A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar, Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e as Farpas. O libello d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios. A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.
No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados. Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da grande alma do povo.
Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de Ville a Republica de 48.
Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas, os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no isolamento austero da independencia o do sacrificio.
Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno e do Bernardo Palissy.
A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma, resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.
Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da academia prohibindo que o premio da virtude cahisse no cofre da rebelião.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»
[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi egualmente o braço constantemente pronto para resistir.
Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da liberdade de pensamento!
O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a força do trabalho; Littré, a força da philosophia.
D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não tem partido.
Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus similhantes!
Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela consciencia e pela verdade!
Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um symbolo ultrajante para a dignidade humana.
A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos principios de justiça social constantemente professados pelo immortal artista.
Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar puerilmente que se deve ser
Fier d'être français Quand on regarde la colonne!
Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o distico diz ser: levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o Grande!!
Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.
A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes da geração actual o sol de Austerlitz.
Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará, ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.
Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte. Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
Feliz homem!
A morte de José de Alencar, o auctor do Guarany e de Luciola, representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus pensadores.
Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um novo elemento social--o povo.
José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e decide da sorte dos imperios.
Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, procedera da roda dos expostos.