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Claridades do sul
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Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #20940.
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Claridades do Sul é um livro de poesia de António Duarte Gomes Leal, cuja abertura revela um vasto mosaico de invocações ao Sol, aos deuses antigos e às figuras mitológicas, tudo entrelaçado em um discurso exaltado e quase ritualístico. O poeta inicia saudando o astro como “bello astro amigo”, lançando‑se em uma série de epifanias que mesclam referências à Antiguidade (Mithras, Apolo), ao cristianismo e a figuras literárias como D. Quixote, criando um panorama onde o brilho solar se torna símbolo de luta, esperança e transcendência. Essa primeira parte estabelece o tom de um canto épico, repleto de imagens grandiosas, contrastes de luz e sombra e um ritmo que pulsa entre o reverente e o profano.
A voz de Leal é intensamente barroca, marcada por um vocabulário exuberante, neologismos e uma sintaxe que oscila entre o lírico e o dramático, refletindo o espírito do romantismo tardio português. O estilo, rico em aliterações e em jogos de cor e som, agrada leitores que apreciam poesia densa, cheia de referências históricas e mitológicas, e que gostam de mergulhar em textos que desafiam a linearidade para oferecer uma experiência quase oracular. É ideal para quem se interessa por literatura de transição entre o classicismo e o simbolismo, e para quem busca uma leitura que combine erudição e paixão.
The opening · free to read
Eu te saudo ó Sol, bello astro amigo! (Tão pontual ha tantos centos d'annos) Mais reluzente que um broquel antigo, Mais dourado que sceptros de tyranos; Avé, heroica luz! viva e sonora, Vestindo o mundo, emquanto aos ceus erguidas, As florestas extensas dão gemidos, E o duro mar se chora!
Eu te saudo, ó astro das batalhas!... Por que atravez das cruas dissenções, Douras o pó que se ergue das mortalhas. E levantas os nossos corações! E por isso, ainda hoje, e eternamente, Os romanticos te hão de a ti saudar, --E os tristes sempre irão, á luz poente, Ver-te morrer no mar!
Tu és a Voz; a Côr; as Harmonias Accordam com as tuas claridades; És quem benze as aldeias e as cidades, E quem fases cantar as cotovias; És quem inspira extranhas theorias, És forte, são, consolador e bom! Tem a lua silencios e elegias; --Mas tu a Côr e o Som!
Eu te saudo, ó astro dos guerreiros!... Eterno confessôr de madrigaes, Que desgellas os densos nevoeiros, Que alegras as sonoras capitaes; Que dás valor nos campos marciaes, E força e amor aos aldeões trigueiros, E que incitas os tigres carniceiros A beber nos caudaes!
Desde a Chaldea ás tristes solidões, Tens tido cultos, templos levantados, E velhos ritos barbaros sagrados, E alegres, sensuaes religiões!... Tu foste Mithras, nome cabalistico, Baal, Agni, Apollo (invocações) --E hoje _Christo_--teu nome occulto e mystico-- Fere inda os corações!
Quem contará, ó luz, tuas bondades?... E o amor no qual o coração abrasas, E as tuas funeraes solemnidades Á ideal palpitação das azas?... Quem nos livra das flexas do pecado? Quem faz na intima terra o diamante? Quem gera o monstro, a pomba, o lyrio amado, E a idea extravagante?
Ave! pois, asto caro dos valentes... Da Força, Vida, Gloria, da Paixão, A flexa d'ouro aos corações ardentes, Astro amigo das lutas e da Acção! Ave! e em dias crús d'expiação Vae, e beija--nas hervas relusentes-- Os que morrem, vencidos combatentes, --A espada inda na mão!
Os reis ressonam nas devassas festas: Já os fructos do Mal estão crescidos: Ó Sol, ha muito que tu já nos crestas! E aos nossos ais o Ceu não tem ouvidos!
Ha muito já que o Olympo está vazio, E no seio d'um astro immenso e frio É morto o Deus do Testamento Velho.
Apenas sobre o mundo eterno e afflicto, Procura Fausto o x do infinito, E Satan dorme em cima do Evangelho.
Viam-nos caminhar, exilados da luz, As grandes povoações, as rochas, as paisagens. E os corvos, os fieis amantes das carnagens, Estos magros heroes, paladins de Jesus.
Andavam rotos, vis, os pés chagados, nús. Finavam-se a rezar ante as santas imagens, E ouviam-nos bradar no meio das folhagens: --Ó arvores em flor! vós sois esquife e cruz!
Onde estaes hoje vós? nas grutas dos planetas, Inda hoje rezaes, ó pallidos ascetas, Luzes vivas da Lei! martyres solitarios?
Na terra não; que ha muito a Materia nos nutre, E nem no Ceu talvez;--no entanto o negro abutre Tem saudades de vós nas cristas dos calvarios!
Nos tempos medivaes dos campeões andantes, E das balladas como a do bom rei de Thule, Andava D. Quichote em busca de gigantes, Magro, tristonho, ideal, crente Fausto do Sul.
Batalhador juiz da Virtude e do Crime, Defendendo o opprimido, a mulher, o ancião, Corria o mundo assim, ridiculo e sublime, Em seu magro corcel, sob arnez de cartão.
Cheio de tradições, o velho mundo absorto, Da banda do meio dia, ouvia o seu tropel, E como insectos vis sobre um cavallo morto, Riam as multidões do ultimo fiel.
Ia triste a scismar, com a alma abatida, Nos caminhos do mal rasgando as illusões, Magro Fausto do Sul, buscando a Margarida, Cheio de apupos vis, d'escarneos e irrisões.
Vinha de batalhar espancado e abatido, Cheio de contusões e lodos d'atoleiros, E ao pé montando um burro, e o escudo já partido, Sancho Pança a Materia, e o rei dos escudeiros!
Vinha sereno e grave, escarnecido e exangue, Emmagrecido e caalmo em meio dos estorvos, --Vinham ladrar-lhe os cães, e pressentindo sangue, Grasnavam-lhe em redor bandos negros de corvos.
Sancho Pança fiel, vasculhava a escarcella, E ascultava a borracha emmudecida emfim; Em quanto o Heroe scismava, inclinado na sella, Na conquista ideal do escudo de Membrin.
Paravam aldeões, lavradores crestados; Vinham á porta as mães, fiando o linho fino; E os magros charlatães viam passar, pasmados, Na sombra d'um cavallo o extremo paladino.
Dançavam os truões; as sujas enxurradas Com a lodosa voz, perguntavam: Que é isto?-- Satan n'um corucheu, dizia ás gargalhadas: --Ó campeão do Bem! ó victima do Christo!
Um graõ doutor da Lei dizia ao publicano, Junto ao atrio do templo, em tempos da Judea, Tambem tu vens orar, publicano sereia, A tua casa ardeu, ou deu na vinha o damno?
Jejuas tu agora e resas todo o anno, Tu que levas o pobre e o orphão á cadeia, Que tiras á viuvez o pão, o leito, e a teia, Tu que és avaro e vil, pagão como um Romano?!
Que não resas como eu, que nunca vi desfeito Dos compridos jejuns, nem macerar o peito; E que hospedas Satan, como o antigo Saul!
Não vês como estou sempre erguendo ao Ceu os braços? --O publicano então, disse, olhando os espaços: «Tambem os poços são voltados para o Azul!»
Nos seus jardins pagãos, entre archotes humanos, Na lyra de marfim sobre as cordas douradas, Nero vinha cantar ás noutes estrelladas, Elegias d'amor e canticos thebanos.
Essa lyra do Mal que ouviram os romanos, Que cantou entre o fogo, as casas abrazadas, E os lutos, os truões, as ceias depravadas, Que mysterios não viu, medonhos e profanos!
E, no emtanto, apesar da sua historia triste, Se os tempos tem corrido, a Lyra ainda existe Do devasso real, do lyrico histrião...
Seu canto inda nos prende e ouvimol-o sem susto, E, ó Terror! ó Terror! eu que amo o Forte e o Justo, --Ouço-o ás vezes tambem, dentro do coração!
A alma é como a noute escura, immensa e azul, Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul, Como os cantos d'amor serenos das ceifeiras Que cantam ao luar, á noute pelas eiras... Ás vezes vem a nevoa á alma satisfeita, E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita... E como a folha morta em lagos somnolentos As nossas illusões vão-se nos desalentos!
Tem um poder immenso as Cousas na tristeza! Homem! conheces tu o que é a natureza?... --É tudo o que nos cerca--é o azul, o escuro, É o cypreste esguio, a planta, o cedro duro, A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos, É a floresta espessa esguedelhada aos ventos; Não entra o vicio aqui com beijos dissolutos, Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!...
--E os que viram passar serenos os seus dias... E curvados se vão, ás longas ventanias, Cheio o peito de sol, atravez das florestas, Á calma do meio dia... e dormiam as sestas, Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas... Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas, Outra vez sob o Sol--a sua eterna crença!-- Em fructos resurgir á natureza immensa, E, aos beijos do luar, descansarem felizes, Da bem amada ao pé, no meio das raizes!
Morrer é livramento! oh deve saber bem Sentir-se dilatar na Natureza mãe! Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra, A rosa que perfuma, a arvore que dá sombra! Estremecer na encosta ás nocturnas geadas, E recortar o azul das noutes constelladas!
Oh pelo claro azul d'essas noites serenas, Que o segador trigueiro entôa as cantilenas, Tristes como a lua e o espinho dos martyrios, E que atravez do azul parecem cair lyrios!... Quando a brisa levanta as folhas indiscretas, Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas... E a Natureza tem como um sabor de beijos, Que obriga a soluçar a alma de desejos!...
Que segredos dirão nas brisas mensageiras, Á doçura da lua, a flor das larangeiras, O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes, Que foram já, talvez, seios fortes e amantes, E que hoje' á branca luz dos myrthos sideraes, Conversam sobre o amor e os gosos ideaes Do tempo, que a fallar corriam breve as horas, Que seus olhos leaes tinham a côr d'amoras, E debaixo do Ceu teciam longas danças, Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!...
No lago somnolento a flor do nenuphar Talvez é um coração que abre para chorar! O lyrio um seio bom,--e as violetas curvadas São os olhos talvez das doces bem amadas!...
Feliz o semeador que vive entre os arados, O campo, os lentos bois, longe dos povoados, Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros, Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros, E quando á noute finda os suarentos trabalhos, Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos, Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola, E descanta chorando á noute na viola!...
E os que andam pelo mar, alegres e contentes, Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes, Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus, Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus, Hombro a hombro o abysmo,--abysmo sempre aos pés, Que dormem á poesia, á lua das marés, E morrem uma noute, ó mar, aos teus emballos, Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!
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