Storieta
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Judas: Romance lírico em quatro jornadas apresenta‑se como um drama bíblico em forma de peça, ambientado na Judeia do primeiro século. A obra abre com um extenso panorama da aldeia de Betânia, descrevendo a casa de Simão, o leproso, e o entorno de Jerusalém, com suas colinas, fontes e ruínas romanas. A partir desse cenário minucioso surgem os personagens Gamaliel, Eleazar, Maria e Martha, que dialogam sobre profecias, intrigas políticas e a iminente chegada do Mestre. O texto alterna entre descrições geográficas, reflexões filosóficas e trocas de falas carregadas de tensão, estabelecendo um clima de expectativa que prepara o leitor para os conflitos religiosos e sociais que se desenrolarão.

A linguagem é densa e barroca, típica do teatro português do fim do século XIX, com vocabulário arcaico, sintaxe elaborada e abundância de recursos retóricos. O ritmo combina longas passagens descritivas a diálogos intensos, criando um tom quase poético que evoca tanto a grandiosidade da paisagem sagrada quanto a inquietude dos personagens. Quem aprecia dramas históricos, leituras que mesclam religiosidade e crítica social, ou ainda o estilo de autores como Gil Vicente e António Ferreira, encontrará nesta obra um material rico e desafiador.

Characters in Judas

  • SimãoGaunt middle‑aged Jewish man, leprous skin, simple linen tunic, head wrapped, solemn expression
  • GamalielElderly Jewish scholar, long white beard, dark robes with a sash, thoughtful eyes, seated beside a scroll
  • EleazarYoung Jewish man, sturdy build, short dark hair, leather sandals, modest woolen cloak, determined gaze

The opening · free to read

Em 8 De Nisan

A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a casa de Simão, o Leproso. Tem esta a forma tipica de uma piramide rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos canteiros roseiras de Jerichó.

Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.

A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...

Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao descanso e á meditação.

Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali serpeando por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, até que chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das Oliveiras, de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaça um bando de pombas brancas.

Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o Monte do Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e patriarchas.

Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica, amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.

A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da encosta:--é ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda, Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor. Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: Jehovat. A Torre Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta quietação.

Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando no firmamento azul e alegre.

Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as cotovias.

GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:

Eleazar, meu caro, honrado ebionita, Recebe de um amigo a cordeal visita.

ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos annos, franzino e melancólico.

És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja Teus passos dirigiu assim, para que eu veja Á porta do modesto e humilde lavrador Aquelle que possue o nome de doutor Notavel e profundo?

Gamaliel

É pobre a moradia, Amigo?--Não encerra a vil hypocrisia, Ornamento dos maus e da nefanda casta, Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.

Eleazar

É que a virtude leva ás almas refrigerio Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio; Pranto suave, meigo e virginal e ardente, Que uma estrella chorou silenciosamente...

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