O sr. Alexandre Herculano, opusculista. Os semi-deuses e os rapazes. As armaduras e as flanellas. A Voz do Propheta, geremiada de salão. A biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de Radway. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa, Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e Carl Marx. O sr. Herculano Salomão e nós o bôbo Marcullo.--João Felix Pereira, historiador. Os compendios da instrucção publica e as equarissages.--O sr. D. Fernando em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e seus principios politicos.--A casa de detenção nas Monicas. O edificio, as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem se fazendo-se dezembargadores ou coroneis--As curiosidades infantis da Republica Portugueza--_Duas palavras aos leitores das Farpas_, folheto brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil: testemunho insuspeito e juizo final. O sr. Mathias de Carvalho e a actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero e a nossa.--O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O Sport e o Lagoia. Perfil do high-life. Os srs. De Lagrange, De Mouchy, Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas tipoias vencedoras--Representação da comedia Magdalena. Os caracteres, os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas honestas.--Um anjo catholico e uma jovem deusa da Razão, typos da litteratura e da moda.--O leilão do espolio de sua magestade imperial.
O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de Opusculos um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do illustre escriptor.
Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou 1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu, formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.
Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de cera côr de rosa e olhos de vidro.
E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de stick do primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois dedos de Proudhon e de um copo de Champagne!
Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que, n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina veste Bênoiton a que triumpha.
Ai! perdoae-nos ... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro, a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos, graças ás capsulas ferruginosas e ao Rob Lafecteur, podendo impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan, chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.
Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses, inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca--na attitude classica dos Abrahões de jardim--suspendem os seus alphanges, como poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta gerações de pardaes!
Aqui temos nós, por exemplo, A voz do propheta, cem paginas sybilinas, em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.
É uma especie de _Dies irae_--de salão.
Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado n'um figle.
Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da caveira de um cyclope.
A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende--ella, desvairada, tambem o não sabe!--mas pisa o tablado a largos compassos tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita natureza humana se desencarrega--ai de nós!--pelo nariz....
O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas palavras:
«O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos ...»
E conclue assim:
«N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:--Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.»
Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam contristadas e attonitas:
Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o propheta banhado em suor frio e repassado de amargura?!
Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma o ultimo clarão de esperança?
Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido directamente por Deus de fazer resoar palavras de terror, explica satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção, destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes consentissem penetrar o sentido da Voz do propheta.
A explicação d'essa voz que diz ao povo «_que a sua hora extrema vae soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé_»,--a explicação da voz que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de morte para o povo e para o paiz, é que:
A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das proprias ambições as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque invejosas, espoliadoras, porque miseraveis;» e Elle, o propheta, Elle, o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle era--cartista!
Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «_O espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze, resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror_ ...»--é que naturalmente Deus era tambem--cartista.
E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia e de rhetorica!
Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: Vae, o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe tivesse dito--_Vence_? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a Voz do propheta. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio? Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina, authentico e legitimo?
Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos:
Primeiro--Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo em relação aos documentos ainda n'elles existentes»--questão que se acha resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.
Segundo--«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.
Terceiro--«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»--especie de carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr. Herculano quer um jurado especial encarregado de defender a moralidade, punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em offensa da moral,--o que nos parece ser, sem a minima duvida, o restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano, sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.
Quarto e ultimo--Uma advertencia preliminar, na qual o autor explica que compoz a sua obra _com o fim de_--matar o tédio das longas noites de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos--no inverno pelo menos--são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue--a bisca sueca. O fim moral retira-se, havendo uma perna para o voltarete.