Escreveu Castilho tudo isto aos poucos, entre outras variadas tarefas, para um periodico, que redigia em Ponta-Delgada: O Agricultor Michaelense.
Na solidão do seu viver, então muito incerto e cheio de saudades, entre um rancho de cinco filhos pequeninos a pedirem-lhe instrucção e educação, no meio de um povo amigo predisposto para o bem, e com a visinhança do mar, que tanto influe a pensamentos sérios, acordaram no antigo ermitão do Caramulo, no ex-redactor da Revista Universal, os pensamentos rasgadamente humanitarios, que o desvelaram e absorveram no resto da vida. Orientou-se, sem o suspeitar, no sentido pratico do bem; e toda a sua alma de homem bom e de poeta vibrou em anhelos de felicitação publica. Esses anhelos tomaram forma litteraria, e deram a presente série de artigos, dictados desde Janeiro de 1848 até Dezembro de 1849.
Via então Castilho a regeneração da Patria, d’esta Patria que elle tanto amou, consubstanciada n’uma ideia unica: o desenvolvimento da Agricultura, e da Instrucção popular. ¿Enganar-se-hia?
A campanha que nos annos proximos havia de sustentar, com a penna, com a palavra, com o amor, com a ira, e com annos de existencia, começou, a bem dizer, aqui. Este opusculo marca uma epoca da vida de Castilho.
Com os seus alti-baixos de forma, com a sua exuberancia opulenta, com as suas loucuras sérias tão sublimes, com o seu desalinho familiar, que por si mesmo consegue impôr-se, são estas paginas o acordado sonho de um vidente, que adianta tres seculos á sua era. As utopias do autor encapellam-se, como antecipação grandiosa e gloriosa, que lhe retrata a indole.
¿São lembranças irrealisaveis algumas para desde já? sel-o hão; mas dos devaneios e aspirações dos homens de alma tem a Humanidade lucrado sementes de muitos bens. Lançadas á terra intellectual, veem a final a germinar, e a desatar-se em flores e frutos.
Deixar devanear estes grandes sonhadores, cuja região se libra a meio-caminho entre o presente e o futuro, entre o real e o ideal, entre a terra e o ceo. Escutemol-os, que para algures, não sonhado de nós outros, nos levam estas sereias do bem:
Preciosas revelações auto-biographica: se nos deparam no livro a cada passo, aproveitadas já, e detidamente explicadas (quanto o podem ser) nas suas Memorias.
Pobre e desajudado, pugnou, quanto soube e poude, em favor de uma ideia, que o alimentou e o aniquilou: a civilisação da sua terra.
É um livro singular este, que se não pode ler sem respeito e commoção. O pensador transparece no poeta. O lyrico devaneador completa-se no philosopho. O patriota realça-se pelo christão.
Exhala-se de cada paragrapho um vago perfume campestre, que é verdadeira delicia: a mente do escritor foge, sempre que pode, para as solidões das hortas e dos casaes; as metaphoras são tomadas quasi sempre ao viver rural; a linguagem, portugueza de lei, sabe ao bom falar dos montanheiros.
Se elle tivesse refundido a obra, deixal-a-hia de certo mais perfeita; mais sincera não a podia deixar. ¿E que melhor prenda do que a sinceridade?
Advertencia
Reuni para este livrinho algumas das minhas utopias, já publicadas em um pequeno, mas bonissimo, periodico mensal provinciano, O Agricultor Michaelense, a fim de que o outono, que tão cedo vem ás folhas periodicas, não destruisse com ellas os meus pensamentos de amor dos homens. A esses artigos, alguns outros, ainda que poucos, ajuntei de identica natureza.
Diz-me a consciencia, que a maior parte das minhas esperanças n’estas paginas vem prematura, e que poucos d’estes bons e santos desejos, ou nenhuns, se realisarão em vida dos nossos netos.
Á consciencia respondo: que, se eu tivesse de viver duzentos annos mais, ou se d’aqui a duzentos annos houvesse de renascer, de boa-mente reservaria para então o que hoje antecipo.
Os intolerantes, os fanaticos de cada parcialidade politica, terão muito que abocanhar n’este pobre escrito. Pedir-lhes misericordia, ou mesmo justiça, fôra tempo perdido. Dir-lhes-hei só, que não escrevi para elles. Os homens bons e sinceros, que são os que me importam, ainda quando não concordem comigo, louvarão as minhas intenções.
Se, em uma ou outra parte, eu parecer por ventura censor, em demasia acre, de coisas do meu tempo (de pessoas nunca); se d’ahi quizerem inferir mexeriqueiros, que as minhas rasões são proclamações, e os meus entranhados amores de alma, clamores e rebates sediciosos, não lhes hei-de oppôr (o que aliás fôra verdade, e que de si se apresenta), que as revoluções não são os livros quem as faz, mas sim as coisas; as obras, ou a falta de obras, dos poderosos, e não as palavras dos obscuros e inermes; que as paginas só teem força activa, quando os actos que n’ellas se tratam lh’a communicam; e que essa força activa, ainda quando nem uma lettra se escreva, e então muito mais, sempre existe e sempre actua; que, em summa, o attribuirem ao meu livro efficacia para concitar as turbas, é fazerem-me ao mesmo tempo honraria demasiada, e demasiada injuria.
Não amo revoluções, nem as quero, nem creio n’ellas; tenho vivido este ultimo meio seculo, e não ignoro, de todo, o como doidejaram os precedentes; mas, ainda que para ahi me fugisse a vontade (que não foge), faltavam-me a voz e o desembaraço, indispensaveis para o papel, pelo menos extravagante, de tribuno. Se alguma coisa a tal respeito pregoei, mais foi contra as insurreições, que a favor d’ellas; mais foi gritar aos governantes, que se houvessem de collar no officio por boas obras, do que aos governados, que os derribassem; quando não, é consultar o livro a cada passo.
Se descreio em algum, ou alguns, dos presuppostos artigos de fé constitucional, não é culpa minha, nem é culpa; affiro-os pela rasão pura; avalio-os pelos resultados; comparo-os cá dentro, no meu fôro, já com as obras inconsequentes, já com os versateis discursos de muitos dos estadistas, que por elles fazem obra; e digo, com toda a paz da minha philosophia humilissima, que me parece não seria mau pensarmos outra vez um pouco em taes artigos. Toda a discussão dá luz; e toda a luz é creadora. As theses politicas não são porém as minhas; as minhas, o epilogo do meu livro, a isto se reduzem: temos terra, que pode ser mais e melhor cultivada; devemos cultival-a; temos alma, que pode ser mais e melhor allumiada; devemos allumial-a; temos coração, que pode ser mais puro, mais virtuoso, e mais amante, e mais coração; devemos aproveital-o.
A terra nos fará ricos; a instrucção, poderosos; a moralidade, unidos. A riqueza, o poder, a fraternidade, que são a civilisação, felizes.
Quanto á Agricultura, as minhas diligencias não deixaram, talvez, de contribuir o seu poucochinho, segundo alguem crê, para este promettedor tráfego de Sociedades agricolas, que hoje vai no Reino.
Quanto á Instrucção publica primaria, ajudei, e continúo a ajudar, a obra santa, com o que pude e posso; do que, dou por prova o odio e perseguições, com que os obscurantes me teem honrado.
Quanto á moralidade e fraternidade, esses bens, d’aquelles dois bens se hão-de filiar; mas ha-de ser tarde. Só quando deixarmos de ser politicos, principiaremos a ser bons.
Do livro, como producto litterario, não ha por que falemos; foi escrito de carreira, sem traça prévia, nem plano ordenado. Nem digo bem «escrito»; foi conversado, como quer que as ideias vieram vindo.
Refundira-o eu, se houvesse tempo, ou valesse a pena; decotaria redundancias: aproximaria pontos homogéneos, que vão separados; reduziria as doutrinas a um systema, e concatenação severa de raciocinios. Nada d’isso farei. Apraz-me conservar-lhe o seu caracter fortuito e desambicioso; só assim, é que me posso n’elle reconhecer.
É uma conversação, com todos os seus altibaixos, com todas as suas duvidas e incertezas, com todas as suas quebras e digressões, com todo o desalinho de homem sincero, que antes quer ser amado, e merecel-o, do que citado e admirado, inda que o podesse.
Páro já, porque estender mais as advertencias sobre coisa tão pequena, já passaria de ociosidade.
Summario
Os campos são mais nobres que as cidades.--O trato rural produz tudo.--A Agricultura, com os seus dois filhos, Industria e Commercio, é a expressão maxima da Munificencia Divina, e o mais claro argumento da sociabilidade do homem.--As cidades são centros para a circulação da moeda.--Só um povo agricola é deveras rico.--As honras dadas á Agricultura assentam em principios muito reaes.--A Biblia, e Homero.--Os Romanos da Republica.--O que eram as mulheres n’esse tempo.--A gratidão divinisou entre as gentes primitivas os inventores industriaes e ruraes. Refutação de um dito de Santo Agostinho.--Origem das mythologias campestres.--Os deuses rusticos eram uma decomposição da Providencia. O Christianismo destruiu aquellas risonhas crenças. O campo tomou outra especie de interesse.--Klopstock e Gessner.--As sciencias naturaes vieram substituir com vantagem a perdida idealidade dos campos.--Esboço da grandeza e poder d’estas sciencias.--Confirmar o lavrador na religiosidade hereditaria.--Excitar os ricos e poderosos, para que amem o campo e seus cultores.--Elogio moral e politico do viver campestre.
A arte variadissima de obrigar a terra a produzir tudo, não é uma arte rude, pois todas as sciencias a cortejam, e a servem; não obscura, pois é a mais antiga e universal; não vil nem desprezivel, pois só depende de Deus, em quanto os homens todos dependem d’ella.
As cidades, que affectam desprezar os campos, d’elles nasceram; por elles vivem e medram, que só lá teem as suas raizes. Transformam-se ellas, envelhecem, amesquinham-se, doidejam, morrem, e esquecem; em quanto elles, os campos, permanecem, riem, amam, dão, e promettem de continuo; coexistiram desde o principio, coexistirão até ao fim, com a raça humana.
A charrua e o enxadão topam em toda a parte com as ruinas de templos e palacios. Essas maravilhas ephémeras da Arte pompearam um momento sobre o solo desvestido, e logo a Natureza as afogou; as recobriu outra vez com o seu sólo, com a sua vegetação, com os seus frutos, com as suas fragrancias, com a sua paz, com as suas harmonias, primitivas e ineffaveis.
¿Ouvis nas cidades grandes aquelle sussurro profundo de mil vozes, como bramir de Oceano? É o estrépito da industria, o tráfego do commercio, a ebriedade das mezas, o vozear dos espectaculos.
¿Que Fada produziu e conserva tudo isso? a Agricultura.
Vêde os exercitos, esse espantoso numero de consumidores improductivos, esses celibatarios ministros da religião da morte.
¿Quem os gerou? ¿Quem os renova? ¿Quem os alimenta? O chão pacifico da lavoira. O seu pão, a sua carne, o seu vinho, os seus legumes, os seus vestidos, os seus cavallos, os seus carros, as suas bandeiras, os seus mil tambores.... tudo por lá se creou. Tudo aquillo, que vôa como remoinho devastador, que não deixa senão cinzas, sangue, e lagrimas após si, tudo aquillo nasceu e folgou pelas aldeias e casaes; relinchou pelas planicies hervosas; mugiu nas leziras encalmadas; trepou e baliu pelos cerros; ciciou loirejando pelos chãos, como espiga de alambre; vicejou em florestas; amadureceu reluzindo por entre as parras movediças dos oiteiros.