Storieta
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About this book

Esta obra reúne poemas de Alexandre Herculano, um dos principais poetas do romantismo português. O livro se inicia com um lamento ao silêncio do templo abandonado, onde o vento sopra sobre ruínas que ainda guardam ecos de hinos sagrados. A partir desse cenário de trevas e saudade, o poeta invoca anjos, monjes e espíritos, alternando visões apocalípticas a reflexões sobre a finitude humana. Cada canto se desenrola como um quadro de pedra e luz, onde a cruz, o martelo e o fogo se entrelaçam em imagens de sofrimento, esperança e redenção, sem revelar uma trama linear, mas criando um percurso meditativo através de símbolos religiosos e históricos.

A linguagem de Herculano é densa, carregada de arcaísmos e de um ritmo quase litúrgico, típica da poesia romântica do século XIX. O estilo combina o fervor religioso com a crítica social, fazendo uso de metáforas grandiosas e de uma sonoridade que evoca coros monásticos. Quem aprecia leituras que mesclam espiritualidade, história e uma estética barroca encontrará prazer neste volume, especialmente leitores interessados na poesia portuguesa do período romântico e nas reflexões sobre o destino humano diante do divino.

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Mas porque sôa o vento?--Está deserto, Silencioso ainda o sacro templo: Nenhuma voz humana ainda recorda Os hymnos do Senhor. A natureza Foi a primeira em celebrar seu nome Neste dia de lucto e de saudade! Trévas da quarta feira eu vos saúdo! Negras paredes, mudos monumentos De todas essas orações de mágua, De gratidão, de susto ou de esperança, Depositadas ante vós nos dias De fervorosa crença, a vós que enlucta A solidão e o dó, venho eu saudar-vos. A loucura da cruz não morreu toda Após dezoito seculos!--Quem chore Do soffrimento o Heroe existe ainda. Eu chorarei--que as lagrymas são do homem-- Pelo Amigo do povo, assassinado Por tyrannos, e hypocritas, e turbas Envilecidas, barbaras, e servas.

V.

Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro; Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias, D'onde mergulhas no oceano a vista; Tu que do trovador á mente arrojas Quanto ha nos céus esperançoso e bello, Quanto ha no abysmo tenebroso e triste, Quanto ha nos mares magestoso e vago, Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma A harmonia celeste e o fogo e o genio, Que dêm vida e vigor a um carme pio.

VI.

A noite escura desce: o sol de todo Nos mares se atufou. A luz dos mortos, Dos brandões o clarão, fulgura ao longe No cruzeiro sómente e em volta da ara: E pelas naves começou ruído De compassado andar. Fiéis acodem Á morada de Deus, a ouvir queixumes Do vate de Sião. Em breve os monges, Suspirosas canções aos céus erguendo, Sua voz unirão á voz desse orgam, E os sons e os ecchos reboarão no templo. Mudo o côro depois, neste recincto Dentro em bem pouco reinará silencio, O silencio dos tumulos, e as trévas Cubrirão por esta área a luz escaça Despedida das lampadas, que pendem Ante os altares, bruxuleando frouxas.

Imagem da existencia!--Em quanto passam Os dias infantis, as paixões tuas, Homem, qual então és, são debeis todas. Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo Gemido do remorso, a qual lançar-se Vai com rouco estridor no antro da morte, Lá, onde é tudo horror, silencio, noite. Da vida tua instantes florescentes Foram dous, e não mais: as cans e rugas, Logo, rebate de teu fim te deram. Tu foste apenas som, que, o ar ferindo, Murmurou, esqueceu, passou no espaço.

E a casa do Senhor ergueu-se.--O ferro Cortou a penedia; e o canto enorme Pulído alveja alli no espesso panno Do muro colossal, que éra após éra, Como onda e onda ao desdobrar na areia, Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado. O ulmo e o choupo no cahir rangeram Sob o machado: a trave affeiçoou-se; Lá no cimo pousou: restruge ao longe De martellos fragor, e eis ergue o templo, Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento Se esvái, como da cerva a leve pista No pó se apaga ao respirar da tarde, Do seio dessa terra, em que és estranho, Sair fazes as moles seculares, Que por ti, morto, falem; dás na idéa Eterna duração ás obras tuas. Tua alma é immortal, e a prova a déste!

VII.

Anoiteceu.--Nos claustros resoando As pisadas dos monges ouço: eis entram; Eis se curvaram para o chão, beijando O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a! Igual vos cubrirá a cinza um dia, Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia Mais, se do justo só a herança fòra; Mas tambem ao malvado é dada a campa.

E o criminoso dormirá quieto Entre os bons sotterrado?--Oh não! Em quanto No templo ondeiam silenciosas turbas, Exultarão do abysmo os moradores, Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles, Que escarnece do Eterno, e a si se engana; Vendo o que julga que orações apagam Vicios e crimes, e o motejo e o riso Dado em resposta ás lagrymas do pobre; Vendo os que nunca ao infeliz disseram De consolo palavra ou de esperança. Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes Os frios restos que separa a terra, Um punhado de terra, a qual os ossos Destes ha-de cubrir em tempo breve, Como cubriu os seus; qual vai sumindo No segredo da campa a humana raça.

VIII.

Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos Do templo na amplidão: só lá no escuro De afumada capella o justo as preces Ergue pio ao Senhor, as preces puras De um coração que espera, e não mentidas De labios de impostor, que engana os homens Com seu meneio hypocrita, calando Na alma lodosa da blasphemia o grito. Então exultarão os bons, e o í­mpio, Que passou, tremerá. Emfim, de vivos, Da voz, do respirar o som confuso Vem confundir-se no ferver das praças, E pela galilé só ruge o vento.

Em trévas não ficou silenciosas O sagrado recincto: os candieiros, No gelado ambiente ardendo a custo, Espalham debeis raios, que reflectem Das pedras pela alvura; o negro mocho, Companheiro do morto, horrido pio Solta lá da cornija: pelas fendas Dos sepulchros deslisa fumo espesso; Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo Suspirar não se ouviu?--Olhae! lá se erguem. Sacudindo o sudario, em peso os mortos!

Mortos, quem vos chamou? O som da tuba Ainda do Josaphat não fere os valles. Dormí, dormí: deixae passar as eras...

IX.

Mas foi uma visão: foi como scena D'imaginar febril. Creou-se, acaso, Do poeta na mente, ou desvendou-lhe A mão de Deus o íntimo ver da alma, Que devassa a existencia mysteriosa Do mundo dos espiritos? Quem sabe? Dos vivos ja deserta, a igreja torva Repovoou-se, para mim ao menos, Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras Leito commum na somnolencia extrema Buscaram. O terror, que arreda o homem Do limiar do templo ás horas mortas, Não vem de crença van. Se fulgem astros, Se a luz da lua estira a sombra eterna Da cruz gigante (que campeia erguida No vertice do timpano, ou no cimo Do corucheu do campanario) ao longo Dos inclinados tectos, afastae-vos! Afastae-vos d'aqui, onde se passam Á meia-noite insolitos mysterios; D'aqui, onde desperta a voz do archanjo Os dormentes da morte; onde reune O que foi forte e o que foi fraco, o pobre E o opulento, o orgulhoso e o humilde, O bom e o mau, o ignorante e o sabio, Quantos, emfim, depositar vieram Juncto do altar o que era seu no mundo, Um corpo nú, e corrompido e inerte.

X.

E seguia a visão.--Cria ainda achar-me, Alta noite, na igreja solitaria Entre os mortos, que, erectos sobre as campas, Eram ha pouco um fumo que ondeiava Pelas fisgas do vasto pavimento. Olhei. Do erguido tecto o panno espesso Rareava; rareava-me ante os olhos, Como tenue cendal; mais tenue ainda, Como o vapor de outono em quarto d'alva, Que se libra no espaço antes que desça A consolar as plantas conglobado Em matutino orvalho. O firmamento Era profundo e amplo. Involto em gloria, Sobre vagas de nuvens, rodeiado Das legiões do céu, o Ancião dos dias, O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno Parava o tempo, a immensidade, a vida Dos mundos a escutar. Era esta a hora Do julgamento desses que se alçavam Á voz de cima sobre as sepulturas?

XI.

Era ainda a visão,--Do templo em meio Do anjo da morte a espada flammejante Crepitando bateu. Bem como insectos, Que á flôr de pego pantanoso e triste Se balouçavam--quando a tempestade Veiu as azas molhar nas aguas turvas, Que marulhando sussurraram--surgem Volteando, zumbindo em dança douda, E lassos, vão pousar em longas filas Nas margens do paul, de um lado e de outro; Tal o murmurio e a agitação incerta Ciciava das sombras remoinhando Ante o sopro de Deus. As melodias Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas, Com frémito infernal se misturavam Em cahos de dôr e jubilo. Dos mortos Parava, emfim, o vortice enredado; E os grupos vagos em distinctas turmas Se enfileiravam de uma parte e de outra. Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos Ficou, unica luz, que se estirava Desde o cruzeiro ao portico, e fería De reflexo vermelho os largos pannos Das paredes de marmore, bem como Mar de sangue, onde inertes fluctuassem De humanos vultos indecisas fórmas.

XII.

E seguia a visão.--Do templo á esquerda, Méstas as faces, inclinada a fronte, Da noite as larvas tinham sobre o sólo Fito o espantado olhar, e as dilatadas Baças pupillas lhes tingia o susto. Mas, como zona lucida de estrellas, Nessa atmosphera crassa e afogueada Pela espada rubente, refulgiam Da direita os espiritos, banhado De inenarravel placidez seu gesto. Era inteiro o silencio, e no silencio Uma voz resoou--Eleitos vinde!-- Ide precítos!»--Vacillava a terra, E ajoelhando eu me curvei tremendo.

XIII.

Quando me ergui e olhei, no céu profundo Um rastilho de luz pura e serena Se ia embebendo nesses mares de orbes Infinitos, perdidos no infinito, A que chamâmos o universo. Um hymno De saudade e de amor, quasi inaudivel Parecia romper desde as alturas De tempo a tempo. Vinha como involto Nas lufadas do vento, até perder-se Em socego mortal. O curvo tecto Do templo, então, se condensou de novo, E para a terra o meu olhar volveu-se. Da direita os espiritos radiosos Já não estavam lá. Chispando a espaços, Qual o ferro na incude, a espada do anjo O mortiço rubor mandava, apenas, D'aurora boreal quando se extingue.

XIV.

Proseguia a visão.--Da esquerda ás sombras Anciava o seio a dôr: tinham no gesto Impressa a maldicção, que lhes seccára Eternamente a seiva da esperança.

Como se vê, em noite estiva e negra, Scintillar sobre as aguas a ardentia, D'umas frontes ás outras vagueiavam Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos, E ao estalar das lousas, grito immenso Subterraneo, abafado e delirante, Ineffavel compendio de agonias, Misturado se ouviu com rir do inferno, E a visão se desfez. Era ermo o templo: E despertei do pesadelo em trevas.

XV.

Era loucura ou sonho? Entre as tristezas E os terrores e angustias, que resume Neste dia e logar a avi­ta crença, Irresisti­vel força arrebatou-me Da sepultura a devassar segredos, Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--

A justiça de Deus visita os mortos, Embora a cruz da redempção proteja A pedra tumular; embora a hostia Do sacrificio o sacerdote eleve Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja Rodeiam trevas, solidão e medos, Que a resguardam co'as asas acurvadas Da vista do que vive, a mão do Eterno Separa o joio do bom grão, e arroja Para os abysmos a ruim semente.

XVI.

Não!--não foi sonho vão, vago delirio De imaginar ardente. Eu fui levado, Galgando além do tempo, ás tardas horas, Em que se passam scenas de mysterio, Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--

Vejo ainda o que vi: da sepultura Ainda o halito frio me enregela O suor do pavor na fronte; o sangue Hesita immoto nas inertes veias; E embora os labios murmurar não ousem, Ainda, incessante, me repete na alma Íntima voz:--Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--

XVII.

Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto O coração bateu. Eia, retumbem Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos, Que em dia de afflicção ignoto vate Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle O primeiro cantor que em varias córdas, Á sombra das palmeiras da Iduméa, Soube entoar melodioso um hymno. Deus inspirava então os trovadores Do seu povo querido, e a Palestina, Rica dos meigos dons da natureza, Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo. Virgem o genio ainda, o estro puro Louvava Deus sómente, á luz da aurora, E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron.--Agora o genio é morto Para o Senhor, e os cantos dissolutos De lodoso folguedo os ares rompem, Ou sussurram por paços de tyrannos, Assellados de putrida lisonja, Por preço vil, como o cantor que os tece.

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