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Memorandum

O negocio do marfim corria bastante mal, em Tete, durante o anno de 1885; as caravanas do sertão não affluiam, e as transacções estavam quasi paralysadas; por isso resolvi partir para o interior, a fim de adquirir aquella mercadoria tão perto quanto me fosse possivel do seu logar de producção.

Em principios de março organisei uma expedição composta de 300 indigenas, caçadores de elephantes, e parti em direcção de Cachombe, transpuz o Zambeze em Chabonga, e, depois de dezoito dias de marcha, cheguei á aldeia de Chirupe, na terra dos Sengas, a um dia de distancia de Aroangoa Grande, onde me estabeleci e fortifiquei no intuito de enviar d'ali os meus caçadores em procura do marfim, ficando ao abrigo de quaesquer ataques dos indigenas.

Andava eu pouco satisfeito com os resultados da caça, quando os meus caçadores encontraram no mato uma expedição guerreira do grande regulo Mpesene, o que me offereceu favoravel ensejo para eu enviar a este potentado um pequeno presente, pedindo-lhe licença para caçar nos seus territorios, onde n'esse tempo ainda havia uma grande quantidade de elephantes.

Dois mezes depois via satisfeito o meu desejo, pois recebia a visita de uma grande embaixada do Mpesene, tendo á sua frente o ministro da guerra Cassamba Moropa, e um dos filhos do potentado por nome Madzi Mauvi, que vinham convidar-me para me ir estabelecer definitivamente nos seus estados.

Deixei o estabelecimento de Chirupe a cargo de um dos meus capitães, e segui para as terras do Mpesene, apenas acompanhado por alguns caçadores.

Fui admiravelmente recebido, contribuindo poderosamente para isso uma circumstancia fortuita que me conquistou inesperadamente a estima do soberano e do seu povo. Á minha chegada, em meiados de dezembro, reinava entre os landins de Mpesene grande desgosto e excitação por causa da falta das chuvas; em balde eram sacrificadas, nas aras das divindades indigenas, numerosas cabeças de gado; a secca prolongava-se extraordinariamente, e com ella cresciam as ameaças de fome. Por milagrosa fortuna da expedição a minha entrada na principal povoação do Mpesene, Matengulene, coincidiu com um copiosissimo aguaceiro; e os indigenas, crentes de que eu lhes trouxera a desejada chuva, receberam-me com as mais enthusiasticas demonstrações de alegria.

Facil foi por isso obter licença para constituir ali um estabelecimento permanente. Alcançada a permissão, parti para ir buscar a parte da minha expedição, que eu deixára junto ao Aroangoa, offerecendo-me o chefe, já por essa occasião, um valioso presente de marfim.

Volvi a Matengulene em principios de 1886, e ali me demorei mais de dois annos, dirigindo as excursões dos meus caçadores e recolhendo o marfim, que trouxe para Tete quando regressei, em principios de julho de 1888.

Em novembro do mesmo anno, achando-se o governador geral da provincia, conselheiro Augusto de Castilho, em visita á villa de Tete, tive ensejo de contar a s. exa. o modo por que fôra recebido nas terras do Mpesene, e o respeito com que elle e os seus acatavam os brancos, considerando-os representantes do Geral, titulo com que designavam o governador de Tete, a maior auctoridade que elles conheciam, ainda assim, por antiga tradição.

Encareci a s. exa. quanto seria vantajoso para o governo portuguez estreitar relações com aquelle poderosissimo chefe, e avançar consideravelmente para o norte, onde os portuguezes são ainda o unico povo europeu conhecido, e cuja influencia não póde ser contestada.

No 1.º de dezembro de 1888 dirigia-me o sr. conselheiro Castilho um officio, em que me pedia, em nome do governo portuguez e no interesse da dilatação do seu dominio, que na minha proxima viagem aos sertões de Mpesene, usasse da já poderosa influencia que eu adquirira, para convencer o regulo de que devia acceitar a soberania de Portugal.

Recommendava-me o sr. Castilho que estendesse quanto possivel para o norte o prestigio e influencia dos portuguezes, e, para dar um caracter perfeitamente official á expedição que eu era encarregado de dirigir, collocava ao meu lado, como representante da auctoridade do governo e encarregado de redigir quaesquer autos ou tratados, o sr. tenente Mesquita e Solla, secretario do governo de Tete, que ficaria residindo junto ao regulo quando eu, em virtude de negocios meus particulares, tivesse de ausentar-me.

Só em 6 de março me foi possivel partir para Cachombe, acompanhado pelo sr. tenente Mesquita e Solla, e munido das necessarias instrucções que opportunamente recebera.

Correu sem novidade a viagem de dez dias até Cachombe, porém aqui tivemos de nos demorar quatro mezes, por causa das intrigas que urdira contra nós o capitão mór da localidade, Luiz Firmino, que por todos os meios procurava impedir a visita de uma expedição áquelles ricos e vastissimos territorios.

Avisára elle o Mpesene de que nós lhe íamos fazer guerra e que devia desconfiar de nós; e o chefe landim começava a acreditar no que o capitão mór insinuava e ía reunindo contra nós grandes forças, cuja noticia nos chegava pelos maraves d'alem Zambeze.

N'estas condições julguei menos conveniente arriscar o exito da expedição e deliberei enviar ao regulo uma pequena embaixada composta de homens de confiança, conhecidos do Mpesene e habituados a tratar com elle.

Voltou a embaixada depois de ter aplanado todas as difficuldades, e acompanhada por uma outra que o Mpesene mandava encontrar-se comnosco para nos conduzir ás suas terras.

O resultado futuro da expedição afigurava-se-nos de novo auspicioso, mas eram já irremediaveis as despezas occasionadas pela demora de quatro mezes, consumidos n'uma esteril inacção, e as perdas que provinham para mim da sustentação durante esse tempo dos meus caçadores, que representavam o principal capital do meu negocio.

Atravessámos finalmente o Zambeze, junto á povoação de Chacanga, a dois dias de viagem para montante das cataractas de Caborabassa.

Para não descurar os intuitos politicos da minha missão, procurei logo avistar-me com o poderoso Chanquaniquire, regulo da Maravia de oeste, territorio onde abundam as minas de oiro, de prata e de estanho, banhado pelo Zambeze, entre os rios Boosi e Luya que o limitam a oeste e leste, estendendo-se para o norte até aos montes Mefingue. Em 10 de junho de 1888 firmava-se o tratado que restabelecia a soberania portugueza na parte meridional da Maravia, de que os antigos escriptores tanto se occuparam e cuja interessantissima descripção se póde ler no livro de Gamito e Monteiro, O Muata Cazembe.

Aproveitámos tambem a occasião para visitar o chefe Chincoco, feudatario do Chanquaniquire, avisal-o da submissão do seu suzerano, e obter a sua annuencia e promessa de inteira obediencia e lealdade para com o governo portuguez. Esta submissão pessoal do Chincoco tinha para nós maior importancia por ser este vassallo do Chanquaniquire indigitado como successor do regulo do Unde, isto é, futuro soberano da Maravia oriental.

Firmadas as nossas excellentes relações com o Chincoco, partimos para o norte em direcção á aringa do Catumba, tributario já do Mpesene, comquanto as suas terras façam parte da Maravia oriental, e paguem tambem imposto a Unde.

D'elle alcançámos que promettesse deixar caçar nos seus territorios os subditos portuguezes, sem lhes pôr impedimento nem mesmo lhes exigir o dente da terra; obrigando-se mais o potentado a proteger e auxiliar, quanto fosse necessario, os nossos correios que atravessassem os seus dominios no transito entre Tete e os estados do Mpesene.

Catumba tem a sua capital no cume de uma elevada e quasi inaccessivel montanha, Chingilisia, que domina toda a vasta e fertil planicie circumvizinha; é ponto de superior importancia estrategica, e certamente um dos primeiros a occupar para quem pretenda ter segura posse dos valiosos territorios que se estendem até aos confins dos estados de Mpesene.

Em 14 de julho de 1888 entravamos em Matengulene, capital do Mpesene, e faziamos fluctuar ali, pela primeira vez desde que a dominam zulus, a bandeira de um paiz civilisado, a bandeira portugueza.

Esperava-nos excellente recepção por parte do poderoso rei e dos seus indunas, principalmente do meu velho amigo Cassamba-Moropa, que ainda encontrámos no exercicio do seu cargo.

Mpesene acceitou com reconhecimento a bandeira portugueza, que logo fez arvorar, e firmou comnosco um tratado de vassallagem datado de 20 de julho, em que o chefe zulu se obriga a manter abertos os caminhos para o Zambeze, e a cessar as suas continuadas correrias, que assolavam o paiz marave, com grande prejuizo do commercio.

Em diversos e successivos documentos confirmaram os filhos de Mpesene a obediencia do pae á corôa portugueza; por vezes se repetiram, com intervallo de muitos mezes, as solemnes declarações do potentado indigena, que até mais de uma vez aproveitou a presença de um viajante estrangeiro, o subdito britannico Alfred Sharpe, para assignalar bem a estreiteza das suas relações com as auctoridades que a expedição de meu commando representava.

Numerosos documentos attestam e confirmam, pela presença de varias testemunhas, a fidelidade do Mpesene, dos seus filhos e dos seus grandes.

Para deixar perduravel impressão no animo do chefe zulu, e tomar posse, por assim dizer, das concessões que elle fazia, não bastava uma simples visita e a conclusão de um tratado; por isso a expedição resolveu permanecer ali durante bastantes mezes, e construir um estabelecimento com um caracter permanente, que serviria de quartel general, verdadeira base de operações de onde deviam irradiar as explorações que em diversos sentidos se foram emprehendendo, e que nos permittiria vigiar de perto quaesquer tentativas que podessem fazer-se para subtrahir aquelles territorios á influencia portugueza.

Construimos por isso uma vasta casa de habitação para os europeus, um quartel para 200 caçadores indigenas, e numerosas casas tanto para os capitães como para os brancos que por ali passassem; completavam a nossa installação uma boa cozinha, e um vasto jardim, onde cultivavamos os legumes europeus: couves, alfaces, ervilhas, batatas, nabos, varias qualidades de feijão, etc.

Enormes rebanhos de gado, vastos milharaes de excellentes qualidades, abundantissimo leite e optima manteiga, asseguravam á expedição uma facil e variada alimentação, que raras vezes será possivel igualar em terras africanas muito mais civilisadas.

Um clima admiravel, vastissimas planicies limitadas por elevadas montanhas, aguas abundantes, frescas e purissimas, pastagens que dispensam toda a cultura, e que asseguram a faculdade de alimentar innumeros rebanhos, tudo contribue para tornar o paiz do Mpesene extremamente apto para a colonisação europea, que desde logo encontraria nos indigenas o auxilio indispensavel e uma intelligente collaboração.

A raça zulu, pura aqui de toda a mescla, é certamente a mais elevada e nobre das que se encontram na Africa meridional; selvagem, é ella de certo, cruel por vezes, como todas as raças guerreiras; mas nobre tambem como todas as raças que têem a consciencia da propria superioridade.

É certamente com os grandes centros de população que offerecem os zulus de Mpesene, e com os recursos que elles crearam, com os seus gados e variadas provisões, que deveremos contar para repovoar e explorar os vastos territorios que se estendem para o sul quasi até ao Zambeze; o antigo paiz Marave, cuja riqueza foi tão celebrada outr'ora hoje devastado pelas incursões dos zulus a que a civilisação europêa não tentára nunca por um dique, e cuja energia, prejudicial quando abandonados ás impulsões dos seus instinctos selvagens, péde ser tão util desde que os dirija superiormente a influencia europêa que elles acceitam e acolhem com tão favoraveis disposições.

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