Storieta
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Antonio Feliciano de Castilho,

Bacharel Formado em Direito, Socio da Academia das Sciencias de Lisboa, da Sociedade Juridica e da dos Amigos das Letras da mesma Cidade, da Sociedade Literaria Portuense, do Instituto Historico de Paris, da Academia Real das Sciencias e Bellas Letras de Roão.

Mais correcta, emendada, e copiosissimamente accrescentada.

Lisboa. NA TYPOGRAFIA DE A.I.S DE BULHÕES. Rua do Soccorro de Cima N.º 39. 1.º andar. 1837.

Stet quicumque volet potens Aulœ culmine lubrico: Me dulcis saturet quies; Obscuro positus loco Leni perfruar otio; Nullis nota Quiritibus Ætas per tacitum flua Sic cum transierint mei Nullo cum strepitu dies, Plebeius moriar senex. Illi mors gravis incubat, Qui notus nimis omnibus, Ignotus moritur sibi.

Sen. Thyest. Act. 11.

ANTE-PROLOGO.

Bem será para alguns motivo de maravilha, e de riso para muitos, a declaração por onde me agrada começar este Ante Prologo; e he, que o estou principiando, e querendo Deos o levarei ao cabo, antes de conhecer a Obra para que vai feito. Quatorze annos, e não poucos d’elles bem estirados, são hoje discorridos depois de impressa, e por tanto segundo meu costume aposentada e esquecida, a minha Primavera. N’estes quatorze annos, começados a contar aos vinte e dois da minha vida, não só se encerrou, e desvaneceo aquella melhor, mais florída e derramada parte d’ella, que tanto discrimina, e afasta o periodo seguinte do anterior, senão que ahi se desatou tão desfeito temporal de successos estranhos, de terrores e calamidades publicas; tantas certezas saírão vãs, realisarão-se tantos impossiveis; por tal arte se transtornou e renovou ora em bem ora em mal a face do nosso Portugal; tão fracas e tenues reliquias de um passado, que ainda nós os moços alcançámos, subsistem já agora quer nas pessoas, quer nas cousas e costumes, e emfim por tudo isto nos petreficámos, e envelhecemos em tanta maneira, que por mim digo, n’estes quatorze annos me parece ter a Fortuna desbaratado cabedal de seculos, e o Tempo uma larga idade do mundo. Tantos e taes annos que da minha Obra me separão, não custará muito a crer ma tenhão tornado ao cabo tão alhea, como se d’ella só mui por longe me houvera susurrado uma leve noticia. Esta idea confusa, mas suave e suavissima como apagado retrato de antigos amores, como lua de estio contemplada em fundo de ermo, ou como vista de remotas velas ao coração do que alem-mar definha desterrado entre asperezas, esta idea toda mansa, toda rosada, toda primavera, mais temo perdê-la do que todas as minhas outras illusões, se por ventura já hoje alguma tenho. Talvez receie, e se receio talvez me não falte rasão, que ao reler estes Poemettos, nem ache n’elles as côres que os longes me figuravão, nem os gostos com que os hia não compondo, mas para assim dizer colhendo e enramalhetando pelas varzeas e valles do Mondego: tanta foi a metamorphose que de mim fizerão os livros, as couzas, e a idade! Como que tenho uma dolorosa certeza de que me acontecerá com isto o que ja me succedeo visitando, depois de espaçosissima ausencia, as cazas onde a minha primeira infancia fôra brincada, amada e perdida: tudo achei mesquinho, solitario e quasi mudo, tudo me dizia muita saudade e nenhum prazer; cada pedra tinha sua historia, mas todas me clamavão outros tantos desenganos. Grande differença esta entre as nossas proprias antigalhas e as do mundo! as do mundo pelo seu mesmo misterio nos deleitão, são a primeira pagina de um romanse para a imaginação; as nossas pela sua certeza nos contristão, e são a pagina ultima de uma historia que assaz nos corria formosissima.

Apraz-me por tanto boiar ainda por algumas horas ao de cima d’estas fantasias, e antes de se me apagarem, se já he que isso tem de ser, alegrar com o seu reflexo estas paginas, que mal poderáõ ser muitas: sempre he cedo para lançar pelas janellas fóra os brinquedos de nossa puericia; e mal haja quem o faz sem que todo o coração se lhe aperte dentro no peito.

Por isto que digo, entenderáõ meus leitores o porque, exhausta logo no primeiro anno a primeira impressão da Primavera, tantos se tem devolvido sem que jamais me deliberasse a reimprimi-la. Pelos fins de todos os invernos e começos da melhor estação, me era ella de todos meus livreiros requerida; por mais de uma vez me senti abalado, mas a lembrança do meu desencantamento me era sempre esquiva, e repugnava-me, como uma certa simonia, o arriscar-me a por alguns cruzados malbaratar uma dilicia do sanctuario de meu animo. N’esta parte não me entenderáõ todos, mas os meus intimos confirmarião com juramento o que digo. Agora porem que até a minha pobre bibliotheca já se ahi vai rareando e desfazendo vendida, e me importa pôr entre mim e a terra do meu nascimento muita outra terra de permeio, e Deos sabe para quanto tempo, obedeço aos desejos de muitos dos que ainda lem, ao conselho dos amigos, e á lei da necessidade. Reverei para a impressão, e perderei para mim este livro de saudades, livro que só fechado eu poderia ler como me convinha. E por quanto, depois de sua leitura talvez me desamparasse a vontade de aventurar algumas reflexões sobre este genero de poemas, fa-las-hei antes, e já aqui; deixando para o Prologo as que ácerca da Obra me forem por ella mesma suggeridas.

A Poesia campesina, ou segundo vulgarmente lhe dão nome, pastoril, com ser de todas a mais antiga, nunca em nenhuma parte se perdeo, dado em muitas decaisse não raro do seu credito e lustre; e segundo todas as mostras, deitará ainda até ao fim das idades literarias. Sempre moça como a terra sua mãi, mansa como os arroios seus irmãos, formosa como as flores que lhe guarnecem o chapeo de palha, livre e leve como os zefiros pela assomada dos montes, alegre, namorada e innocente como as aves na madrugada do anno, he de ver qual se vai sozinha e vivissima por entre tantas couzas mais fortes que morrem; com o seu cajado de pastora, segura entre tantos inimigos; girando todo o orbe, e por todo elle bem vinda; vingando e vencendo todos os seculos; dando a alguns d’elles de mais amoravel indole a sua propria fórma; e relevando-lhe, ainda os mais ferozes e guerreiros, que lhes ella misture com a sua frauta do serão os himnos da guerra, lhes entreteça maliciosa violetas com os louros, e os campos que elles a ferro e fogo devastarão os repovoe ella de imaginadas verdura, flores e felicidade.

Hum curioso reparo poderáõ ter feito os que os fazem no ler poetas, e he, que apenas haverá algum dos chamados Epicos, para quem o campo e sua vivenda não fosse deleitoso assumpto. Compraz-se Homero de travar com as façanhas dos heroes toques e pinturas do viver natural e primitivo; Virgilio, que ja primeiro que se abalançasse ás armas e guerras tinha cantado os pastores, e doutrinado os lavradores, particularmente se recreia quando no meio das batalhas pode a uns e outros mandar algumas saudades; nos dois Orlandos e em todos os livros de cavallaria, vai igual mistura; o mesmo na Jerusalem, cujo autor havia escrito o Amintas: e d’entre os nossos, para por todos citar um, mas um que por todos valha, Camoẽs, não só afamou os Portuguezes sujeitadores de elementos e homens, mas todo se deleita em conversar os pegureiros e campos da nossa graciosa Lusitania, terra cujos filhos, se me não engano, são por indole dotados destes dois extremos, de brandura e de valor, de amor ao obscuro rusticar e ao glorioso correr de aventuras e perigos: por onde entendo que para muito mais do que são os fizera Deos, assim como fizera para muito mais do que he o grandioso torrãozinho que habitão.

Disse engenho subtil, e bons juizos crêrão, que o desejo, ancia e esperança de bem que todos temos innatamente, era claro argumento de uma vida futura, ja que nesta se nos não deparava contentamento: assim tambem dissera eu, que este natural e universal gosto á poesia amena he um indicio de que, se jamais o homem foi homem e ditoso, la nos campos o foi; que as plantas d’onde nos brotão sustento e recreação, exhalão secretamente amor para os seus vizinhos, e que pelos saudosos valles das idades patriarchaes, em quanto os bosques não caírão para em sua vez se levantarem as muralhas, as bençãos do ceo orvalhavão muito mais amiude. Alguma couza farão para aqui palavras do meu Florian, que porque d’elle são as verterei de muito boa mente—“Oh se nós podessemos ler em seu original texto os bons autores d’essa Allemanha, enlevar-nos-hia a tanta singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras se estremão suas obras! Em conhecer a natureza, e especialmente a natureza campezina, levão-nos elles uma infinita vantagem: amão-na mais deveras, retratão-na com tintas mais fieis. Todos nossos poemas pastoris nada tem que ver com as meras traducções de Gessner. Ninguem jamais fecha a Morte de Abel, os Idyllios ou Daphnis, sem ja se sentir mais soffrido, mais terno, mais mavioso, e porque tudo diga, mais virtuoso que antes da lição. Não respira senão moral pura e facil, e virtude d’aquella que logo vem trazendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldea, que sempre á estação da missa havia de ler e reler Gessner aos meus fregueses: e por certissimo tenho que todos meus aldeões se farião probos, todas minhas parochianas castas, e ninguem me havia de ao sermão adormecer.”—

Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui bem que o sabia comprehender e seguir. Isto não escrevia eu nem o dizia, mas amplamente o sentia n’esse bom tempo que ja la vai. Gessner não era para mim um nome, senão um individuo presente, um suavissimo contubernal; nem ja suas obras me erão livros, mas realidade, vida e mundo.—Sei que se não leva a bem o muito fallar um individuo de si proprio, mormente em publico, e mormente ainda quando esse individuo he tão mesquinho sujeito como eu: mas de que outra couza posso eu escrever? dos outros? não os conheço; erudito, não o sou; descubrimentos não os fiz, nem ja agora os farei: fólgo de espraiar conversa com os meus patricios, na falta de melhor assunto, fallo-lhes de mim e de meus gostos.—O mais selecto de todos elles era pois Gessner, no qual e na escolha de Poesias Allemãs por Huber, andou por alguns annos cifrada toda minha leitura, porque de quantos autores patrios meus conhecidos havião escrito e poetado de couzas rusticas, nenhum havia que ou por sobejidão de engenho e argucia, ou por mal cabida escuridade, ou pelo trivial do pensamento e dicção, ou pelo desageitado do metro, ou pelo urbano artificio do que lhes parecia singeleza, ou emfim por um não sei que de mais ou de menos, lhe não lançasse lodo e arêa no jardim que bem ao meio da alma me havia sido por Gessner plantado.[1] Muito aproveitei em tão boa escola: como poeta não, que bem o sabem meus leitores; como homem sim, que disso tive mui cabal e experimentada certeza. Minhas nativas propensões beneficas se arraigarão; minha interior aspereza, que todos de si a tem, se amolleceo; sentia-me palpitar no peito um coração da idade de ouro; esvoaçava-me na cabeça uma alma inteira de Arcade; compunha todo o meu economico futuro de uma choupana, um pomarinho, e pombas mui brancas e cordeiros mui nedios; em summa, se Florian fosse meu parocho, propor-mehia nas suas homilias como um santo da sua bemaventurança. Assim, e por esse tempo, foi a minha Primavera improvisada, e como ella as Flores e as Quatro Partes do Dia, Poemas que brevemente sairáõ estampados, e inteirão com o presente volume o fragil monumentinho dos annos, em que fui tal, qual desejava permanecer toda a vida.

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