Storieta
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A Partida

Na segunda-feira, erão seis horas da manhã, quando D. Antonio de Mariz chamou seu filho.

O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou reflectindo sobre os perigos que ameaçavão sua familia.

Pery lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os Aymorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e espirito vingativo dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado.

Por isso, de acordo com Alvaro, D. Diogo, com seu escudeiro Ayres Gomes, tinha tomado todas as medidas de precaução que as circumstancias e sua longa experiencia lhe aconselhavão.

Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de sellar duas cartas que escrevêra na vespera.

--Meu filho, disse elle com uma ligeira emoção, reflecti essa noite sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deves partir hoje mesmo para S. Sebastião.

--Não é possivel, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando correis um perigo?

--Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e meu herdeiro legitimo, o protector de minha familia orphã.

--Confio em Deos, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se elle nos quizesse submetter a tal provança, o unico lugar que compete a vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ella seja.

D. Antonio apertou seu filho ao peito.

--Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios. Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma familia.

--Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um servidor fiel e dedicado.

O fidalgo proseguio já calmo:

--Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de menos não importa ao resultado.

--Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer, porém morrerei junto dos meus.

--E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas previsões se realisarem?

--Que dizeis, senhor?

--Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de succumbir.

--Então?... exclamou D. Diogo pallido.

--Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de um perigo inutil.

D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do fidalgo:

--Perdão, meu pai, por não vos ter comprehendido. Eu devia adivinhar que D. Antonio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é digno do pai.

--Vamos, D. Diogo, não ha tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um minuto de tardança talvez tenha de ser contado anciosamente por aquelles que vão esperar-vos.

--Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se á porta.

--Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania; esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa familia. Ide despedir-vos de vossa mãi e vossas irmãs: eu farei tudo preparar para a partida.

O fidalgo, reprimindo a sua emoção, sahio do gabinete onde se passava esta scena, e foi ter com Alvaro que o procurava.

--Alvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de Janeiro.

--D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado.

--Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo esteja prompto dentro de uma hora.

Alvaro dirigio-se immediatamente ao fundo da casa onde habitavão os aventureiros.

Havia ahi grande agitação: uns fallavão em tom de queixa, outros murmuravão apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente rião e motejavão do descontentamento de seus companheiros.

Ayres Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia dous tons; mas á medida que elle se afastava, cada um dava livre desabafo ao seu máo humor.

Entre os mais inquietos et turbulentos distinguião-se tres grupos presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Ruy Soeiro e Bento Simões.

A causa desse descontentamento quasi geral era a seguinte:

Por volta de seis horas da manhã, Ruy, em virtude do emprazamento da vespera, dirigio-se o primeiro á escada para ganhar o matto.

Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver ahi Vasco Alphonso e Martim Vaz de vigia, o que era extraordinario; pois só á noite se usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia.

Ainda mais admirado porém ficou quando os dous aventureiros, cruzando as espadas, proferirão quasi ao mesmo tempo estas palavras:

--Não se passa.

--E por que razão?

--É a ordem, respondeu Martim Vaz.

Ruy empallideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéa que lhe acudio foi que os tinhão denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano.

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