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Ambições: Romance
Language: pt451 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: Novels
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #63488.

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The opening · free to read
É na botica d’uma villa de provincia, velho burgo acastellado, orgulhoso dos seus foraes e brazões como da nobreza que em tempos d’alli sahiu e se espalhou pelo reino, deixando fortes raizes na terra, que ainda exporta fidalgos como podia exportar qualquer mercadoria.
Despoetizada pela moda que tudo confunde e baralha e pela turba de veraneadores que a procuram para refazerem os pulmões e os nervos, a que os invernos de Lisboa esgotam a energia, é ainda assim das mais typicas e formosas da provincia.
Afóra dos muros, os campos estendem-se verdes—do verde escuro dos pinheiros, do verde cinzento das oliveiras, do verde brilhante dos castanheiros... de longe em longe, manchas risonhas de pomares, salpicadas de casaes brancos, com recortes de velhos campanarios, fachadas ennegrecidas dos antigos solares, e as ermidas caiadas nos cimos dos montes cobrindo com um leve e translucido véo de mysticismo pagão a hilariante festa da natureza.
Nada mais proprio, em verdade, para uma villegiatura alegre, do que esse recanto de provincia,—valle ameno entre montanhas, com o rio cachoando ao fundo, deslisando mais adeante entre salgueiraes, como assustado da sua propria fúria.
Ha alli de tudo para deleite dos ociosos que no verão passeiam pelas provincias os tedios e as toilettes da moda.
Para os pic-nics, a sombra de velhas arvores em quintas senhoreaes; o rio, com as madrugadas de pescarias alegres; e lá para setembro a caça a rôdos pelos matagaes da serra; e para cúmulo as estradas bem conservadas pelo interesse que a gente da villa mostra em dar boa conta de si perante a civilisação dos pur-sangs e dos cocheiros inglezes.
Mas estamos no inverno, n’uma fria tarde de fins de janeiro. Ora o que se hade fazer no inverno n’uma terra de provincia, quando a neve cobre o cimo das serras e o vento corta as carnes como vergastadas? Procura-se então um bocado de sociedade para encurtar as noites sempre grandes para os preguiçosos e os paroleiros.
Vae-se para a botica, pois para onde se hade ir?...
Aquillo é o club, o centro onde tudo se reúne e as novidades se sabem e commentam, primeiro que em parte alguma.
Toda a gente tem entrado n’uma pharmacia e conhece mais ou menos o cheiro especial dos remedios, o feitio classico dos boiões das pomadas, os frascos bojudos com tampas de vidro e letreiros em grossas lettras sábias, os passaros empalhados entre o aquario com peixesinhos vermelhos e a balança na sua maquineta de mogno polido.
Em coisa alguma sahia dos antigos moldes consagrados a propriedade do sr. Domingos José da Silva, chamada a botica velha, para se distinguir da nova: envernizada de fresco, com mobilia de casquinha folheada em mogno, fabricado n’uma marcenaria do Porto.
Comtudo, a velha pharmacia rotineira e modesta não perdêra os freguezes antigos, como se não cançava de o apregoar o seu feliz dôno, que não soffria sem verdes olhares d’inveja o luxo sybarita do competidor.
Por largos annos fôra o unico pharmaceutico n’umas poucas de leguas em redor e gabava-se que não havia quem lhe levasse a palma na confecção d’umas certas pastilhas contra os vermes. Essa e a dos cães damnados eram muito suas e a ninguem as daria senão no ultimo arranco.
Mas um dia—questões de politica, infamias, invejas!...—eis que lhe surge pela prôa a nova pharmacia, com proprietario rapaz a modos litterato e suas vistas altas de quem tem um curso e faz os rótulos em latim.
Ia tendo uma apoplexia o sr. Domingos! A cada innovação que o seu rival trazia ás velhas costumeiras de botica provinciana, elle desabafava em murros no mostrador e furioso sorver de rapé.
Andou atrapalhado uns tempos. O filho aconselhava que mandasse dar uma pintadella ás portas, comprasse estantes e livros encadernados, e lá emquanto aos letreiros mandava-se ao mano, que estudava no seminario, que os escrevesse.
—Que não!—berrava o velho em vermelhas guinadas d’orgulho—que assim tinha vivido sempre e assim queria morrer; que levasse o diabo os modernismos!
N’estes sentimentos era appoiado pela mana Joaquina, resmungando sempre encatharroada contra as novidades e contra o rheumatismo que mal lhe deixava arrastar as pernas trôpegas.
Mas o caso é que a botica nova não lhe tirou freguezia, apezar dos fumos de sabichão do pharmaceutico, porque a boa gente da provincia gosta sempre de andar pelo seguro:—_ná_, diziam elles, temo-nos governado com o sô Domingos, e com as suas drogas nos iremos medicando; nada de venenos, que são os remedios novos!
E batiam familiarmente nas costas do velhote, que esfregava as mãos triumphante.
Passára-lhe já a maior furia, mas o rancor ficára latente e resmungão, como cachorro mal acostumado ao canil. Pessoa que, por acaso, ou propositadamente, entrasse na _nova_—como dizia com ironico despreso—era certo incorrer para sempre no desagrado geral da familia.
Mas, isto era ao accender dos candieiros de petroleo,—não chegou ainda a civilisação do gaz a todos os cantos de Portugal—por um fim de dia de frigido janeiro.
Lá fóra a escuridão fazia-se rapidamente, com um tremôr d’estrellas que annunciavam muita geada por essa noite fóra.
O sr. Domingos José da Silva, matriculado pharmaceutico no largo da Fonte, (como de si proprio dizia com grossa voz fanhosa e expedimentos de perdigotos por demais explicativos para quem lhe ficava em frente) estava nos seus momentos felizes.
Era á hora a que os parceiros do solo e da má lingua começavam a chegar, e toda a sua grossa pessoa rejubilava festiva.
Não que elle fosse positivamente um mau homem, que não era! Mas aquelle fraco por saber o que se passava na terra, fazia-o esperar pela noite como pelo melhor bocadinho da sua estupida vida, partilhada entre as tizanas, as descomposturas aos freguezes pobres, e o desvanecimento pela esperteza propria e a da familia.
Não era raro ouvir-lhe contar os adeantamentos e habilidades da sua prole, n’estes e n’outros discursos por igual demonstrativos.
—«O meu filho Antoino, cabalidade, cabalidade!... Deu os riscos p’ró chafariz novo. Ainda os pintava melhor, a cambra é que não quiz gastar dinheiro. Mas deixem-me ser vérador que o caso é oitro...»
Tinha ferrado no bestunto esse ideal supremo de labrego, que ao acaso de muito pontapé da sorte conseguira largar o cabo da enxada pela mão do almofariz.
Passeava, pois, o sr. Domingos José da Silva ao longo e largo da pharmacia, para melhor aquecer os pés mettidos em tamancos forrados; esfregava as mãos vermelhas e enfrieiradas vestidas de mitenes d’algodão verde salsa; tossia para o cache-nez enrolado ao pescoço, e esperava os parceiros emquanto o filho Antoino accendia as luzes e preparava as cartas para a partida.
N’uma das voltas do passeio, que o poz em frente da porta, deu de cara com a Engracia da Luz, a velha criada, quasi da familia, de casa dos Mellos.
Estacando deante d’aquella visita inesperada, onde farejou um principio d’intriga para o serão do padre cura e mais freguezes, perguntou solicito:
—«Que é lá isso, nhora Engracia? Está alguem doente lá por casa?! Parece que a vejo assim a modos assarapantada!...
—«Ai! deixe-me aqui sô Domingos. Eu vinha em busca do sr. dr. Ramalho. Disse o Zé Leandro que vira chegar umas malas grandes no carro da estação, que talvez fosse o senhor doutor... E vae eu vim em cata d’elle, porque a minha menina está muito mal, muito mal!...—puxando a ponta do avental, n’um arremesso á desgraça, limpou as lagrimas que lhe corriam em fio.
—«Olha que lanzudo aquelle! Essas malas que diz são do caixeiro das amostras, que até está em casa do Brito. O bruto não sabe cabriram as cambras e o dr. Ramalho é deputado? Que eu tamem, não sei o que alli anda!... Elle não pára cá em chegando o inverno...—piscava os olhos ao filho com ar de finura laponia, o que escancarava n’um regosijo a bocca do rapazola. Mas, reparando no ar desinteressado da Engracia que se voltava já para a porta, tornou:
—«Olhe cá, então o dr. Viegas, o doutor novo, não está lá sempre mettido em casa, não é até o noivo da Pillarsinha?
—«Pois é, é!... E não sei que lhe diga, sô Domingos, mas aquelle casamento foi a nossa desgraça. Nem elle se faz, que a minha menina morre!...
—«Elle que é medico hade curá-la, e com remedios da nova a sua menina irá a melhor, verá!...
Ria n’um pigarro escarninho, que arrepiava.
—«Olhe, sô Domingos, eu não sei d’essas coisas. Os senhores é que lá entendem d’essas guerras! Só cá me consolava o coração que o sr. dr. Ramalho visse agora a minha menina. Está finadinha de todo. Aquillo é uma fraqueza de peito, uma canceira que nem parece a mesma! Decoadinha como a senhora da Solidade! Valha-me o Senhor dos Afflictos da egreja, que só a elle a gente se póde apegar!...
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