isso mais de um moralista tem condemnado o estudo da historia como pernicioso para a educação.--Por outro lado, a Historia da civilisação iberica respira um enthusiasmo optimista que, ao primeiro exame, pareceria contradictorio com o pessimo e mesquinho caracter que as acções dos homens apresentam. Um exemplo bastará para demonstrar este antagonismo: além considerámos as conquistas americanas e asiaticas uma obra heroica, e agora veremos que montanha de ignominias foi o imperio portuguez no Oriente.

Esta contradicção, real para o criterio abstracto, não existe, porém, para o criterio historico. Toda a boa philosophia nos diz que o homem real é a imagem rude de um homem ideal, que essa imagem vive no mundo inconscientemente, e que todas as acções dos homens, maculadas de defeitos e vicios, obedecem a um systema de leis, idealmente sublimes. É esta verdade que o povo consagrou quando formulou o adagio: Deus escreve direito por linhas tortas.

Pesada esta consideração, que não podemos agora desenvolver de um modo cabal, vêr-se-ha como na historia de uma civilisação os caracteres particulares das acções dos homens, fundindo-se no systema geral de principios e leis que os determinam, perdem individualidade, e não valem senão como elementos componentes de um todo superior: que sejam humanamente bons ou maus, importa nada, porque só nos cumpre attender ao destino que os determina, e a moral é um criterio incompetente para a esphera ou categoria collectiva de que se trata.

Na esphera dos movimentos de instituições e idéas, na categoria da vida social, as acções dos homens são sempre absolutamente excellentes; porque a supremacia da sociedade sobre o individuo consiste no facto da existencia de uma consciencia superior da Idéa, no organismo que se diz sociedade. Os poetas épicos, seres privilegiados cuja voz não é propria, senão collectiva, são os orgãos vivos da consciencia de uma civilisação: assim Camões sente e exprime a grandeza historica do imperio das Indias, que na propria opinião particular do poeta são uma Babylonia, um poço de ignominias.

Esclarecido este lado do problema, embora de um modo incompleto e rapido, resta-nos dizer que na segunda metade da historia, na que trata dos individuos e dos episodios, na que pinta os costumes e os pensamentos, o criterio é outro: por isso affirmámos que a historia é uma lição moral. Nos vicios e nas virtudes, nos erros e nos acertos, na perversidade e na nobreza dos individuos que foram, ha um exemplo excellente. Na sabedoria ou na loucura dos actos politicos e administrativos passados ha um meio de prevenir e encaminhar a direcção dos actos futuros. A historia é, n'esse sentido, a grande mestra da vida.

Se os vicios, os erros, o crime e a loucura predominam sobre as virtudes, os acertos, a nobreza e a sabedoria dos homens, como sem duvida predominam, iremos por isso condemnar a historia por perniciosa? Não, decerto. Apresentar crua e realmente a verdade é o melhor modo de educar, se reconhecemos no homem uma fibra intima de aspirações ideaes e justas, sempre viva, embora mais ou menos obliterada. Conhecer-se a si proprio foi, desde a mais remota Antiguidade, a principal condição da virtude.

[1] V. Th. da hist. universal, nas Taboas de chronol., pp. VI-XXII.

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