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Poeta Laureado Na «aguia-d'ouro»

MEU CARO SENHOR E VISINHO!

Era por uma noite de lua cheia do agosto preterito. Estava eu á janella do terceiro andar, onde moro, n'esta fragrante rua das Congostas, ninho de poetas e philosophos, floresta ramalhosa onde v. s.ª regorgeia as suas lyras, e eu medito Theophilo e Rozalino Candido.

Estavam então v. s.ª e sua esposa, com as vidraças erguidas, banhados de resplendores da lua, altercando em voz alta a respeito de um livro de Alexandre Dumas-Filho, obra que por ahi gira com o titulo hermaphrodita de HOMEM-MULHER.

Dizia sua esposa que o auctor do livro atacava o direito, a justiça, a religião e o pudor. Replicava o snr. Raimundo que o auctor do livro não atacava nada; pelo contrario defendia tudo.

Redarguia s. exc.ª que a mansão conjugal não é açougue, nem a esposa vaca, nem o marido megarefe. Recalcitrava v. s.ª que a esposa devia considerar-se vaca, desde que o marido era boi. L'Homme-Femme--Le Boeuf-vache! Está claro.

Contenderam largo espaço os meus prezados visinhos n'este honesto certame; e, ao mesmo passo que mutuamente se illustravam nos deveres de cada um, abriam no meu cerebro um jacto de philosophias que eu passo a golphar aos quatro ventos da terra.

Os sentimentos bem ou mal expendidos n'esta carta, meu prezado visinho, são uma especie de prolegómenos com que tenciono predispor os animos para a representação de uma tragedia, em que trabalho ha muito, intitulada O homem de Claudia. Não se presuma, porém, que eu venho com esta noticia aliciar espectadores para a minha tragedia no Theatro-Circo. Não, snr. Raimundo. Eu sou publicista da eschola de Mestre Theophilo--o symbolico,

.......... um que tem nos MALABARES Do summo sacerdocio a dignidade,

como a respeito d'elle vaticinou Luiz de Camoens, no Cant. X, est. 11.

Publico um livro, sei que ninguem m'o compra, nem m'o lê; mas convenço-me, á laia do mestre, que os meus livros ensinam tudo que os outros sabem. Esta ronha pegou-m'a elle, o Grão-Lama, que imagina fazer reformas de raças com os seus livros de dentadura anavalhada como Cadmus fazia homens com a dentuça do dragão. Ajoujei-me, pois, na canga d'este pedagogo, e vou bem.

Revertendo ao ponto:

Affirmam auctores de boa nota que a mulher é femea, femina. N'este parecer abundam D. Antonio Ayres, bispo do Algarve, na «Reforma» do aprisoamento, e Bento Pereira, na Prosodia. Auctoras tambem de boa nota asseveram que o homem é macho. Do inlace e coezão d'estas entidades heterogenias forma-se o Macho-Femea, o colchete phyloginio. Faça-me o favor, snr. Raimundo, de alçapremar o seu intellecto á altura d'estes principios. Em materias transcendentes seja-me aguia e não kágado.

No principio do mundo (não iremos mais longe por em quanto) extrahiu Deus a femea do intercôsto do homem. Aurora do paraizo! Então era a costella do homem que dava a mulher; hoje em dia, ha homens com todas as costellas partidas por que desejaram uma ou duas mulheres! O lombo do rei da creação perdeu bastante da sua importancia desde que os nossos irmãos anthropophagos pegaram d'extrahir d'elle sandwichs.

Este exemplo indelicado seduziu a esposa a considerar o marido uma substancia comestivel entre o prezunto de javali e o fiambre de viado. D'ahi, o desacato, o deslize d'aquella patriarchal idolatria com que dez centos de mulheres genuflectiam ao sancto rei Salomão.

Abastardado o antigo preito da costella ao costado, da parte ao todo, os philosophos inventaram a alma para d'alguma fórma afidalgarem a juncção da carne á carne, do osso ao osso--phraze biblica sobremaneira bonita e aziatica. Ideada a alma, cumpria ungir com os oleos mysticos o pacto da alliança entre alma e alma. Accudiram os canonicos com a invenção do sacramento.

Espero que o meu visinho não ignore inteiramente que os Sacramentos são sete. E, se esta sombra de duvida offende a sua orthodoxia, sirva-me de desculpa aquillo de Plutarcho no seu tractado «Da maneira de lêr poetas.» Diz elle: «A religião, coisa difficil de perceber, está acima da intelligencia dos poetas». Mas do sacramento do matrimonio sei eu que o snr. Raimundo, sem embargo do seu alto lyrismo, percebe o essencial, porque eu mesmo o ouvi dizer a sua esposa:

«O matrimonio foi divinamente instituido». Por signal que ella, áttica e sceptica, lhe respondeu:--Bem me fio eu n'isso!

E a razão de sua esposa duvidar da procedencia divina da instituição, meu caro visinho, eu lhe digo em que bases se funda.

Instituição divina ha só uma: é o mundo. Esta crença hade prevalecer emquanto meu mestre Theophilo não quizer provar que o mundo é obra dos mosarabes. Divino é tão sómente aquillo que humanamente se não faz. Os sonetos de v. s.ª, por exemplo, não me parecem absolutamente de instituição divina. O cazamento tambem não, por que em tal acto influem o amor, o interesse, o medo, a vergonha, o reumatismo, a papa de linhaça posta por mão de esposa carinhosa nas irritações do apparelho digestivo, etc. Estas coisas são tão divinas como eu; e, senão ouso dizer como o visinho, é por que v. s.ª, na sua qualidade de bardo, tem lumes divinos, mens divina; arde, fumega, evola-se como Elias--volatisação de que se não gabam aqui os nossos visinhos pecuniosos por que o dinheiro pucha por elles para baixo como os elythros pela tartaruga.

V. s.ª sabe que, na antiga Germania, consoante Cornelio Tacito descreve, aquelles barbaros ditosos cazavam-se sem sacramento, sem sacerdote e sem templo. O noivo, em presença de parentes seus e da noiva, dizia-lhe: «Recebo-te como minha legitima mulher, para te haver e possuir, de hoje ávante, boa ou má, rica ou pobre, para te amar e assistir em tempo de saude e doença, até que a morte nos separe».

Alli, divindade e padre, n'aquella augusta ceremonia, eram os arcanos sagrados, arcana sacra, o mysterioso respeito ao Deus invisivel, consagrado nos solitarios murmurejos da selva, lucos ac nemora consecrant.

Ora, medite, snr., n'estes selvagens, onde as mulheres rapadas, as adulteras, eram por tanta maneira raras, que apenas apparecia uma para cevar a execração das turbas! Pois olhe que não havia lá n'aquellas florestas dodonicas idea de femea fabricada da costella do homem. Lá dizia-se que a creadora do mundo havia sido uma enorme e desmedida vaca, e vivia-se honradamente apesar de tão estupida cosmogonia de uma vaca bruta; e, por aqui, no pino da civilisação, com tantas vacas sabias, vamos a pique! As nossas femeas restituem-nos a costella, pondo-no'l-a como apendice ao craneo; e, em vez de se tosquiarem á guiza das germanicas, alcantilam as cabeças com uns riçados delirantes. Atroz!

Diga-me, poeta laureado: não será injuriar Deus attribuir-lhe o vinculo sacramental do matrimonio, d'onde derivam tantos infernos sabidos, tantos infernos ignorados, tantos coraçoens nobilissimos pervertidos, tanta deshonra escarnecida pelos folioens dos palcos, tantas alcovas devassadas, tanta mulher emborcada no gôlphão das lagrimas a que a sociedade chama o lodo da prostituição?

Levam a taes voragens as estradas complanadas pela mão de Deus?

Ó snr. Raimundo, não parvoejemos por amor ao catholicismo. Não façamos da nossa hypocrisia aspa de patibulo em que estamos sempre a cravejar a memoria de Jesus, sobre quem Deus refrangiu o mais divino reflexo da sua gloria.

Jesus não fez o cazamento: quiz fazer a nova Eva, com o pé sobre os colmilhos da serpe, e a fronte amparada no seio amantissimo do homem. Ah! Jesus disse: «Amai-vos!» Isto de: «maridai-vos» é preceito de concilios, e é palavra que não sôa no lexicon hebreu nem chaldeu. Ser-me-hia mais facil encontral-a em Petronio que em S. Paulo. Ressuma d'essa palavra um travo de impudor. Quando ella vier do intimo seio aos labios da mulher, já lá dentro não ha flôr que lhe perfume o furtum. _Maridança!_--expressão deslavada de um acto sem vislumbre de ideal, a desfloração a começar na prosodia, um rebaixamento d'aquelle prodigio da fantasia genetica--da mulher--á condição da femea, da retorta, do recipiente, da maquina de costura silenciosa, da materia grangeada para reproduzir, como quem aduba um torrão que hade verdejar couves lombardas!

Atroz, snr. Raimundo, atroz!

Que é o adulterio?

É a razão insurgida contra o absurdo do vinculo indissoluvel.

A mulher, que morre no acto da sua rebellião, que é? Hoje, é uma criminosa que uns deploram, e outros impropéram na sepultura. D'aqui a cem annos será celebrada como holocausto da emancipação.

Por que, d'hoje a cem annos, visinho, não haverá matrimonio, nem adulterio--crime convencional e estranho á natureza, na judiciosa phrase de Girardin--; haverá amor duravel e mantido mutuamente pela liberdade de quebrantar o pacto. O sacramento, o nó indesatavel, serão os anjos, os filhos. Por que os filhos, as creanças amadas do defensor de Maria Magdalena, desde então conversam com Deus, e haurem-lhe dos olhos divinos o raio de luz que reverbera entre os coraçoens de seus pais. Não descerá a treva do tedio sobre as almas amadas. A aza pura e alva do filho cobril-as-ha, quando a hydra da lascivia resurtir das ruinas de algum extincto mosteiro de bernardos ou bernardas.

Que é o matrimonio?

A definição, dada recentemente pela minha collega Maria Deraismes, recende aromas de tão subtil feminilidade, que não ha ahi coisa mais balsamica de donzellice e pudicicia!

Ora, leia, poeta e senhor meu, e confesse que, ao par d'isto, os seus madrigaes são trovas de marujo que fadeja nas fontes cabalinas da Travessa dos Barbadinhos.

«O cazamento--diz a dama, invectivando Alexandre Dumas--é a união de dois organismos, cada qual com seu officio a exercer, em consequencia de precisoens, appetites, e desejos que reciprocamente pendem a satisfazer-se um pelo outro, sendo o objecto desta satisfação a perpetuidade da especie. Eis a essencia, o fim do cazamento.»[1]

Esta minha collega physiologica, ao que parece, é lida em Sanches, De matrimonio, e tem bastantes luzes de anatomia. Para alguns espiritos rasteiros e ignaros prefiguram-se no hymeneu suavidades, arrôbos, idealisaçoens, evoluçoens mais ou menos gasosas, borboletas iriadas, etc. A snr.ª D. Maria da EVA, não. Essa vê dois orgãos com appetites. Em materia de cazamento não é christan, nem mahometana, nem pagan: é organista.

Em outro lanço, pag. 38, a mesma philosopha, discreteando ácerca dos ditos orgãos, pondera que «a physiologia, parte da biologia, quando tracta dos órgãos em exercicio, requer a mais rigorosa imparcialidade, e a regeição plena de tudo que é postiço.»

Apoiada! Gosto d'esta senhora! Se eu tivesse um filho parvo, dizia-lhe : «Caza-te com esta D. Maria da EVA, se queres saber biologia.»

Outra minha collega, que por nome não perca, diz que: «se a sua filha for sanguinea e de compleição robusta, lhe não escolherá marido fraco ou desfalcado de forças por libertinagem.»[2]

É tambem organista.

Cá está outra: a snr.ª D. Hermance Lesguillon, versada em Aristoteles.

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