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Cover of Carta de Elmano da Cunha em resposta a outra Bom-senso e Bom-gosto, dirigida por Anthero do Quental ao excellentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho, o incomparavel traductor dos fastos de Ovidio, obra em que se faz o confronto de Romulo e Jesus-Christo, offericida ao incomparavel duque de Saldanha

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Carta de Elmano da Cunha em resposta a outra Bom-senso e Bom-gosto, dirigida por Anthero do Quental ao excellentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho, o incomparavel traductor dos fastos de Ovidio, obra em que se faz o confronto de Romulo e Jesus-Christo, offericida ao incomparavel duque de Saldanha

by Elmano da Cunha

Language: pt265 downloads on Project Gutenberg

Subjects

In: Essays, Letters & Speeches

Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #32790.

The opening · free to read

Coimbra Imprensa Da Universidade 1865

Em Coimbra: ás 5 horas da madrugada do dia 20 de novembro de 1865; ao concluir um innocente e util trabalho em que se pretende demonstrar, que ao cantar da segunda cigarra de Anacreonte, sob a copa da frondosa olaia do Saturno portuguez, se está forjando o dogma da infallibilidade litteraria do sobredito senhor; proclamando o dom da inerrancia do mesmo; resuscitando um odio velho contra a universidade de coimbra; condemnando o producto espontaneo do trabalho intellectual, livre e independente; fazendo sordida mercancia do futuro--_a quem mais der_--; permutando a lisonja vilan pelos 30 dinheiros pharisaicos; transigindo ignominiosamente com as paixões egoistas da actualidade a troco das ovações da burguezia, senhora das situações prosperas e beneficentes.

Amigo--Em que cyclo social andaram os talentos d'esta, ou de outra qualquer terra, pela arreata das auctoridades?!...

Em que geração andaram aguadeiros litterarios, com os canecos do genio ás costas, dessedentando os sequiosos de verdade e inspiração, aspergindo a agua lustral no seio das multidões, fornecendo as fontes do espirito publico, pregoando a superior qualidade do producto litterario ou scientifico nacional, porque traz a marca d'alfandega--A. F. C.?!...

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Pobres dos pilotos da humanidade se, tendo, através da esteira dos tempos, que vão cahindo nos abysmos do passado, conduzido as civilisações com a unica bussola do seu livre alvedrio, têm no seculo XIX de fazer a figura de amphoras humanas nas mãos do primeiro aguadeiro ambicioso!?...

A mim, que fui embalado com os primeiros vagidos da eschola liberal, a unica que tem as regalias, os privilegios, os foros da independencia, a unica, que tem um axioma por principio, tinham-me dito, que a liberdade de toda a industria humana é a primeira condição do seu desinvolvimento e progressos; que o principio da responsabilidade individual é o primeiro motor do bello, do grande, do util, do ideal; que o prysma social tem apenas algumas faces, que reflectem já a septiforme côr da aurora boreal do futuro, e infinitas que, os que nos precederam, deixaram na obscuridade, e que é forçoso clarear de viva luz; que ao livre trabalho do pensamento incumbe esta tarefa civilisadora; que a da «mercancia por avareza, das lettras por vaidade, dos litigios prolongados por caprichoso empenho», tem sido a thenia enorme que, inoculando-se no coração das sociedades, vai seccando as fontes da moralidade, viciando e prevertendo os abundantes succos nutritivos da arvore do bem, torcendo vigorosos musculos sociaes, prostituindo a mulher, desatando os vinculos da familia,--o fogo sagrado do Estado,--dividindo os interesses da communa, semeando a descrença e o desconforto nos orgãos da nacionalidade.

A mim tinham-me dito principalmente, que a suprema fórmula de todo o homem, é a sua moralidade e independencia; que esta consistia em ser cada um responsavel pelo que pensa perante Deus, pelo que sente perante a sua consciencia, pelo que escreve, pelo que diz perante a sociedade.

Seria eu victima de um embuste grosseiro? Enganar-me-iam os apostolos do Evangelho da liberdade a mim, que, sincero, puro e innocente, os escutava em religioso silencio, numa quasi que idolatria?!...

Tu, meu amigo, dizes-me que não; que o facto póde traduzir uma abjecção moral, uma torpeza de todo o ponto condemnavel, mas que isto não é mais que um accidente, susceptivel de correcção e exemplo: que a these é a que bebemos com o leite da nova mãe social, aquella que me convida a junctar hoje ao teu nome «quasi desconhecido» o meu que apenas consta de um assento de baptismo que nunca ninguem leu.

Deixo-o ahi escripto por duas considerações sómente; a primeira como protesto, a segunda como cautela; a primeira, porque juro viver e morrer á sombra da bandeira de Jules Simon, por nenhum preço a sombra da copa da olaia de Antonio Feliciano de Castilho, que respeito como talento, como homem que «_por entre os edificadores do futuro anda estudando o passado_», que detesto como caracter, e como traficante convicto de cambio litterario: a segunda porque sei que verdades amargas magoam o alifafe moral de consciencias vulneraveis; porque sei que o principio da auctoridade, a immodestia immoderada, a vaidade impertinente, a consciencia da suprema gloria e do ultimo laudo em bom-senso e em bom-gosto são entidades congenitas do principio da irritabilidade, e porque finalmente os desvios da má indole e as paixões violentas da soberba indomavel e indelicada poderiam tosquiar algum camêlo ou fraco ou innocente.

Postas as cousas a esta luz, benefica para quem se allumiar d'ella no interesse do futuro e dos tibios do proprio campo, conversemos um pouco.

Eu não quiz ler o escripto de Antonio Feliciano de Castilho no livro do sr. _Pinheiro Chagas_--_Poema da mocidade_--onde a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto se citam os nomes illustres--Theophilo Braga--Vieira de Castro, e o teu «quasi desconhecido», e se tosquia sem clemencia nem piedade, com odio, com azedume, a chamada eschola litteraria de Coimbra, eschola que não existe, camêlo imaginario, camêlo creado pelo sr. Castilho nas suas segunda e terceira intenção. Façamos justiça á pontaria do genio. Encadernado na mais esplendida capa litteraria, que jámais vimos, está o homem, que, fazendo fogo de caçador esperto, atira a dois alvos ao mesmo tempo. É esta a verdade, isto o que é preciso ver e definir detalhadamente.

Eu não quiz ler, por ter lido a--_conversação preambular_--do D. Jayme, do sr. Thomaz Ribeiro.

Era razão de sobejo.

Conheci o sr. Thomaz Ribeiro antes do seu poema, e o poema depois, que me deliciei eu com o ouvir recitar ao proprio auctor em 1860 na sociedade do dr. Antonio de Oliveira Silva Gaio; á sombra da copa de nenhuma olaia, não; no seio da estima não mercadejada, da admiração desinteressada, da livre apreciação, sim.

Que o auctor fôra bafejado no berço por espiritos bons, fadado para destinos melhores ainda, para uma independente e mais que muito justa reputação litteraria, soubemo-lo, e dissemol-o nós então.

O sr. Thomaz Antonio Ribeiro nascera tambem no seio da eschola liberal, ou, o que mais val, acceitára por amor e convicção o principio na sua accepção mais larga, na sua concepção mais absoluta, curando menos dos preceitos, e ainda menos dos preconceitos de eschola. Muito intelligente, soube ser livre, tirou de si seus recursos, trabalhou por sua conta e risco. Na pia baptismal do trabalho purificou as suas crenças como homem e como escriptor, fortaleceu a sua religião social e litteraria, não pedindo inspiração mais do que á fonte commum, a propria natureza e a das cousas, alentos senão á vontade, que o trabalhava, confortos senão á propria consciencia, elevação e independencia sómente á sua dignidade, consolações sómente á maxima expressão de todo o homem, a sua moralidade.

Em 1860 pensavamos nós assim... Quem, quem havia de proferir a blasphemia atroz, que o sr. Thomaz Ribeiro teria de sujeitar a sua bella creação poetica ao insulto hypocrita da primeira cigarra de Anacreonte? Quem, conhecendo o caracter do illustre escriptor, havia de suppor que para tanto e tão pouco tivera bondade, modestia, terrores vagos, receios infundados?!...

A nebulosa, a vaga, a astuta, a matreira, a equivoca--_conversação preambular_--dera-nos a medida de uma prostituição e de uma infamia; aquella de um, justificada, até certo ponto, e fertil de fecundos ensinamentos a futuros escriptores; esta de outro, que, tendo um nome já grande, carece de um outro nome para ser quanto merece.

Saturnus exultavit; flevit honor. Saturnus exultavit cum maerore et luctu, como sempre.

Um obreiro de menos, uma iniciativa de mais: um successo a meio caminho, porque a inveja insidiosa o atraiçoou pelos trinta dinheiros da eschola do interesse proprio!

Saturnus flevit cum planctu magno, e desatou a rir debaixo da copa da sua olaia!

A resignação é uma perpetua lagrima a sorrir-se: resignámo-nos. Estes desvios de prumo não interrompem a construcção das pilastras de cada seculo, em que vai assentando a abobeda da civilisação. Houve apenas um atrazo. Depois os obreiros foram abrindo alicerces, baldeando materiaes, cimentando paredes, cada um na medida das suas forças, livres de preceito extranho e official, da correcção pretenciosa de um mestre de obras do passado, todos amigos, todos innocentes e puros, todos desinteressados, e o que mais é, nefando crime, todos apostolos do ideal!

Eu, pobre de intelligencia, mas amigo do trabalho, do fundo do meu retiro, da minha mansão de paz, minguada de tudo, menos de boa-vontade, estava contemplando com amor, até mesmo com desvanecimento, esta liberdade de pensar, estas auroras novas, este volitar de ideias, este grangeio livre de alimentos futuros, este caminhar de cada um a sabor da propria responsabilidade, sem nem sequer me lembrar da cigarra de Anacreonte e de que houve outr'ora uma Divindade que comia os proprios filhos; de subito vejo um membro da commum abandonar a christandade com a obra debaixo do braço....

Era Pinheiro Chagas, que tambem abrira os olhos da alma á luz do seculo que vai passando; um talento superior, um coração limpo de toda a mancha, modesto tambem, e tambem fraco, tomado de terrores vagos, de infundados receios, que dera os ultimos traços no--_Poema da mocidade_--e receoso que lhe calumniassem a obra os invejosos confrades da religião nacional, ia ao templo pagão sacrificar o cordeiro da sua independencia!

Um sacerdote de crenças bem diversas das nossas na indole e na influencia social acabava de ministrar o sanctissimo sacramento do baptismo litterario a um nome que não carecia de mendigar calor alheio para crescer em celebridade e honras bem merecidas!

Cantava a segunda cigarra de Anacreonte na copa da frondosa olaia!

Saturnus exultavit cum planctu magno.

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Eu que estava neste momento, quando tudo isto se passava, distinguindo á luz do bom-senso e do bom-gosto o paganismo e a ideia christã, abria pela primeira vez a traducção dos Fastos de Ovidio, e pasmava, pasmava sinceramente, de ver o hyerophante do seculo estabelecer o confronto do seductor das sabinas e do casto Filho de Maria!

Eu acabava de concluir na intimidade do meu pensamento, que os grandes homens tinham jogado as nozes com os rapazes, e que dispensarem-se de dizer tolices como elles seria falta de logica....

Não obstante eu pedia ainda sobras á vontade para crer, que os talentos saudosos do passado não negociavam com as suas crenças, quando o vento do levante, entrando no meu gabinete de trabalho, me desdobrou a primeira pagina do livro. Estava ahi escripta em lettras negras, grandes, famosas, uma dedicatoria:

Ao incomparavel Duque de Saldanha!

O sol nascia d'esta vez no meu pacifico retiro: um facho de luz inundava-me a fronte carregada de pensamentos tenebrosos, e o jubilo entrava em minha alma!

Mentira!

A opinião publica era a Messalina devassa que se prostituira ainda uma vez ao erro voluntario de uma calumnia vilã, vendendo uns restos de honestidade, que nunca ninguem perdeu, ao odio eterno e inclemente das paixões partidarias.

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