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Anthero do Quental, e Ramalho Ortigão
Language: pt249 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: PT Política e Sociedade·Essays, Letters & Speeches
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #32645.
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Amigo! Contente com a alma sublimemente burgueza, que tu me conheces, vejo com pasmo, do limiar da minha porta, desfilar a soberba cohorte dos predestinados, que vão quebrando lanças em prol do bello, do ideal, do justo, por elles espremidos em guindadas theorias, capazes de reduzirem as cabeças mais bem construidas e duras á triste condição de um fructo podre de maduro. Vejo-os, e não com indifferença, porque sou curioso e adoro tudo o que me dá assumpto para o mexerico. Ora bem; o mexerico: ahi tens a razão principal da minha carta; ahi tens a razão porque descruzo as mãos de sobre o abdomen para tomar a penna do escriptor. E que escriptor!
Além d'isso acrescia em mim o desejo de te offerecer um delambido manjar, com que podesses, se te aprouvesse, augmentar a abundancia, que se accumula sobre a mesa dos perdularios e lambareiros colleccionadores.
É tal porem a nossa terra, tal a natureza das relações, que apertam seus habitantes, que nem sempre ha permissão de se abrir á luz do dia um pensamento franco, por inoffensivo que seja. Assim dou razão do modo arrastado e fadigoso, porque apparece a minha tardia carta.
Ha muito que anda, a coitada, no extravio d'esses correios. Veremos se pela nova forma, que hoje lhe dou, logra emfim chegar-te ás mãos. Perdeu ja todas as pretencões a levar-te novidade; pois não é muito que rumoreje em Villa-Real o que, por cá, é objecto das quotidianas palestras.
Nada obsta, todavia, a que conversemos amigavelmente; e muito mais quando se tracta de um teu amigo, e teu companheiro, lá nos venturosos tempos, em que ainda eras academico.
Fallo do sr. Anthero do Quental.
E, já que transpareceu na téla, d'elle me occuparei primeiro; mesmo porque o conheço mais de perto: de o ver passar na rua, e de lhe fallar ás vezes.
Conhecel-o não é ser seu amigo; não é seguir-lhe as ideias; não é pôr cobro á imparcialidade.
É pois--necessito que o creias--é sem lisonja, consciencioso, imparcial, que me abalanço a esboçar-lhe aligeirado perfil do retrato litterario, correndo a vista por esses arraiaes agitados e accesos em contendas porfiosas de litteratura.
A carta do sr. Anthero--primeiro grito de alarma--fez mais que mostrar-nos um talento, revelou-nos um caracter. _A dignidade das letras_--além de ser novo attestado do conceito em que tinhamos seu auctor, veio confirmar as ideias anteriormente expendidas.
Eis o que o sr. Ramalho Ortigão está disposto a não conceder por forma alguma.
Eu conhecia este escriptor portuense por um retrato grosseiro, traçado por alguns malquerentes, de que nunca se livrou o homem mais cauteloso, uma vez que tomou para si a missão de julgar das cousas a seu bel-prazer, com franqueza ou sem ella, sem curar muito em se adequar ao gosto e sabor das multidões. Alguma cousa me dizia, porem, que o retrato tinha seu quê de infiel. E, com effeito, o escripto, que hoje me veio á mão, acabou de me desenganar.
O pequeno folheto do sr. Ortigão, pequenissimo para o grande titulo, que o decora, porque se chama--_Literatura d'hoje_, é um como espelho em que se não perde, me parece, uma feição do auctor. Elle mesmo mostra desejal-o, porque dá relevo, com frequencia e não sem calculo, á sua individualidade, como se lhe pesasse deixal-a nas sombras do quadro. É o homem das cidades, que se vae sentar, com o seu charuto, em frente do confortativo fogão com a paxorra de um sybarita, ancho como um professor, que legisla do cimo da sua poltrona o despotismo da palmatoria, terror dos meninos, que não sabem a lição. Na linguagem é, a meu ver, perfeito. Não cede livre curso á imaginação para não atropellar o bom-senso; nem, tão pouco, rebaixa a dignidade de escriptor á grosseria de termos plebeus. Suas ironias e sarcasmos são, por assim dizer, aristocraticamente petulantes e azedos. A palavra apparece rigorosa, e sem esforço, á evocação da ideia suggerida. E não é facil entrever-lhe brecha por onde possa infiltrar-se algum travor do ridiculo. Todavia fica a gente desconsolada por ver manchado todo esse asseiado composto na sordida pobreza de verdade.
Que me não queira mal pela sinceridade. É a minha unica arma. Veremos se saberei dar-lhe, com ella, plena satisfação em boas razões; boas ou más, consoante as tenho.
Mas, antes de ir mais longe, quero prevenir-te, meu Castello-Branco, de que não sou tão presumpçoso, que ouse criticar. Havia de fazel-o se soubesse. Assim, venho simplesmente fazer-te a innocente declaração do modo como avalio o escripto do sr. Ortigão em face dos escriptos do sr. Anthero.
Este, disse eu, que, na sua carta, productora d'esses alvorotos revidos e impotentes, offerecera á luz do dia o fiel traslado do seu caracter. E quem deixará de ver do tumultuar harmonioso d'aquella magnifica phrase, naquella prosa eloquente, a declaração de intimas convicções, depuradas, pelo fogo da imaginação, num estudo aturado, serio e reflectido?
O sr. Anthero tem alguma cousa da inflexivel virtude do homem primitivo, que não cáe bem no ambiente, saturado de artificio e de impostura, em que vivemos. Vê até longe, pela intelligencia, os vicios e as degradações sociaes, e quer passar pelo meio d'elles impolluto, com a mão na consciencia, despreoccupado das glorias do mundo, sempre austero e sobrio. Sente, e diz o que sente numa linguagem toda d'alma, sem se importar com o agrado ou desagrado do sr. Ortigão. Bem ou mal acolhido nada parece ter com isso. Olha mais á dignidade do homem do que á chilra ostentação do litterato. Isso, porem, está longe de significar que saiba tragar um insulto com evangelica paciencia.
Ahi tens os homens e os escriptores.
Não digo que não seja falsa a minha apreciação. Se for, desde já rejeito o aphorismo bem sabido de todos--o estylo é o homem.
Mais um arredondamento e um colorido nas feições, e podemos seguil-os no combate.
O escripto do sr. Ortigão constitue uma galeria, enriquecida de retratos, que o auctor intenta caricaturar, esquadrinhando laseiras ou disformidades onde são perfeitas as formas, e velando chagas onde ellas são manifestas. Tem um modo seguro e dogmatico de dizer as cousas, que enrodilha e leva a imaginação descuidada na sinuosa compostura de bem jogadas palavras, dispostas com criterio um tanto acima do ordinario, e tambem com não ordinaria e decidida--má-fé. Desagradou-me, e desagradaria a todos, a crueza sarcastica com que assetteia o sr. Castilho, que, de qualquer maneira que o apreciemos, seja elle como for, quaesquer que sejam as suas intenções, merece ser venerado pelos vastissimos conhecimentos adquiridos em tantos annos de estudo e, em parte, patenteados numa prosa, que ninguem excedeu ainda; ou mesmo, e principalmente, pelas traducções, que o sr. Ortigão menospreza, e que, todavia, são thesouros de riqueza para uma lingua, e modelos preciosos para os que aprendem. Nos seus livros tem elle--é crença minha--um escudo poderoso e magico contra o qual se quebrarão as armas mais bem temperadas de seus detractores. Attribuem-lhe, é certo, actos que o deslustram, pouco generosos, e pouco nobres, que poderiam ser filhos, como eu cuido, da simples e ephemera vaidade de deixar na sua passagem seu nome celebre, preso a alguma anecdota ainda mais celebre, que o fizesse lembrado na praça, no café, na familia. Não é raro encontrarem-se caprichosinhos de similhante jaez em agigantados talentos. São estes, porem, como a seara luxuriosa e medrada, que esconde e afoga, nas opulencias de seu viço, as enfezadas parazitas, que se lhe enroscam no pé, só visiveis a olhos de lynce, ou a olhos de alguem que, mal intencionado, de proposito as rabusca.
O litterato porem faz esquecer essas pequeninas cousas.
E, se a alguem, offendido, por qualquer motivo, assistia o direito de lhe exprobrar a culpa, esse, quer-me parecer, não devia ser nunca, quem não acha recursos na mais pura lealdade.
Não imagino que alguma cousa possa affligir e irritar tanto o melindre e vaidade do escriptor como a cavilosa estrategia do critico, que se afez a arrastar-lhe as ideias verdadeiras e boas no labutar de palavras, que elle torce e retorce, amoldando-as a contrario sentido com grave detrimento da boa hermeneutica. O sr. Ortigão, neste ponto, é critico muito para ser receiado.
Como me distraem occupações mais serias contento-me em citar um ligeiro exemplo, dando de mão a algumas das asserções anteriormente aventadas, que eu me reservo confirmar quando m'o exijam. Isto, porque já me tarda a entrada no campo em que, Ruth de novo genero, me propuz respigar.
Saboreia tu, meu Castello-Branco, a estrategia, que abaixo descubro, e aconselho-te que pautes por esta todas as outras, que elle por ahi recortou em imagens de polpa, e por vezes elegantes.
Disse o sr. Castilho, criticando o Poema da mocidade, na fallada carta ao editor, disse que a poetica hodierna concede até certo ponto mesclar-se o burlesco pelo serio; e comprovou-o com a citação do D. João de Byron, do Diablo mundo de Espronceda, etc., accrescentando, em remate, que ao poeta, em questão (o sr. Chagas) não convinha imital-os.
Isto a proposito de certas desgraciadas e truanescas concepções, desenvolvidas em versos chocarreiros e unctuosos no malaventurado poema de supradicto poeta. Nada mais justo, e mais para se louvar, do que a delicada solicitude de mestre e de amigo com que o sr. Castilho reprehende sem offender.
E queres saber a conclusão tirada pelo sr. Ortigão? Brada que não pode ser aquillo tomado a serio; que o sr. Castilho zombava quando tal disse, e, muito mais, porque, decorridas poucas linhas, elogia aquelles versos tristes, que dizem que
as folhas seccas caiam com leve bulha no chão,
versos comparados a outros versos tristes de Myllevoye.
E prosegue clamando que a autoridade d'este moço, de intelligencia quasi ephemera, é cruelmente anteposta ao exemplo dos gigantes, que reformaram as litteraturas de Hespanha, Inglaterra e França.
Como se engana o sr. Ortigão! E como é para lastimar que a sua espiritada intelligencia se demore nestes sophismasinhos escholares!
O sr. Castilho não denota, numa palavra sequer, preferencia a Myllevoye. Nem ao menos o compara com Byron, Espronceda, etc. O que elle faz é aconselhar cortezmente o sr. Chagas a deixar o infatuado e infantil intento de seguir as pisadas de Byron. Aconselha-o como a prudencia aconselharia o temerario icaro da fabula a não se avisinhar do sol, se estimava em alguma cousa a tolissima existencia e as pobres azas de cêra. E já assim não acontece com Myllevoye, que o proprio esmiuçador portuense confessa, sem quebranto da historia, que era dotado de quasi ephemera intelligencia, e que portanto podia, com um pouco de exagero, ser apontado como norma, e servir mesmo de confronto ao sr. Chagas, que, apesar do afamado poema, tenho para mim que lhe não falta merecimento.
É por outra forma mais liza, mais portugueza, mais nobre, que o sr. Anthero encara na sua carta o chamado principe dos nossos poetas. Arrebatou-me aquella linguagem austera e verdadeira. Digo verdadeira, porque é sentida e franca, e não, de certo, porque o meu humilissimo entendimento ouse partilhar taes ou similhantes ideias.
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