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A Filha do Arcediago Terceira Edição
Language: pt3,709 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: PT Romance·Novels
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #27364.
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A obra “A Filha do Arcediago” de Camilo Castelo Branco apresenta‑se como um romance histórico ambientado no Porto de 1815, centrado no mercador de panos Antonio José da Silva e na jovem Rosa Guilhermina, filha do arcediago Leonardo Taveira. O texto abre‑se com uma longa digressão do narrador, que se justifica como “escritor público” e descreve, em tom quase irônico, a relação entre o comerciante e a senhora que lhe fornece material para escrever. Em seguida, o primeiro capítulo introduz o cenário da rua das Flores, detalhando a aparência corpulenta e as vestes simples de Antonio, bem como a presença da menina de quinze anos, descrita com traços delicados e acompanhada de um papagaio falante. A trama se desenrola a partir de um acordo de casamento entre o velho mercador e a filha do arcediago, revelando as tensões sociais e as ambições econômicas que permeiam a história.
A linguagem de Castelo Branco é exuberante, repleta de neologismos, ortografia arcaica e um humor mordaz que caracteriza a literatura portuguesa do século XIX. O estilo combina descrições minuciosas, diálogos extensos e um narrador que frequentemente se dirige ao leitor, criando uma atmosfera de teatro literário. Quem aprecia narrativas que mesclam crítica social, personagens caricaturais e um ritmo que oscila entre o dramático e o satírico encontrará prazer nesta leitura. É uma escolha adequada para leitores interessados em retratos da sociedade portuense da época, bem como para quem gosta de observar a genialidade de um autor que brinca com convenções e costumes do seu tempo.
The opening · free to read
Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.
E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesouros impagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.
Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar-me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.
No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.
O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fêmeas d'esta nossa terra tão escassa--ainda bem--d'esse contra-senso.
Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d'agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio José da Silva. O senhor Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio, ressumavam-lhe um succo oleoso, que descia em rêgos pelos tres rofêgos da barba, e vinha adherir a camisa ás duas grandes esponjas, que formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.
O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippopótamo, passeava no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e alpercatas de estôpa com sola de cortiça. Este vestido, com quanto singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraizo, dava-lhe ares d'um sátyro voluptuosamente gordo.
O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No ôlho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, n'esta occasião tinha um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.
Além do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no espirito. Era uma paixão, uma paixão d'alma, a mocidade na velhice, essa ancia impotente d'um coração, que quer romper os tecidos atrophiados de cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar.
Quem era a victima d'esta paixão impetuosa? Uma menina de quinze annos, que a leitora enjoada das indecentes cuecas do senhor Silva, póde vêr, no segundo andar d'esta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata malteza no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.
É uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem falla, sem lhe vermos as feições. O papagaio salta-lhe á mão, e esta mão é pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma segunda lagrima, por se vêr impossibilitado de armar ás boas mulheres (quando é de suppôr que lhe não vão lá ter as peores...)
Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orificios, e distillando por todos os póros.
Como veio esta menina para a casa do negociante?
--Deixa-te disso. Não tens tu, em minha mão, um bom patrimonio que lhe dês?! Acho que vinte mil cruzados, afóra o juro de cinco por cento, ha dez annos, capitalisado no proprio, a vencer até que ella faça os vinte e cinco, acho eu que é um dote de lhe tirar o chapéo.
--Bom dote é; mas isso não é o que me dá cuidado. O que eu queria para minha filha é um bom marido...
--Ó homem, já tratas disso!? Que idade tem a tua filha?
--Tem onze annos; d'aqui a três é mulher, e póde talhar futuros por sua conta e risco. É o que eu não quero. A pequena está em mestra-de-dentro; mas isto de mestras ensinam a cozer e a bordar, mas não sabem adivinhar o coração d'uma rapariga, que... emfim, Silva, vou ser franco comtigo...
--Diz, padre Leonardo...
--Que é filha de tal pae e de tal mãe... Eu tenho sido o que tu sabes...
--Isso lá é verdade... tu tens sido levadinho da breca com o gado de contrabando...
--E a mãe, se queres que te diga a verdade, tinha uma perfeita embocadura...
--Diz-m'o a mim, Leonardo! Era uma namoradeira dos quatro costados... Mas, emfim, está casada, e já não é a mesma.
--Caro me custou o casamento...
--Isso custou! O que tu déste ao francez p'ra montar a loja de livros, ainda que não rendesse senão a sete por cento, podia hoje montar a reis... deixa vêr... quatro vezes sete vinte e oito, vão dous, com cinco cifras, faz... faz...
--Aguas passadas... não fallemos n'isso. Agora o que me importa é a rapariga, já que fiz a asneira de a procurar na roda... Tira-me o somno, Silva! Lembra-me ás vezes que esta pequena ha de ser a disciplina com que hei de ser castigado por muitas asneiras que fiz...
--Isso lá é verdade. Diz o dictado: «Onde se fazem, ahi se pagam.» Já vem dos velhos a experiencia... Sabes tu que mais? Casa a rapariga assim que ella pozer as ventas no ar a contar os ventos. Não lhe dês tempo a namoricos. Janella fechada, e marido entre mãos, era o systema de minha mãe, que Deus haja, e minhas irmãs não deram desgosto á sua familia.
--Tens razão, Antonio; mas quando o diabo está atraz da porta, não vale nada fechar a janella... Olha lá... Queres tu casar com a minha Rosa?
--Homem, essa!... tu serás o espirito ruim que me appareces em corpo d'homem? Não vês que tenho cincoenta feitos, e que nunca me deu na cabeça a asneira de me casar?
--Alguma vez ha de ser a primeira...
--Isso lá é verdade; mas cada qual mede-se com as suas forças, e eu já não estou homem para tropelias. O que eu quero é comer bem, é beber-lhe melhor. Isto de creanças, casadas com velhos, não provam bem...
--Estás enganado com o mau exemplo da tua visinha Anna...
--Que pôz na cabeça do marido um chinó, porque elle era calvo... e eu não estou menos calvo que o pobre João Pereira, que deu com o negocio em pantana, por causa da mulher...
--Não meças tudo pela mesma rasa, Antonio. A pequena é docil, tem um genio de pomba, vai para onde a levam, e será uma boa esposa. Ponto é pilhal-a nos cueiros... Tu sabes melhor que eu o dote que ella tem...
--Não fallemos em dote, Leonardo... Eu, se casar com a tua filha, tanto se me dá que ella tenha um como dous... A cousa não é essa... O peor é o resto.
--Que resto?
--Eu te darei a resposta ámanhã.
Continuaram fallando largamente sobre o assumpto, em que o senhor Silva, tres vezes, citou o chinó do seu visinho João Pereira.
No dia seguinte, o arcediago de Barroso encontrou o seu amigo meditativo.
--Pensas ainda, Antonio?
--Estava pensando no nosso negocio. Isto de mulheres deve a gente suppôl-as sempre mercadoria avariada... Mas, diz-me cá, a tua filha só tem onze annos...
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