Storieta
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Mentiu-me a liberdade, foi blasfemia! Foi engano, foi ilusão, e atraiçoou-me, atraiçoando a fé que me dá a vida!

Vou levado de rastos neste mundo, guerreiro que nasci para ser vencido. Se movo o braço para combater por sonhos arrojados que o levantem, logo o sujeitam e mo fazem escravo as prisões de que em vão tento livrar-me--prisões de amor, abençoado carcere, onde sofre e se alegra o coração, onde se humilha prêso a toda a terra e onde se exalta erguido a céus eternos e ao Deus que rege a terra e rege os céus.

A piedade, a dôr, remorso e fé, perdão, esperança, a esmola e a contricção, e a ilusão e a mágoa e o desengano, tremores da consciência que dúvida, as lágrimas de afecto e aquelas outras, candentes e de fogo, em que o êrro chorou arrependido; e o silêncio, que eu temi, que eu amei e que busquei para todo me entregar ao seu poder; e a mudez que diz mais que a voz mais alta, e a sedução da morte, quanto anseio a minha alma pressentiu;--e quanta formosura nos afaga e quanta sombra nos aterra e prostra, a água clara do regato límpido, a luz do dia, a verdura do prado, e toda a austeridade da montanha, severa, grande e rude, imperturbável, e o inflamado terror da tempestade, e o mar e as suas ondas tormentosas, e os pômos rescendentes de perfume; a rosa, e a criança; e os olhos que fascinam; e a graça que incarnou na juventude, e a nobreza que é a graça de velhice:--venceram-me, prenderam-me!...

E sempre que me ergui para libertar-me, sempre escravo caí do seu encanto; e no meu peito ouvi salmos de amor, louvando os ferros que o apertavam e louvando o Senhor que lhos mandava; e o meu peito os cantou e repetiu, sorrindo à sorte que o rendeu cativo.

I

Da lívida tormenta, que em nuvens repassadas do seu luto turva o dia amoroso de setembro, cai sôbre a terra a chuva maternal a dar seu leite às seivas minguadas e a dar aos pômos tumidos a unção de um derradeiro e salutar frescor.

Realça na levada alvas espumas; redobra no açude o seu cantar; banha em cristal a rama dos carvalhos; a veiga reverdece; e o pinheiral, que àlêm sofria a sêde entre os penhascos donde, heroico, brotou a desmentir-lhes sua infecunda aspereza abandonada, serenamente bebe o refrigério, como sofreu sereno a crueldade da ardência do estio prolongado, seus ramos apontados às estrelas, quer padeça tormentos, que se exalte em bens das suas horas mais felizes,--por certo vendo amor que nós não vemos, mas que em suas esmolas nós sentimos, na sombra, na fogueira e na choupana, no tecto dos casais e sôbre as águas, salvando do naufrágio os desvairados filhos de cobiça.

Ao longe, o traço agudo das montanhas cortando a seu capricho os horisontes, seus píncaros audazes e a profundeza das suas largas sombras misteriosas; e as ermidas onde vivem, guardadas da corrupção do mundo e da mentira, a fé e a singeleza; e os castelos onde em ruinas penam as vaidades e as ilusões do orgulho e fortaleza--todos dos nossos olhos se perderam na confusão das nuvens insondáveis, todos por sorte igual já se ocultaram na plácida cinza humedecida que brandamente os cobre em seu repouso.

Depois, dissipada a tormenta, veloz em seus errores transpondo os montes, um silêncio velado lhe sucede; e no caír da tarde, magoada de sombra e de mudez, ressurgem as ermidas e castelos, as montanhas e os cerros mais erguidos, casais, verduras, relvas e florestas, renascidos para a vida e formosura na benção baptismal de águas lustraes.

Mas agora, por toda a vastidão da serrania, docemente vagueiam sonhos de candidez. Beijando o chão, pousou ali a alvura de nuvens desprendidas da procela, como se os céus quizessem ser humildes, mandando à terra anjos de pureza e bondade e caridade, a cobrir-lhe a aspereza misera e cruel, seus cardos e os espinhos mais agudos, e o nosso desamor, nossa traição aquele eterno Pai que nos criou, mais negra e mais cruel que a avareza da terra a mais ingrata.

E a minha alma prendeu-se nessas nuvens, com elas rastejou meu coração, esmolando dos céus que o redimissem naquela alvura em que remiram os montes e os cardos e os espinhos mais agudos!

Ii

Quando a saudade me repete as horas de infância e candidez, ha longos anos já contadas e passadas, e sempre tão presentes, renovadas na obsessão de sonhos procurando um reino de pureza onde não chegue o desengano amargo deste mundo que nos perturba a fé e o pensamento, renascem aos meus olhos claramente quantas sombras então me protegiam, quantas árvores então fôram afago do despertar das minhas ilusões e das alegrias em que me sorriam. Todas as vejo e todas me repetem a sua formosura e o seu encanto, tais quais nessa alvorada me encontraram, amando-as com um amor que só cresceu, intemerato, isento, incorruptível, sofrendo vária sorte sem mudança, a sorte mais contrária e a mais benigna. Em todos os meus passos me seguiu: foi amparo na dôr e acompanhou-me no mais rude trabalho, e no repouso, e na alegria de descuidados dias de ventura.

Aquelas mesmas árvores que amei e o acaso funesto destruiu para consumarem um heroico holocausto de bondade, essas mesmas eu vejo na lembrança, serenas e viçosas como as vi quando o meu coração as descobriu.

Lá ao fundo da encosta, onde a floresta acaba e vem o prado, ainda vejo, do alto do casal que me agasalhava, toda a espessura do pinheiro manso, a marcar o extremo do valado, cerrada e firme, quási insensível ao vento tormentoso dos invernos, e tão estreitamente unida e igual que pareciam tomadas de amizade as hastes apertadas para viverem seu diferente viver em uma só vida, a cumprirem fielmente um juramento, para afrontarem juntas o rigor e para juntas se erguerem em exaltação--comunidade mística de afecto, religioso côro de louvor, a entoarem seus hinos recitados, em severa harmonia, por um só breviário.

E à tarde, quando o sol decaía e as formas se afundavam no crepúsculo, e de manhã, quando rompia a luz àlêm dos montes e a custo ia acordando o salgueiral, a várzea e as amieiras, e ainda quando ela em nuvens se perdia e melancolicamente transformava em palidez e sombra o meio dia, sempre dos ramos do pinheiro vinha uma emanação doirada resplendente, como se o sol ali pousasse sempre, jámais o abandonasse à escuridão, e o defendesse, para que por sua vez a árvore nos desse, perpetuamente, aquela mesma luz que o sol lhe dava e nunca se apagava nos seus ramos.

A pobreza dos homens há muito arrancou já daquela terra, que esplendidamente engrandecia, o pinheiro rebusto a cuja sombra a minha mocidade, cativada de todo o seu podêr e magestade, muitas vezes pediu que lhe dissesse o segredo da sua aspiração e o mistério da sua formosura. Há muito é cinza e pó e ao pó volveu, sacrificado a chamas piedosas. Mas a perene claridade dos seus ramos que, constante, o doirava em doce esmalte, ou o sol brilhasse alto ou se ocultasse, êsse sonhar do sol que ali pousava e nunca se extinguia, êsse não se apagou nem dissipou e êsse me prende ainda e me fascina. Vive nos céus onde as estrelas vivem; de lá nos ilumina e guia em nossa estrada; perpassa etéreo em toda a imensidade repetindo-me os salmos que eu ouvi aos ramos do pinheiro murmurando sua ardente oração à luz do sol.

Iii

Prendeu-me a rola sob a sua aza. Ao sentir-lhe a carícia desarmou-me de vontade e firmeza que, estando em mim, não mais me pertenceram. Cegou-me a côr morena do seu colo. Sua voz, seu olhar... foram algemas.

Prendeu-me aquela rola do pinhal que balouçada ao vento, lá no cimo dos ramos mais subidos da floresta, ali canta e se alegra e dali parte cortando o silêncio umbroso adormecido na sonolência ardente do estio, ora erguendo seu vôo à luz do sol, ora airosa pousando tranquila, ora fugindo porque algures pressente um logar mais propício ao seu desejo.

Prendeu-me essa outra rola que em meus laços por minha arte caíu no cativeiro, a desprendida monja resignada que resa o seu rosário à madrugada e o repete ao luar em seus gemidos, mensageira bemdita do perdão que a mim, seu carcereiro! me saúda na brandura amorosa dos arrulhos, quando ao romper da aurora eu a visito e, confiada, me vem pousar nas mãos, aquecendo-me o sangue com o seu sangue.

Por que graça de Deus ou por que esmola, por que estranha indulgência consentiste, rola cativa, minha doce serva, que em minhas mãos eu prenda as tuas azas, te beije o peito e o toque a boca impura que murmurou êrro, mentira, a maldade, a descrença e a impiedade?!... Porque quizéste que assim se amassem e vissem nossos olhos, os teus que são a vida e a candidez, e a ternura sem mancha do teu ninho, e os meus que são a morte e a escuridão, e o desejo sinistro e o remorso que uma dorida consciência acusa?!...

Oh, mansidão, aparição angélica, mandada a este mundo de treva a alumiar-nos a estrada que a Deus conduz e Deus traçou!... Só de sonhar prender-te, já me prende a própria tentação de te prender.

Iv

Verteu outubro suas côres de outono, purpura e oiro, nos céus do poente em que o sol se perde. Melancólicamente a luz abranda. Coroada de violêtas, a saudade chora entre brumas sua infinda mágua.

Cresce do mar a nevoa setinosa; o ardor adormece em suavidade. E tão carinhosa a nevoa nos afaga na repousada sombra da sua paz que mais a sedução da morte nos anseia do que a tentação da vida nos exalta.

Ao rubor do poente, repetindo-o, responde o rubor da vinha debruçada da muralha a que confia o seu arrojo. Sentindo que o inverno já não tarda, portador de agonias e rigores, incerta de viver, corou juntando o sangue para gloriosamente o dar à morte.

Erradia, tenaz, afoitamente, no delirio da sua caridade, cobriu de pampanos as estéreis rochas, deu-lhes o manto da sua verdura. Beijou-lhes a dureza e aviventou-a. Humedeceu a árida secura, insinuou-lhe tumidas raizes onde vagueia a aspiração da seiva. E agora humildemente vae despir-se, vae dar à terra suas grinaldas em um derradeiro clamor ardente. A essa mãe de todo o amor as abandona para à luz da primavera renascer e em estos de verdura ressurgir da sevéra mudez a que a condena toda a rudeza agreste de dezembro.

Ao sopro turvo da primeira rajada de novembro, o pampano vermelho empalidece. Desprendendo-o da haste, o vento leva-o, rolando-o pelo chão e consumindo-o. Um murmurio de dôr lhe canta a morte e um murmurio de esperança a abençoou. Está despojada da opulencia a vinha. Acende-se em seu seio e vem surgindo o sonho dêsse viço que desponta quando a aurora de abril lhe solta a aza.

Folhas mortas, caídas, desmaiadas e dispersas pelas frígidas brizas de novembro! Em que laços de morte me involvestes, prendendo à vossa sorte o meu scismar!...

V

Tambêm tu, serpão do monte, me prendeste, tambêm tu me roubaste a liberdade! Singelamente, floriste em flores onde a côr da violeta empalidece e rediz seu poema de ternura. Assim me possuiste e à tua pequenez me acorrentaste, àquela pequenez que para mim foi grandeza e voz divina ao desprender da humildade e modestia os mais perfeitos perfumes, os mais doces.

Urna de incenso para ungir o chão, vaso quebrado entornando a essência que o nardo e a mirra e o cinamomo e o galbano não negariam, se Deus lhe désse a escolha! Em teu poder sonhei reinos fulgentes e biblícas visões me arrebatáram.

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