Storieta
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Remedios contra o somno buscar querem, Historias contão, casos mil referem. Camões, Lusiadas, Canto 6.º, Est. 39.ª

LISBOA: 1844.

Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Largo do Pelouriho, N.º 24.

O manuscripto original do presente Poema foi dadiva generosa de seu illustre Auctor, feita á Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, que desejando corresponder a tão obsequioso offerecimento empenhou os recursos artisticos, de que podia dispor, para que a edição fosse primorosa, e provasse o adiantamento da gravura em madeira e da typographia em Portugal nestes ultimos annos.

Os Editores.

RUY O ESCUDEIRO.

CANTO PRIMEIRO.

Desbaratado, e roto o mouro hispano, Tres dias o grão Rei no campo fica. Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 53.ª

A Cruz azul, que em campo prateado No escudo de Henrique reluzia, Em cinco o Filho já tinha cortado Por memoria dos Reis, que roto havia: De Castro-verde o campo dilatado O novo Rei com o arraial cobria, Livres os seus, e os mouros fugitivos, Partião os despojos, e os captivos.

Do arraial no meio se elevava Do grande Affonso a lenda triumfante, Em torno á qual o vento balançava As dos Cabos do Exercito prestante, De Pero Pais, que seu pendão guiava, Dos Venégas do Aio prole ovante, De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes.

Em seguida á do Rei se distinguia Tenda semi-real, que alli plantára Heroe, cujo valor não desmentia O sangue da Borgonha, que o formára; Pedro Affonso, a quem déra a luz do dia Amor, que o hymineo não consagrára, Digna estirpe de Henrique, e em obras suas Galardão do cuidado ao aio Fuas.

No circumstante campo, vasto, aberto, Que inda ha dois sóes medroso, e trepidante Víra a furia cruel, conflicto incerto Do Sarraceno em lanças abundante Contra o Christão, que anima o Chefe experto, E no Deus de seus pais a fé constante, Trombetas, e ataballes uns tangiam, Outros em novo canto assim diziam.

HYMNO.

Vai fugindo o Sarraceno Mais prompto do que avançou, Que todo o poder terreno Por Christo desbaratou O braço aos perros fatal De Affonso de Portugal.

Cada um dos Cavalleiros, Que por Christo ao campo vem, Cem dos infieis guerreiros Na peleja ante si tem; Mas tudo cede ao real Affonso de Portugal.

Cinco Reis de infieis mouros Contra os de Christo vieram, D'elles teve Affonso os louros, As costas a Affonso deram, Deu Deus esforço immortal A Affonso de Portugal.

Sobre o campo da victoria, Onde Christo lhe appar'ceu, E pr'a o escudo em memoria As proprias Chagas lhe deu, Ao throno alcemos real Affonso de Portugal.

Este Heroe, que Deus ajuda Tome a nossa vassallagem: Sempre ao povo seu acuda Ou Elle, ou sua linhagem: Seja pr'a sempre real A coroa de Portugal.

Sempre entro nós haja Rei Natural de nossa terra, Que na paz conduza a grei, E que a defenda na guerra, Qual o primeiro real Affonso de Portugal.

Em quanto uns assim cantam dos soldados, Vão outros pelo campo divagando: Estes colhem despojo inda espalhado, Aquelles secco matto vão cortando; Ascende ao ár o fumo, que enrolado Das accezas fogueiras vem manando, Onde est'outros preparam o alimento Dos membros lassos próvido sustento.

Já o Sol menos ardente Para o ponente descia, Temperando a calma do dia A fresca brisa nascente, No occaso reluzente, De ouro e de purpura ornado, Guarnece o ceo azulado A orla de nevoa espessa, Novo dia que arremessa Pintando um dia acabado. Tinha chegado A hora amena, Nos nossos climas Tão suave, tão doce, e tão serena, Hora, que em tempos De paz dourada, Dos lavradores É tão presada; Quando termina Do dia a lida, Quando o descanço Restaura a vida. Sopra da tarde Grata frescura Reanimando Murcha verdura. Vem o novilho, Já libertado Do duro jugo, Pascer no prado. Sobem dos campos Os segadores. Ledos cantando Ternos amores. Gentil mancebo, Que amor encanta, Ao som das córdas As penas canta, Em quanto em giros Linda pastora Co'a dança leve Mais o namora, Hora sem par, em que o cadente dia Traz repouso, ternura, e alegria!

Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito A pár da intrepidez móra a piedade, Guerreiro sem igual, Christão perfeito, Vai demandando a erma soledade Do provecto Ermitão, asilo estreito Onde fugindo as pompas, e a vaidade, A Deus e á penitencia consagrára O venerando velho a vida cára.

N'uma colina, apenas exalçada Sobre a vasta planicie calorosa, Uma exigua Capella era elevada N'aquella idade barbara, e piedosa: Do velho Ermita a cellula acanhada Jazia ao lado, uma sobreira annosa, Co'a larga rama o tecto protegia, E do profano olhar a defendia.

Ante a porta do sacro monumento Com toscos páus estava retratado O sacrosanto lenho do tormento, Em que o Filho de Deus fôra pregado: Dentro sculptado via-se o momento Em que o Corpo sem vida, reclinado Da Mãi nos braços, vai, qual creatura. O Creador baixar á sepultura.

Alli da noute na primeira vela P'ra o Rei, do sacro livro possuido, A campana soou, que o tempo assella Do celeste Emissario promettido, P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella Fosse Christo por elle percebido, Promettendo-lhe a coroa, e a victoria Da sua estirpe, e do seu povo a gloria.

Naquelle instante o velho venerando, De giolhos aos pés da Cruz alçada, Estava o fim do dia consagrando, Como do dia consagrára a entrada. Raros alvos cabellos fluctuando Se viam sobre a frente despojada; E a barba, que lhe o vento sacudia Em ondas, sobre o peito lhe descia.

Na piedosa oração todo engolfado Estava o santo velho por tal sorte, Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado, Do Escudeiro seguido, o Varão forte. Pedro Affonso parou, seu peito, armado De audacia contra os perigos, contra a morte, Toca a vista do Ermita por tal geito, Que não sabe se é medo, se respeito.

Mas o moço Escudeiro, que o seguia Bem diversa impressão experimentava, Do Ermita a quietação, quasi a apathia Da sua alma c'o estado contrastava; Em seu peito um volcão latente ardia, Dos desejos no pelago nadava, Estava n'essa idade, em que o repouso É não só mal; mas mal o mais penoso.

Ruy era o seu nome. Á luz viera Sob o tecto paterno junto ao Douro; Seu Pai, no nome igual, a vida dera Com Henrique pugnando contra o mouro. Jámais paterno affago conhecera, Que a triste viuvez, envolta em chôro Ruy, unico bem que lhe restára, No berço filho posthumo embalára.

Unica flôr, que lhe esmaltasse a vida, A mãi no tenro filho cultivava, Nelle a imagem do pai, reproduzida, Embellezada ainda, idolatrava. No Joven desde a infancia alma atrevida Namorada da gloria se mostrava, Com coração ardente, e generoso, E a um tempo amante, meigo, e carinhoso.

Indole a tudo prompta, a tudo ousada No porte do mancho transluzia: Na estatura esbelta, e levantada Co'a ligeireza a robustez se unia: Sobre a frente morena, e dilatada A negra liza comma lhe descia, Nos olhos vivos, e de côr escura Temperava o fogo bellico a ternura.

Não era lindo, não, que expressão tanta Destroe a symetria da lindeza; Porem mais do que o lindo arrastra, encanta, Interessa, move, e a attenção tem presa. Sem ter severo olhar, que o riso espanta, Séria a sua expressão, toca em tristeza, Trasborda n'ella uma alma forte e ardente, Que tudo póde ser, salvo indiff'rente.

Tal era formado No vulto, e nas cores, Que era a Marte asado, Era asado a amores. Qual brilha entre as flores O cravo fragrante, Tal elle prestante Entre os mais brilhára, Ou tal se elevára Entre os companheiros, Como nos outeiros O olmo alteroso Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso.

No patrio tecto, desde o berço vira Do nobre pai o escudo pendurado, A cota, que inimigo ferro abrira, Inda tinta do sangue não vingado. Mil vezes entre pranto á mãi ouvira Contar paterna gloria e triste fado, Mil co'a infantina mão tocado havia A herdada lança, que ha brandir um dia.

Entre memorias taes do patrio dano Do filho de Ruy crescera a idade; Volvido haviam já anno apoz anno Conduzindo o vigor da mocidade, Quando a mãi, que respeita como arcano Do extincto Esposo a ultima vontade, No dia em que seu lucto revivia Ao filho bem amado assim dizia.

«Martyr da fé Christãa teu Pai na guerra «Pela Cruz deu a vida peleijando; «Fatal golpe o prostrou na propria terra, «Que para Christo andava conquistando. «Ah! se lá donde o summo bem se encerra «Elle, oh filho, nos vê, ver-me-ha chorando, «Dar-te o preceito, que houve do Consorte «Quando a alma entregou nas mãos da morte.

«Alli fica, me disse, aquella lança, «Que só de infiel sangue foi manchada, «Alli deixo esse escudo por herança, «Esse elmo, essa cota, e essa espada: «Se o summo Deus tiver de nós lembrança, «E que um filho haja em ti, oh bem amada, «Meu nome lhe darás, e essa armadura «Sob a qual encontrei a morte dura.

«Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo «Do peito a separou por vez primeira, «E o braço, já sem força, a custo erguendo, «Aos labios a levou por derradeira. «Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo «A esta insignia a devo verdadeira, «Devo-a de Christo á fé, que a vida guia, «Que ensina a fallecer sem agonia.

«Dize-lhe que a conserve ao peito unida, «Que ao lado seu cinja a paterna espada, «Aquella p'ra o guiar á eterna vida, «Esta p'ra ser a seu Senhor votada; «Que indomito na pugna asp'ra e renhida, «A fraqueza respeite desarmada; «Que preze a honra; fuja da cobiça, «E da moleza vil, que o vicio atiça.

«Assim fallou teu Pai.... e a penetrante «Ferida em rouxo sangue se esvaia. «Sumiu-se a voz no peito palpitante, «Aos olhos se apagou a luz do dia: «Soou da minha dita ultimo instante, «Já d'esta alma a ametade não vivia; «Mas dentro de meu seio palpitava «Penhor, que a ficar viva me obrigava.

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