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Crónicas imorais
Language: pt432 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: Essays, Letters & Speeches
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #71745.

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The opening · free to read
Os artigos, crónicas ou antes as impressões que hoje se reúnem em volume são já do domínio público. Todavia devo declarar que não foi nele que pensei, quando as escrevi. Os quatro géneros de criaturas que há no mundo, «criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras», como quere Vieira, só mediocremente me interessam. Publicam-se hoje porque isso me apraz, e se são más ou boas, tal não me fará doer a cabeça. Nunca mais as lerei. São cousas que passaram, notas à margem dum acontecimento, comentários a uma leitura, impressões de momento, fumo, cinza, terra, nada. Viveram um dia. Hoje reúne-as um certo egoismo. Vivi com elas. Acharia a algumas, se as voltasse a ler, uma ingenuidade primitiva; a outras uma piada estupenda. Pensadas e escritas à hora em que o chefe da tipografia vem pedir original, só para mim terão valor. No emtanto marcam cousas curiosas e são um depoimento pessoal não falho de interêsse. Umas são indignadas, outras biliosas, algumas pândegas. Não admira. Filhas do momento que as inspirou, devem tambêm ter o seu grão de incoerência, de petulância, de atrevimento. Que importa? Não as renego. Chamei-lhes imorais, porque algumas tiveram o condão de irritar muita gente boa, que ainda tem moral. Ah! abjecta gente a que ainda tem moral! Muitas mereceram acres censuras e outras ainda despertaram louvores. As que despertaram louvores tive o cuidado de não as juntar aqui. Devem ser más por fôrça.
Vivendo a vida do jornal, perdendo-se no arquivo do esquecimento que o jornal é, em pouco tempo estariam esquecidas. Em livro, não será mais longa a sua vida, mas sempre o entêrro é melhor engendrado. Imorais disse eu. Imorais sim porque quási sempre estão em desacôrdo com a moral do meu parceiro. Que devo confessar-lhes, não me dou nada bem com os que estão de acôrdo. Quem está de acôrdo não sabe ter razão. Porque a razão não é dos que a teem, é dos que teem talento para a ter. Devo tambêm confessar-lhes, que estas crónicas são inofensivas. A ninguêm fazem mal. Não passam dum bom riso, um grande riso. Tolice seria tomar tudo isto a sério. O mundo é uma espécie de revista e quem se mata morre cedo. Se alguma vez, leitor, te interessares, olha que tudo isto é ilusão. Não vale a pena, em verdade te digo. Ilusão, ilusão sómente. A comoção, a ironia, o riso, a tristeza, tudo isto que vês reunido, tudo isto, não é mais do que cousas que já passaram, recordações, notas breves, leves apontamentos, terra, pó, nada, cinza.
E não se comovam que se acaba o prólogo.
O ano que começou ontem será um ano igual aos outros. Igual, sem tirar nem pôr. Haverá nele, como já houve o ano passado, como houve em todos os anos que passaram e como haverá em todos os anos que vierem, tolos que enriquecem e tolos que cavam pés de burro, asnos que se suicidam e asnos que acham isto uma cousa óptima. Continuará a haver uma ignorância formidável da multidão dominada e uma patifaria criminosa da minoria dominante; continuará a haver homens cavalos e homens cavaleiros; sábios que são burros e burros que são sábios; muita maldade nas mulheres--a maldade nas mulheres é um pleonasmo!--e muita estultícia nos homens. Haverá côres para todos os gostos, acepipes para todos os paladares e partidos para todos os cidadãos. Não sucederá nada de novo, porque nada é novo debaixo do sol, diz a voz grave do vélho Eclesiastes, um mágico que sabia muito mais da patifaria humana do que o snr. Civinini das mulheres que usam bigode e pêra.
O novo ano será um ano feliz para quem jogar e lhe sair «el prémio gordo». Para os que joguem e lhes sair branco será um ano de azar.
Quem trabucar, manduca, a não ser que perca o apetite. Quanto ao resto, o que êste ano será, é fácil de adivinhar.
Para os tolos, uma felicidade, porque êsses banabóias são felizes todos os dias; para os que não sejam, nem eu mesmo sei.
Quanto ao ano artístico, será deplorável, porque o que terá menos é arte, e de artistas nem sombra. Haverá vários quadros assinados por estes e aqueles fulanos. Se é paisagem, já sabemos o que é: «Macieira em flor», «Um trecho da Tapada» ou a «Ribeira de Algés». Se é retrato, um cavalheiro ou uma cavalheira de cara lambuza e desconfiada, olhos de goraz do vapor, ou então um ar bonacho de quem diz à gente: «Então que tal? como passou? estou catita, heim?»
Em arquitectura, continuarão a aparecer projectos... do Palácio da Justiça, de várias saladas de cal e areia para projecto ou para habitar, e de «artes várias».
Os nossos escultores continuarão fazendo Senhoras da Conceição, cruzes para jazigos, e «muchas cosas más» dum «salero» infinito.
Das finanças: «_finanças_ se chamam as rendas públicas quando Portugal está a _finar-se_». É de Camilo o dito. Das finanças dizia eu... mas em finanças não sou muito forte. Adiante.
O ano literário... Continuará a haver literatura, literatos vulgares de Linneu, literatos abezelgados e chués, porque, irmãos caríssimos, «todo o homem tem em si uma porção de inépcia, que há de sair em prosa ou verso, em palavras ou obras, como o carnicão dum furúnculo». Homens de génio não haverá, mas em compensação abundosos se prognostica os homens de génio mau ou de bom génio, porque cada um é como o pai o fêz. A crítica continuará a ser como foi sempre: De mostarda, de manteiga, e de àgua e sal.
E, tenho dito.
Quanto a ti, leitor molesto, eu não tiro o teu horóscopo nem te leio as ruins tenções de que porventura estejas cheio. Mas é sempre bom conversar, uma conversa de amigos vélhos e inseparáveis. Não sei se és rico, se pobre, se alto, se baixo. Se rico, guarda a bôlsa que não preciso dela; se pobre, tem paciência porque não te posso valer.
Dito isto, em verdade te digo que tens um ano diante de ti. Emprega-o bem. Lê a vida do bom homem Ricardo, regula as tuas digestões, não tenhas excessos e deita-te cedo. A isto se chama em bom português fazer pela vida.
Faze pois pela vida. Lembra-te que «os mortos caem fácilmente no olvido», como dizia Bürger na balada de Leonora, traduzida por êsse tristonho Gerard de Nerval que se enforcou num candieiro da Rue Vieille-Lanterne, numa manhã gelada de janeiro em que um corvo, que parecia fugido ao «Never more!» de Poe, lhe crocitava satânico e lúgubre a sua elegia de tímido, de sonhador e de incompreendido. ¿E quem hoje, no aniversário da sua morte, se lembra dêsse pobre Gerard, que trazia sempre os bolsos cheios de livros, como o Schaunard da Bohème, que traduziu Goethe e visitou o Oriente? Ah! é bem certo que «os mortos caem fácilmente no olvido!»
Faze por ter dinheiro. O Dinheiro, alêm de ser tudo o que tu sabes, é ainda aquilo com que se compram os melões. Se o tiveres não o emprestes nem o dês. Se precisares não peças, porque ninguêm te vale. Gritar é inútil tambêm, para que não chames curiosos à tua desventura.
Prefere «um pássaro na mão a dois voando» e não te fies na Virgem. Porque se te fias na Virgem e não corres não tarda o fatal e bem merecido pontapé.
Se és casado não leves amigos a casa. Isto não é para que te ofendas, é por uma cousa que eu cá sei. Se tens filhos, ao menos um filho só, que é cousa que tôda a gente tem, seu ou alheio, faz do teu filho um homem forte. Bom estômago, bons nervos, bons músculos. Antes o obrigues à frequência do mestre Raku, um sujeito que ganha a vida a deitar os outros ao chão, do que à de Félix Pereira, que lhe ensina que meter os dedos no nariz é porcaria. É preferível ser forte a ser bem-criado. É mesmo preferível ter fôrça a ter direito, «porque se vai mais longe com a mão cheia de fôrça do que com um saco cheio de direito», ensina a experiência dos homens e a sabedoria das nações.
Podes ensinar-lhe muitas mais cousas que tu saibas. Não o queiras nem artista, nem literato, nem jornalista. Vê se o podes fazer par do reino, que o pariato é uma cousa que se está dando ou se vai dar a tôda a gente, exactamente como o hábito de Cristo ou de S. Tiago. «Dizem que até há barbeiros...» como já o suspeitava o Baptista dos Maias. Se o fizeres par, porque êle não tenha geiteira para outra cousa, recomenda-lhe que se cale. «O silêncio é de ouro» e um tolo calado, conquanto não deixe de ser tolo, passa por homem sisudo. Porque se êle assim não fôr, tanto pior para êle. Os que assim não são, nada teem a esperar do ano novo. São e serão sempre escarnecidos, ridículos e pobres. E o pior mal dum homem é ser pobre. Ninguêm lhe vale. Ser pobre é...
Não continuo porque um cavalheiro que está vendo o que eu escrevo, refila, em ar de resposta:
--«Mas há a Caridade. A Caridade, homem!»
--«A Caridade? Ah! sim.»--As misérias do próximo comovem muito a caridade de cada um. E eu, que tambêm me vou tornando azêdo como o senhor Silva Pinto, resmunguei e recordei-me. Devia ser uma caridade como a daquele barão da Falperra que o nosso Alfredo Mesquita conheceu: Um homem tão caridoso que, depois de ter ouvido um pobre contar-lhe as suas misérias, a ponto de o fazer chorar, chamava sempre o criado e, com a voz entrecortada de soluços, ordenava:--«João, ponha êsse homem no ôlho da rua; parte-se-me o coração de o ouvir...»
E para os que lhe dissessem que êle lhe não dera nada, retorquia, que sim, que dera. Dera-lhe... atenção.
E estava certo, como diz ainda o senhor Silva Pinto.
A morte recente dêsse desventurado Augusto Santo, escultor do Pôrto, veio avocar com amarga intensidade a malfadada sorte que está guardada a todos que teem a suprema desventura de ter nascido artistas em Portugal. Augusto Santo foi discípulo de Falguière, de Rodin e de Soares dos Reis. Ouviu as lições de Taine, e expôs no Salon. Era quási um desconhecido e morreu na maior miséria, num catre humilde de hospital.
Ser desconhecido em Portugal é um caso banalíssimo. Herculano, e êsse Garrett que «num dia de apuro por cem ou duzentas moedas seria capaz de tôdas as porcarias menos de pôr num papel a trôco de todo o ouro do mundo uma linha mal escrita» são, ainda que isto pareça um paradoxo, quási desconhecidos. O grande público não tem ideia dêles e ainda hoje uma das suas edições leva uma eternidade para se esgotar.
A indiferença do público pelos artistas é absoluta, e não vai longe ainda o tempo em que literato era sinónimo de vadio. Camilo no Pôrto, ao tempo, era sómente um janota que para ali quebrava esquinas, um tal que não avezava com que mandar cantar um cego. Quando, pelos romances, ganhava com que forrar de cuidados o passadio de dois meses, não se imagina o escândalo que aquilo produzia nos Antónios Josés da Silva e na rua das Congostas. O Pôrto de então tinha ideias seguras e via as cousas como devia ver. Literatos neste país?! hum! e torcia o nariz como quem dizia que aquilo não era prático, nem por aquele caminho se chegava a ter um rolosito de inscrições, um prédiosito, ou uma velhice sossegada. Era a vida prática, o balcão é que era o caminho. Por isso, quando Camilo, já no apogeu de glória, em cartas duma dolorosa humildade, quási esmolava, para comer, a compra de pratas que os seus admiradores lhe ofereciam, o Pôrto mui devia rir. Êle bem lhe dizia! Não era aquele o caminho...
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