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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)
Language: pt846 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: Historical Novels·Adventure
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #67724.

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The opening · free to read
Publicando este livro em 1857, se disse ser aquella primeira edição uma prova typographica, que algum dia talvez o autor se dispuzesse a rever.
Esta nova edição devia dar satisfação do empenho, que a extrema benevolencia do publico ledor, tão minguado ainda, mudou em bem para divida de reconhecimento.
Mais do que podia fiou de si o autor. Relendo a obra depois de annos, achou elle tão mau e incorrecto quando escrevera, que para bem corrigir, fora mister escrever de novo. Para tanto lhe carece o tempo e sobra o tedio de um labor ingrato.
Cingio-se pois ás pequenas emendas que toleravão o plano da obra e o desalinho de um estylo não castigado.
INDICE PRIMEIRA PARTE OS AVENTUREIROS I.--Scenario......................................... 5 II.--Lealdade........................................ 13 III.--A bandeira..................................... 23 IV.--A Luta.......................................... 35 V.--Loura e morena................................... 45 VI.--A Volta......................................... 57 VII.--A prece........................................ 63 VIII.--Tres linhas................................... 81 IX.--Amor............................................ 91 X.--Ao alvorecer..................................... 101 XI.--No banho........................................ 111 XII.--A onça......................................... 121 XIII.--Revelação..................................... 133 XIV.--A india........................................ 145 XV.--Os tres......................................... 157 SEGUNDA PARTE PERY I.--O Carmelita...................................... 175 II.--Yara!........................................... 191 III.--Genio do mal................................... 205 IV.--Cecy............................................ 217 V.--Vilania.......................................... 231 VI.--Nobreza......................................... 243 VII.--No precipicio.................................. 257 VIII.--O bracelete................................... 269 IX.--Testamento...................................... 281 X.--Despedida........................................ 293 XI.--Travessura...................................... 305 XII.--As mensagens de Pery........................... 317 XIII.--Trama......................................... 329 XIV.--A chacara...................................... 341 Notas................................................ 353
De um dos cabeços da Serra dos Órgãos deslisa um fio d'agua que se dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu curso de dez leguas, torna-se rio caudal.
É o Paquequer: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba, que rola magestosamente em seu vasto leito.
Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do senhor.
Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta patria da liberdade.
Ahi, o Paquequer lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só arremesso, como o tigre sobre a presa.
Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.
A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos leques das palmeiras.
Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa.
No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o interior.
Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique.
A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita metade pela natureza e metade pela arte.
Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada, encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer, chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens.
Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza para crear meios de segurança e defeza.
De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que, alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio; entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava aquelle pequeno valle impenetravel.
A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de frente, baixas, largas, quasi quadradas.
Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha.
No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do rochedo.
Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e graça admiravel.
Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma miniatura.
O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de morada a aventureiros e acostados.
Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta habitação selvagem.
Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do edificio.
A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente, respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em um deserto, como era então aquelle sitio.
As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa.
Sobre a porta do centro desenhava-se um brasão d'armas em campo de cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.
Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues.
Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste.
Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que revelava a presença de uma mulher.
Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens.
A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual havia um escabello de madeira dourada.
Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e formas exquisitas.
Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias côres e entremeiada de pennas negras e escarlates.
Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos olhos profanos.
Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso que uma fada habitava.
A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antonio de Mariz, fidalgo portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.
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