Public-domain ebook
Lendas e Narrativas (Tomo II)
Language: pt404 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: PT Contos·Short Stories·Mythology, Legends & Folklore
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #17005.
Public-domain ebook
Language: pt404 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: PT Contos·Short Stories·Mythology, Legends & Folklore
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #17005.
The opening · free to read
D. Diogo Lopes era um infatigavel monteiro: neves da serra no inverno, soes dos estevaes no verão, noites e madrugadas, d'isso se ria elle.
Pela manhan cedo de um dia sereno estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco montez, que, batido pelos caçadores, devia saír naquella assomada.
Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar.
Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ella estava assentada uma formosa dama; era a dama quem cantava.
O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco.
"Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me captivastes?"
"Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu, senhor de Biscaia."
"Se já sabeis quem eu seja, offereço-vos a minha mão, e com ella as minhas terras e vassallos."
"Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavalleiro que és. Guarda os teus vassallos, senhor de Biscaia, que poucos são elles para te baterem a caça."
"Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu offerecer digno de vós e de mim; que se a vossa belleza é divina, eu sou em toda a Hespanha o rico homem mais abastado?"
"Rico-homem, rico-homem, o que eu te acceitára em arrhas cousa é de pouca valia; mas apesar d'isso não creio que m'o concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."
"E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia qualquer dos seus muitos legados?"
"Então se queres ver-me sempre ao pé de ti não jures que farás o que dizes, mas dá-me d'isso a tua palavra."
"A la fé de cavalleiro, não darei uma, darei milhentas palavras."
"Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino, e que estando para morrer ainda te recordava."
"De quê, de quê, donzella?"--acudiu o cavalleiro com os olhos faiscantes.--"De nunca dar treguas á mourisma, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom christão. Guai de ti e de mim se és dessa raça damnada!"
"Não é isso, dom cavalleiro,"--interrompeu a donzella a rir.--"O de que eu quero que te esqueças é do signal da cruz: o que eu quero que me promettas é que nunca mais has-de persignar-te."
"Isso é outra cousa:"--replicou D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdêra o caminho do céu. E poz-se um pouco a scismar.
E scismando dizia comsigo:--"De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Sanctiago. Ella por ella. Um presente ao apostolo e duzentas cabeças de agarenos valem bem um grosso peccado."
E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou:--"Seja assim: está dicto. Vá, com seiscentos diabos."
E levando a bella dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado.
Só quando á noite no seu castello pôde considerar miudamente as fórmas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados como os de cabra.
Dirá agora alguem:--"Era por certo o demonio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria!"--Pois sabei que não ía nada.
Por annos a dama e o cavalleiro viveram em boa paz e união. Dous argumentos vivos havia d'isso: D. Inigo Guerra e D. Sol, enlevo ambos de seu pae.
Um dia pela tarde D. Diogo voltou de montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo á casa onde comia, para se regalar de ver a excellente prêa que havia preado.
Seu filho assentou-se ao pé delle: ao pé da mãe D. Sol; e começaram alegremente seu jantar.
"Boa montaria, D. Diogo,"--dizia sua mulher.--"Foi uma boa e limpa caçada."
"Pelas tripas de Judas!"--respondeu o barão.--"Que ha bem cinco annos não colho urso ou porco montez que este valha!"
Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado, virou-o de golpe á saude de todos os ricos homens fragueiros e monteadores.
E a comer e a beber durou até a noite o jantar.
Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a que muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono, e até com os servos de casa.
A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e della não menos presada.
O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados, como quem dormitava.
A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pello liso e macio reluzia-lhe com um reflexo avermelhado.
O barão, depois da saude urbi et orbi feita aos monteiros, esgotava um kirie comprido de saudes particulares, e a cada nome uma taça.
Estava como cumpria a um rico-homem illustre, que nada mais tinha que fazer neste mundo senão dormir, beber, comer e caçar.
E o alão cabeceava como um abbade velho em seu côro, e a podenga saltava.
O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua carne e medula, e atirando-a ao alão gritou-lhe:--"Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe senão correr e retouçar."
O canzarrão abriu os olhos, rosnou, poz a pata sobre o osso, e abrindo a bôca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir deslavado.
Mas logo soltou um uivo, e cahiu, perneando meio-morto: a podenga de um pulo lhe saltára á garganta, e o alão agonisava.
The book keeps going
Reading is free forever. Sign up and watch scenes appear while you read.



Scenes Storieta drew for other classics.
New illustrated classics
Once or twice a month: the latest books to get full character casts, scene art, and free comic editions. No account needed.