Storieta
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Os contos de Fialho de Almeida revelam um retrato vívido da vida marginal de um vilarejo português do século XIX, onde a narrativa se inicia num bar de zinco, entre a tia Lauriana, cujos “grandes seios” e “pernas masculinas” dominam o espaço, e um cego de chapéu que parece carregado de melancolia. Ao fundo, o grupo de trolhas discute o preço das couves enquanto Zé Claudino, orador popular, lança palavras “graves, indecorosas, chulas e poéticas” que ecoam como um rosário de sons turbulentos. A cena se enche de figuras grotescas – o coveiro Farrusco, o cabouqueiro corvo, e a “Ruiva” misteriosa – que, entre bebedeiras e insultos, constroem um cenário de decadência e humor negro, sugerindo uma série de episódios que exploram a miséria, a violência e a camaradagem dos personagens.

A escrita de Fialho de Almeida combina um estilo oral carregado de regionalismos, frases entrecortadas e um ritmo quase musical, refletindo a oralidade popular da época. O tom sarcástico e o uso de linguagem crua criam uma atmosfera que atrai leitores interessados em literatura de costumes, em retratos socioculturais do Portugal do século XIX e em narrativas que misturam o grotesco ao cômico. Quem aprecia diálogos vivazes, personagens marginalizados e uma crítica social disfarçada de folclore encontrará nesta coletânea um convite irresistível ao mergulho nas tavernas e cemitérios de um passado que ainda reverbera.

Characters in Contos

  • tia LaurianaBusty middle‑aged Portuguese woman in a coarse baetilha skirt, apron, hair tied, rustic tavern setting
  • Zé ClaudinoMid‑30s Portuguese male, expressive face, simple shirt and waistcoat, straw hat, standing confidently in tavern
  • FarruscoGaunt grave‑digger, dark shirt, wide‑brimmed hat, shovel over shoulder, weathered skin, 19th‑century rural Portugal

The opening · free to read

Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pasteis de bacalhau, e pernas masculas sahindo de grosseiras saias de baetilha; ao canto, o cego de chapeirão derrubado, attitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao hombro, a eterna noite nas feições. O grupo dos trolhas junto da porta, discutia o preço das couves e o numero de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua authoridade indiscutivel de orador popular, fazia-lhe cahir dos labios, como um rosario de sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poeticas, em mixto turbulento e intelligente.

Bebedos extraordinarios fallam de tudo e descrevem parabolas no sólo, com a sombra de seus copos embrutecidos. Dous ou tres embirram com a sombra.

--Mette-te commigo, resmungam; cahe n’essa, minha tyranna!

--A velhaca, commentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atraz. Mas não me larga! Bebeda!

--Era o que me faltava! Sucia de marmanjos!

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