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Infelizes: Historias Vividas
Language: pt3,010 downloads on Project Gutenberg
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Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #27155.
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O livro reúne contos curtos ambientados no Portugal do século XIX, e abre‑se com uma narrativa que mistura memória melancólica e um panorama de guerra. A voz inicial evoca a lembrança de uma senhora que revisita o passado da sua família, descrevendo a casa senhorial abandonada, os ecos de guerras e a fuga dos franceses que assola a região da Beira. Em seguida, a história se desloca para uma tarde de setembro, quando o medo do invasor desencadeia uma fuga massiva da família de Clarinha, uma jovem de olhos castanhos que, apesar da ameaça, sente uma curiosa alegria ao deixar a monotonia da vida rural. O texto alterna entre reflexões íntimas e cenas de deslocamento, oferecendo um retrato vívido da vida provincial, das tensões de guerra e da resistência silenciosa dos personagens.
A escrita de Ana de Castro Osório apresenta um estilo denso, carregado de imagens poéticas e de um vocabulário que remete ao português do século XIX, com frases longas e ritmo quase oratório. A narrativa combina nostalgia, drama familiar e descrições da paisagem montanhosa, criando uma atmosfera que atrai leitores interessados em literatura histórica, contos de época e na sensibilidade feminina que permeia a obra. Quem aprecia a riqueza de detalhes da vida rural portuguesa e a tensão de conflitos invasores encontrará nesta coletânea um convite à imersão no mundo interior dos personagens.
The opening · free to read
--Era uma tarde de fins de setembro, luminosa, quente ainda. O céo, todo em fogo no poente, flammejava n'um incendio colossal--toda a alma da Patria agonisante levantando para Deus a ultima esperança, no ultimo clarão de tiros ao longe.
«_Os francezes, os francezes!..._» Esse grito estridente como uivos de animaes apavorados corria de bocca em bocca, era um signal de fuga, de miseria, d'espanto geral.
O povo ignorante e bom voltava para o céo os punhos cerrados n'uma desesperada ameaça. Abandonado por todos na sua patria invadida, agarrava-se á terra como á sua unica defeza, o seu unico amôr, a unica razão d'existir.
As mães uivavam de dôr pelos caminhos, torciam os braços convulsos vendo do alto dos montes os filhos que partiam para a guerra. Outras estarreciam-se n'um silencio medroso...
Toda a alma portugueza fremia n'um anseio de liberdade.
Os reis fugiam despresivelmente covardes; os ricos ainda por vezes abriam os seus palacios em festa ao passeio triumphal dos invasores; só no povo era sem treguas o odio. Elle saberia resistir ou morrer! Miseravel povo que sacudiu n'um impeto de revolta olympica o jugo dos invasores e acurvou a cabeça humilde ás exigencias dos alliados! Desgraçada gente que não teve a hombridade de receber na ponta das suas baionetas ensanguentadas pelos inimigos os reis que o tinham abandonado nas horas más! Ingenuo povo que todos vão acordar em sobresalto quando o perigo bate á porta e de que todos se riem depois, quando não é já precisa a força do seu braço nem a furia da sua coragem!...
Tambem a Fornos de Maceira Dão, a esse cantinho da Beira que parecia dever estar esquecido, guardado pelos matagaes e serranias bravas, chegou o desvariado clamôr, o tremendo grito:
«_Os francezes, os francezes!_...» a pôr em fuga toda a familia da Clarinha--era assim chamada ha oitenta e seis annos a minha boa tia Clara.
Ella era a mais nova das irmãs; fina, graciosa, d'uma pallidez de reclusa, uma grande curiosidade perfulgindo nos seus olhos castanhos.
Ao saber a noticia o coração pulsou-lhe commovido n'uma inconfessada alegria... Qual de nós aos dezóito annos não comprehenderá essa alegria? Não ter sahido nunca do seu vetusto solar--salas e salas, quartos incontaveis, corredores tão compridos que é impossivel conhecer quem vem ao fundo!... Os santos da capella doirados e ridentes seriam os seus mais queridos companheiros, aquelles que melhor comprehenderiam a sua alma inquieta, sedenta de novo!... Se ella não havia d'estar alegre, no fundo, bem no fundo do seu coração, por essa fuga decidida que a ia tirar por algum tempo da monotona vida de todos os dias?!...
Era triste a existencia da Clarinha, passada na miseravel aldeia de casebres colmados, que rodeiam a quinta dos fidalgos como outr'ora as choupanas dos servos se encostavam medrosas ás fortificações dos castellos feudaes. As irmãs, casadas; os irmãos, passando a vida dos fidalgos d'aquelle tempo, caçavam, namoravam as primas de vinte leguas em redor, estafavam cavallos e corriam as feiras.
De quando em quando, pelas festas do anno, cortavam o fastidioso correr da vida cavalgadas que chegavam ao pateo, primos e primas que se apeavam contentes abraçando a Clarinha, que alvoraçada os vinha esperar á porta. Então, dançava-se, passeava-se e, mais do que tudo, comiam-se jantares phenomenaes e ceias lucullianas.
Mal os hospedes sahiam, a vida regulava-se tediosamente como de costume e apezar da familia ser muita, passavam uns pelos outros como sombras na enormidade da casa. Quantas vezes, pelas agonisantes tardes d'outomno, não atravessou ella a quinta e subindo o outeiro em frente se foi sentar nos degraus do Santo Christo, phantasiando o mundo, sonhando com alguma coisa nova que a fizesse soffrer e viver?!...
Já então, como agora, como será d'aqui a muitos annos, a imagem do Christo era ingenuamente feita d'uma fealdade que espanta, escondendo-se no seu nicho branco, erguendo na tristeza da paysagem os braços misericordiosos de Deus moribundo perdoando sempre á humanidade que chora.
Como agora tambem, a Clarinha ouvia pela quebrada das serras os carros chiando carregados com as dornas para os lagares... Os bois olhavam'na pensativos, sacudindo as cabeças phylosophicamente, fazendo retinir as campainhas das colleiras de coiro que lhes cingem os cachaços robustos... Primitiva e sempre egual a vida passada n'aquelle recanto de natureza agreste.
Que admira pois que a Clarinha ficasse intimamente alegre quando o medo aos francezes a atirou para longe--como um passarito engaiolado a quem de subito abrissem as portas do carcere e visse diante de si o luminoso espaço onde á vontade poderia bater as azas!?...
«_Os francezes, os francezes!..._» Era alguma coisa de vivo, e espirituoso e brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava.
N'essa tarde luminosa de fins de setembro os cavallos esperavam no pateo desde muito e só a Clarinha, impaciente, estava montada. Toda a familia partia: quarenta pessoas, entre velhos, mulheres, crianças e criados--que eram, patriarchalmente, uma continuação menor da familia. Os homens válidos, os rapazes, esses lá andavam pela guerra, e bastante invejados pela Clarinha!.. Os velhos despediam-se chorosos. Arrancavam-se d'alli como quem tirasse d'um peito ainda vivo um coração sangrento. Fugia-lhes a vida em gemidos. Os cedros da quinta tinham para elles a maguada significação dos cyprestes da igreja, onde toda a sua familia, desde seculos, ia dormir descançadamente; mais felizes eram esses...
Pela madrugada chegaram a Vizeu. Deserta a pequena cidade, de sombrias e tortuosas ruas. Os cavallos batiam rijamente nas calçadas, pondo em sobresalto os pacificos habitantes. Abriam-se janellas a medo e caras enfiadas de susto espreitavam inquerindo: seriam os francezes?!...--Não, não eram ainda, mas gente que fugia d'elles!...--Então sempre era certo; vinham, vinham!...--E as janellas fechavam-se rapidamente como se quizessem espancar assim a visão dos francezes, monstros de pezadello!
Caminhavam sempre. Em São Pedro do Sul, a mais risonha terra da Beira, um jardim que a natureza cultiva amoravelmente entre as rudes serranias beirãs, o mesmo pânico estampado em todos os rostos que entreviam--que raros eram!.. Um deserto que se fazia por toda a parte ao grito terrificante: «_Os francezes, os francezes!_...»
E esse grito de pavôr perseguia-os sempre, como dobre a finados para os velhos e medo para as criancitas--que imaginavam o papão formidavel e negro levando os meninos nas garras aduncas!.. Só as mulheres, com o espirito mais vivo, mais aventuroso, começavam a achar deliciosa aquella correria louca diante do desconhecido. Para a Clarinha era sempre a mesma ideia:--elles seriam alguma coisa de vivo e espirituoso e brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava!...
A noite cahia muito fria, d'esse frio secco e cortante da serra. As estrellas brilhavam mais do que nunca, com um nervoso piscar d'olhos bonitos... Ella olhava-as, sonhando acordada!--Via um cavalleiro vestido d'oiro que levava pela estrada da via lactea todo um povo conquistador e bello... E uma aguia enorme, com azas feitas de soes, cobria o mundo n'uma efabulação de luz!...
Alli tiveram que parar algumas horas. O pequenino irmão da Clarinha, o mais novo da familia, a criança que ella amava já com entranhas maternaes, ficou-lhe sem vida nos braços, morto quasi repentinamente pelo frio e incommodidades da jornada. E esse pequenino corpo que em circunstancias normaes ella teria chorado desesperada, cobrindo-o de beijos, sahiu-lhe quasi indifferentemente dos braços fatigados. Era a propria mãe que lhe dizia que não chorassem; era preciso fugir, fugir, fugir sempre: «_Os francezes, os francezes!_...» Era a propria mãe, tão estremosa, tão cheia de cuidados por todos, quem dizia aquillo!... Pasmava.
Bem certo é que as grandes dores se fazem pequenas quando não ha tempo para as sentir. O medo é um grande consolador.
Ao sahirem de São Pedro do Sul, entravam os francezes pelo outro lado. Algum destacamento perdido do grosso do exercito, ou talvez esfomeados procurando viveres... Em todo o caso levando o pânico até onde chegava o ruido das suas vozes de commando.
E esse dia passado sem comer, porque apenas tinham levado um pão para cada um, não contando com o deserto em que tudo se encontrava, enervava-os, fazia-lhes hallucinações, mal se podiam sustentar sobre os cavallos.
Chegaram á Trapa. Oh, a horrorosa terra!--Casitas negras e baixas, feitas de pedras soltas cobertas de colmo e telha vã, sem janellas nem frestas, uma unica porta para dar luz e para a entrada. Mais pareciam tócas d'animaes selvagens do que habitações de gente, n'um paiz civilisado.
O avô da Clarinha, apesar de velho a quasi não poder mexer-se, viera deitado n'um carro de bois até alli; mas então desanimou:--que o deixassem, que o deixassem!.. Morria mais descançado. Os francezes não o descobririam n'aquella terra inculta que se debruça no abysmo das montanhas e nem de longe se distingue da negrura d'ellas; que fugissem, que fugissem depressa!...--E no egoismo dos grandes perigos ninguem se lembrou de contradizer o velho. Elle era um estorvo na viagem; ficarem todos seria talvez a morte. Só a mãe da Clarinha ficou para acompanhar o sogro, que n'uma incoercivel lagrima de saudade deliu todas as maguas da sua ultima hora. Porventura elle revia n'esse momento unico toda a sua vida passada:--a casa onde nascera e contara morrer, as arvores muito amadas... Festas de familia, perfis de parentes mortos havia muito, casamentos, caçadas, presentimentos de desgraça para os filhos e netos, que andavam na guerra...--Tudo isso se devia confundir, amalgamar, no aturvado animo do pobre moribundo.
Os outros continuavam a jornada passando por terreolas abandonadas, d'uma desolação infinita. Essa região montanhosa, largamente bosquejada, d'uma austeridade de contornos que limita a phantasia, tem sempre uma estranha belleza selvatica, que intimida os mais alegres. Então, precipitadamente abandonada pelos seus bizonhos habitadores, devastada pelos fugitivos que passavam em caravanas, em familias, um a um, como lobos perseguidos, tinha um aspecto quasi tragico, macabro como um desenho de Doré, mas para elles tudo era bom, tudo divertia e alegrava na excitação da fuga. Aqui, tinham todos por cama uma casa terrea cheia de palha e de manhã acordavam cobertos com um frio e branco lençol de geada... Alem, comiam feijões cosidos sem nenhum tempero e pão de cevada negro e pegajoso como o pez... E tudo supportavam alegremente no egoismo brutal e profundamente humano--de viver e ter saude.
Tias e primas da Clarinha, velhas senhoras habituadas á doce paz do chásinho conventual, suspiravam, lamentavam-se muito por o não terem tomado havia uns poucos de dias! Affirmavam--que antes queriam ficar sem pão. Deu-se volta aos alforges e n'uma algazarra cheia d'alegria cada um appareceu triumphante com sua coisa, que na precipitação da ultima hora alli tinha mettido sem saber para quê, sem mais se lembrar de tal. Havia chá, assucar e agua, até chicaras appareceram; mas onde a chaleira?.. Todos os olhos se dirigiram para a panella de barro negro onde se tinha cosido o caldo... Era a unica coisa que havia e essa mesmo serviu; sem que ninguem se lembrasse d'aventar repugnancias... E por essa noite frigidissima de fins de setembro, n'uma casita negra esburacada, perdida entre serras e mattas, ellas tomaram o seu chásinho quente, que teve um sabor particular--nada bom a dizer a verdade--mas que lhes lembrou toda a vida.
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