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O Atheneu (chronica de saudades)
by Raul Pompéia
Language: pt554 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: Novels
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #68541.

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The opening · free to read
«Vaes encontrar o mundo, disse-me meu pae, á porta do Atheneu. Coragem para a lucta.
Bastante experimentei depois a verdade d'este aviso, que me despia, num gesto, das illusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regimen do amor domestico, differente do que se encontra fóra, tão differente, que parece o poema dos cuidados maternos um artificio sentimental, com a vantagem unica de fazer mais sensivel a creatura á impressão rude do primeiro ensinamento, tempera brusca da vitalidade na influencia de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hypocrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outr'ora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.
Euphemismo, os felizes tempos, euphemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a actualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base phantastica de esperanças, a actualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de purpura ao crepusculo--a paysagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze annos.
Frequentara como externo, durante alguns mezes, uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglezas, sob a direcção do pae, distribuiam educação á infancia como melhor lhes parecia. Entrava ás nove horas, timidamente, ignorando as licções com a maior regularidade, e bocejava até ás duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o collegio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contacto da malandragem, de não sei quantas gerações de pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos mezes de externato; com a lembrança de alguns companheiros--um que gostava de fazer rir á aula, especie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma protuberancia callosa que tinha; outro, adamado, elegante, sempre retirado, que vinha á escola de branco, engommadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do hombro á cinta por botões de madreperola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa injuria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que os partistas denunciavam ás mestras por duas iniciaes como em monogramma.
Leccionou-me depois um professor em domicilio.
Apezar d'este ensaio da vida escolar a que me sujeitou a familia, antes da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova phase. O internato! Destacada do conchego placentario da dieta caseira, vinha proximo o momento de se definir a minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus ás primeiras alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos pelotões de chumbo! especie de museu militar de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em proporções de microscopio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao equilibrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto,--massa tempestuosa das antipathias geographicas, encontro definitivo e ebullição dos seculares odios de fronteira e de raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providencia Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendencias pela concordia promiscua das caixas de páu. Força era deixar á ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a somnolencia morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos á sombra dos tinhorões, na transparencia adamantina da agua...
Mas um movimento animou-me, primeiro estimulo sério da vaidade: distanciava-me da communhão da familia, como um homem! ia por minha conta empenhar a lucta dos merecimentos; e a confiança nas proprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a noticia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.
Um dia, meu pae tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lagrimas os cabellos e eu parti.
Duas vezes fôra visitar o Atheneu antes da minha installação.
Atheneu era o grande collegio da época. Afamado por um systema de nutrida reclame, mantido por um director que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o geitosamente de novidade, como os negociantes que liquidara para recomeçar com artigos de ultima remessa; o Atheneu desde muito tinha consolidado credito na preferencia dos paes, sem levar em conta a sympathia da meninada, a cercar de acclamações o bombo vistoso dos annuncios.
O Dr. Aristarcho Argollo de Ramos, da conhecida familia do visconde de Ramos, do Norte, enchia o imperio com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas provincias, conferencias em diversos pontos da cidade, a pedidos, á sustancia, atochando a imprensa dos logarejos, caixões, sobre tudo, de livros elementares, fabricados ás pressas com o offegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anonymos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas publicas de toda parte com a sua invasão de capas azues, roseas, amarellas, em que o nome de Aristarcho, inteiro e sonoro, offerecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alphabeto dos confins da patria. Os logares que os não procuravam eram um bello dia surprehendidos pela enchente, gratuita, espontanea, irresistivel! E não havia senão acceitar a farinha d'aquella marca para o pão do espirito.
E engordavam as letras, á força, d'aquelle pão. Um benemerito. Não admira que em dias de gala, intima ou nacional, festas do collegio ou recepções da corôa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constellações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honorificos berloques.
Nas occasiões de apparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grillos: Atheneu! Atheneu! Aristarcho todo era um annuncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei--o autocrata excelso dos syllabarios; a pausa hieratica do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que elle fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação aspera dos supercilios de monstro japonez, penetrando de luz as almas circumstantes--era a educação da intelligencia; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciencias limpas--era a educação moral. A propria estatura, na immobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia d'elle: aqui está um grande homem... não vêem os covados de Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas massiças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os labios, fecho de prata sobre o silencio de ouro, que tão bellamente impunha como o retrahimento fecundo do seu espirito,--teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do illustre director. Em summa, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, d'esta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da propria estatua. Como tardasse a estatua, Aristarcho interinamente satisfazia-se com a affluencia dos estudantes ricos para o seu instituto. De facto, os educandos do Atheneu significavam a fina flôr da mocidade brasileira.
A irradiação da reclame alongava de tal modo os tentaculos através do paiz, que não havia familia de dinheiro, enriquecida pela septentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade domestica mandar d'entre seus jovens, um, dois, tres representantes abeberar-se á fonte espiritual do Atheneu.
Fiados nesta selecção apuradora, que é commum o erro sensato de julgar melhores familias as mais ricas, succedia que muitas, indifferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.
A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de trabalhos.
Transformara-se em amphitheatro uma das grandes salas da frente do edificio, exactamente a que servia de capella; paredes estucadas de sumptuosos relevos, e o tecto aprofundado em largo medalhão, de magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos deliciosos anginhos, ostentando atrevimentos roseos de carne, agitando os minusculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaze no ar. Desarmado o oratorio, construiram-se bancadas circulares, que encobriam o luxo das paredes. Os alumnos occupavam a archibancada. Como a maior concorrencia preferia sempre a exhibição dos exercicios gymnasticos, solemnisada dias depois do encerramento das aulas, a accommodação deixada aos circumstantes era pouco espaçosa; e o publico, paes e correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha que transbordar da sala da festa para a immediata. Desta ante-sala, trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pae ministrava-me informações. Diante da archibancada, ostentava-se uma mesa de grosso panno verde e borlas de ouro. Lá estava o director, o ministro do imperio, a commissão dos premios. Eu via e ouvia. Houve uma allocução commovente de Aristarcho; houve discursos de alumnos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas linguas. O espectaculo communicava-me certo prazer respeitoso. O director, ao lado do ministro, de acanhado physico, fazia-o incivilmente desapparecer na brutalidade de um contraste escandaloso. Em grande tenue dos dias graves, sentava-se, elevado no seu orgulho como em um throno. A bella farda negra dos alumnos, de botões dourados, infundia-me a consideração timida de um militarismo brilhante, apparelhado para as campanhas da sciencia e do bem. A letra dos cantos, em côro dos falsetes indisciplinados da puberdade; os discursos, visados pelo director, pansudos de sisudez, na bocca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon mal feito da burguezia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos rodantes de manivella, ou exaggerados, de voz cava e caretas de tragedia fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da biblia do dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sabias maximas do ensino redemptor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do estudo, mestres á frente, na investida heroica do obscurantismo, agarrando pelos cabellos, derribando, calcando aos pés a Ignorancia e o Vicio, miserrimos trambolhos, consternados e esperneantes.
Um discurso principalmente impressionou-me. Á direita da commissão dos premios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tezinho, o Venancio, professor do collegio, a quarenta mil réis por materia, mas importante, sabendo falar grosso, o timbre de independencia, mestiço de bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O discurso foi o confronto chapa dos torneios medievaes com o moderno certamen das armas da intelligencia; depois, uma prelecção pedagogica, tacheada de flôres de rhetorica a martello; e a apologia da vida de collegio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de Aristarcho e do Atheneu. «O mestre perorou Venancio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia-zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que vae ás conquistas do saber e da moralidade. Experimentado no labutar quotidiano da sagrada profissão, o seu auxilio ampara-nos como a Providencia na terra; escolta-nos assiduo como um anjo de guarda; a sua licção prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro. Devemos ao pae a existencia do corpo; o mestre cria-nos o espirito (sorites de sensação), e o espirito é a força que impelle, o impulso que triumpha, o triumpho que nobilita, o ennobrecimento que glorifica, e a gloria é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente! A familia é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com o amor forte que ensina e corrige, prepara-nos para a segurança intima inapreciavel da vontade. Acima de Aristarcho--Deus! Deus tão sómente; abaixo de Deus--Aristarcho.»
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