«Nós não nos contentamos unicamente com exarar os factos; damos tambem a razão de sua existencia, isto he, as causas que os originárão, e bem assim os seus resultados ou consequencias. De espaço em espaço, em breves parenthesis, damos noticia do estado do Brazil em differentes épocas, para assim ir o leitor seguindo a marcha progressiva ou regressiva do paiz nos differentes tempos. Alêm d'isso, offerecemos tambem entre parenthesis muitas observações, quer a respeito dos factos, quer das pessoas que n'elles representárão, quer das suas causas e tempo em que se passárão; porque, havendo muita cousa controversa, indispensavel era dar o fundamento do nosso dizer. Por fim terminará a obra com um mui breve e succinto esboço do estado do Brazil ao findar o anno de 1848.
«Eis em poucas palavras o plano da obra que pela primeira vez tencionamos submetter ao juizo publico; a qual, pela exposição que temos feito, se conhece não ser huma Historia Geral do Brazil (para o que serião necessarios muitos volumes), mas tão sómente dos factos mais notaveis d'ella nas épocas indicadas, desde o seu descobrimento.»
A obra que actualmente temos a honra de dar á luz publica he no fundo a mesma que haviamos promettido no annuncio acima transcripto, si bem que modificada no titulo e na fórma.
O systema que haviamos adoptado para sua publicação era imitativo do de Le Sage, cuja superior vantagem não soffre contestação para aquelles que preferem a solidez e a realidade á superficialidade acobertada com pomposas expressões.
Já grande parte se achava typographicamente composta, quando circumstancias imprevistas, sobretudo a de não se achar em uma só parte d'esta grande Capital o papel cartonado proprio para semelhante genero de impressão, e não querermos demorar indefinidamente a publicação promettida, á espera que viesse da Europa o papel que se mandasse buscar, fizerão-nos de accordo com o Impressor destruir tudo quanto estava feito, e dar nova fórma e novo titulo.
Eis porque fizemos publicar a obra na fórma ordinaria, desprezando a dos mappas (que haviamos promettido), e substituimos o titulo pelo que ora tem de Indice Chronologico, etc.
Sirvão portanto estas considerações de publica satisfação de huma falta absolutamente involuntaria, que muito nos têm magoado e desgostado, como he facil comprehender.
Em compensação encontrará o leitor, alêm do promettido, mais a historia do anno passado (1849), e o estado do Brazil ao findar esse anno e entrar o em que nos achamos de 1850.
E, como graves factos se hão passado até o meiado do corrente anno (data em que isto escrevemos), para satisfazermos a curiosidade do leitor, que quizer hir acompanhando a marcha successiva dos acontecimentos notaveis de nossa Historia Contemporanea, aqui os apresentamos em mui succinta exposição.
Nas relações internas:--A sentidissima morte do Principe Imperial o Senhor D. Pedro Affonso (10 de Janeiro); a pacificação de Pernambuco pela dissolução das forças insurgentes acoutadas nas mattas d'Agua-Preta; as questões suscitadas em consequencia de recusarem alguns Chefes acceitar as amnistias condicionaes que lhes forão concedidas; a peste por quasí todo o littoral do Brazil, denominada febre amarella, e que fez milhares de victimas; o procedimento do Barão de Jacuhy e sua briosa pertinacia em continuar no seu intento contra a Banda Oriental, até que se dissolverão voluntariamente suas forças, e elle se apresentou em Porto-Alegre; a sancção e publicação do Codigo Commercial Brazileiro, que será dado á execução de 1.^o de Janeiro do anno proximo futuro em diante; a agitação dos espiritos por causa dos factos praticados pelo Cruzeiro Inglez, as discussões pela imprensa e na tribuna parlamentar a que elles tem dado lugar (Junho e Julho): eis os factos que mais avultão.
Nas relações externas:--As complicações em que nos achamos no Sul do Imperio pelos factos do Barão de Jacuhy, haver este transposto o Quarahim, e em territorio estrangeiro praticado actos de guerra; as reclamações ao Gabinete de Paris e ao Governador de Cayenna sobre o apparecimento de navios e forças Francezas no lago Amapá no N. do Imperio; as repetidas affrontas e insultos que temos soffrido da Grã-Bretanha, a qual tem continuado a abusar com o seu despotismo e insolencia proverbiaes, desprezando todos os principios sagrados do Direito Internacional, escarnecido do nosso pavilhão, affrontado todos os Poderes do Estado, e violado impunemente os nossos direitos soberanos, a honra e dignidade nacional: eis os factos mais salientes.
A maior questão da actualidade é por sem duvida a de nossas relações com a Inglaterra.
O Cruzeiro Inglez acha-se autorizado pelo Governo da Grã-Bretanha, a cuja testa se acha Lord Palmerston, para percorrer os nossos mares territoriaes, entrar nos nossos portos, e em qualquer parte que seja proceder á vizita e busca nos navios mercantes que lhe parecer, aprizional-os, e remettel-os para Santa Helena, ou incendiar ou metter a pique!
Elle o tem feito; e mais ainda!
E isto em contravenção de todos os principios, em contravenção da Convenção de 1826, em contravenção mesmo do famoso bill de 8 de Agosto de 1845!
E qual a causa? A continuação do trafico de Africanos, existir em vigor o Art. 1.^o do Tratado de 23 de Novembro de 1826, e se ter o Governo do Brazil, desde que cessarão em 1845 os Tratados que estabelecião o modo de realisar esse solemne compromisso, recusado sempre chegar a hum accordo com a Grã-Bretanha a tal respeito.
Huma duzia de traficantes (que pela maior parte não são Brazileiros), insaciaveis de ouro, embora seja elle adquirido pelos meios mais infames, vís e criminosos, tem-nos feito passar pelos vexames que ora nos opprimem, pela vergonha e ignominia de nos vermos assim atrozmente injuriados e offendidos no que ha de mais melindroso, em quanto elles folgão e riem no meio do lodaçal de suas riquezas adquiridas pelo trafico, pela destruição da liberdade dos Africanos, pela venda de carne humana! E o que mais enche de indignação he que muitos d'elles são cobertos de condecorações e honras (que só devião brilhar em peitos respeitadores das leis naturaes, divinas e humanas); e rodeados de prestigio na sociedade pela influencia do seu ouro!
Basta. Ao Governo cumpre fazer-nos sahir da gravissima situação em que nos achamos, do modo que mais condigno fôr com os nossos interesses, direitos e honra.
Rio de Janeiro, 14 de Julho de 1850.
O Autor.
TITULO I.
SECULO XVI.
1500.
Reinando em Portugal El-Rei D. Manoel, parte de Lisboa huma esquadrilha sob o commando de Pedro Alvares Cabral com destino á India, cujo caminho pelo Cabo Tormentorio ou de Boa-Esperança havia sido descoberto por Bartholomeo Dias e Vasco da Gama; porém obrigado a descambar para O. afim de desviar-se das cóstas, é acossado pelos ventos e impellido cada vez mais para este rumo. Entregue assim á mercê da Providencia, avista elle terras da America Meridional em 22 de Abril. (Muito divergem os Historiadores sobre o dia do descobrimento do Brasil; porém a opinião mais geralmente seguida, ao menos até certa época, foi a de Ozorio, Barros, e outros que assignalão a este acontecimento o dia 24 de Abril, fundados talvez na relação de um piloto que vinha nesta expedição e por isso testemunha ocular. Nós porém assignalamos o dia 22, fundados na carta que a D. Manoel escreveo Pedro Vaz de Caminha, que vinha na expedição como Escrivão da armada, testemunha ocular, e digna de todo o conceito; carta que se vê publicada pelo P. Ayres do Cazal na sua insigne--_Corographia Brasilica_,--e mais accuradamente nas--_Noticias Ultramarinas Tom. 4.^o_ Além disto temos em nosso apoio as autoridades mui valiosas do mesmo Cazal, de Varnaghen, de Fr. Francisco de S. Luiz no seu Indice Chronologico e de outros Escriptores. Accresce que os proprios Autores que opinão ter sido o dia 24, nos ministrão armas para nos confirmarmos nesta nossa opinião: porque o mencionado piloto assevera ter sido o descobrimento na Quarta feira do oitavario de Pascoa, que he exactamente o mesmo que diz Caminha na carta citada. Estando pois concordes huma e outra testemunha ocular no dia da semana, alguma se engana no dia do mez. E com effeito, tendo sido neste anno o dia de Pascoa em 19 de Abril (V. Taboa Chronologica da Arte de verificar as datas), Quarta feira do oitavario não podia ser senão 22, como com toda a razão diz Caminha, e não 24 como menos exactamente affirma o piloto referido).--Ao primeiro monte avistado dérão o nome de monte Pascoal e á terra Terra da Vera Cruz (que depois chamárão de Santa Cruz, e mais tarde Brasil).--Desembarca Pedro Alvares Cabral no lugar denominado mais tarde Porto seguro. No dia 1.^o de Maio planta a Cruz com o padrão das Armas de Portugal em signal de solemne posse do paiz para a Corôa Portugueza. Depois de despachar para Lisboa o Capitão Gaspar de Lemos a dar parte a El-Rei da inesperada e felicissima descoberta, faz-se de véla para o Cabo de Boa-Esperança e India seu primeiro destino.
1501.
Ao mando de Gonçalo Coelho chega ao Brasil a primeira expedição Portugueza para explorar as costas das novas terras. (N'esta expedição, segundo alguns escriptores, veio tambem o celebre Americo Vespucio em serviço de Portugal. E outros, como seja Fr. Francisco de S. Luiz no seu Indice Chronologico, dão a entender que esta expedição foi commandada por Americo, o qual não só percorreo toda a costa do Brasil até o Prata, como chegou á Patagonia: porém, a darmos crédito ás cartas do próprio Americo, lá temos nas Noticias Ultramarinas, Tom. 2.^o, a sua 1.^a carta, da qual se deprehende que não era elle o Capitão da expedição).
1503.
Segunda expedição é enviada ao Brasil ás ordens de Christovão Jacques. (Alguns Escriptores dizem ter sido ás ordens de Fernão de Noronha, primeiro Donatario da ilha do mesmo nome). Descobre elle a Bahia de Todos os Santos (segundo Fr. Francisco de S. Luiz na obra já citada, foi esta bahia descoberta por Americo Vespucio em huma segunda expedição que fez por mandado do Rei); e funda huma Colonia em Vera-Cruz. Depois desta expedição começa a ser levado á Europa o páo brasil, donde veio a denominação que ora tem o paiz. (Segundo alguns Escriptores, Christovão Jacques explorando as costas foi plantando padrões nos lugares mais apropriados; porém, segundo outros, cabe este feito a Martim Affonso de Sousa).
1510.
Dá á costa na Bahia de Todos os Santos hum navio Portuguez. A maior parte da tripulação e passageiros morreo ou no naufragio ou ás mãos dos Indigenas. Diogo Alvares Corrêa porém consegue a sua salvação e até fazer-se respeitado e amado desses póvos anthropophagos por ter podido salvar comsigo huma arma de fogo, com a qual ajudou-os a debellar e vencer os seus formidaveis inimigos. Denominarão-o por isso o Caramurú, que quer dizer o homem de fogo.
1515.
João Dias Solis ao serviço da Hespanha percorre a costa do Brasil desde o Cabo de Santo Agostinho até o Rio da Prata, ao qual deo o seu nome (e, posto que este rio tivesse perdido o nome de Solis para receber o de Prata, comtudo ainda hoje ha o rio de Solis que nelle desagua, e que conserva immortal o nome deste illustre navegante). N'esta viagem descobre elle a Bahia de Nictherohy, depois chamada do Rio de Janeiro. (É grave questão quem tenha sido o descobridor desta Bahia, si Americo Vespucio, si Gonçalo Coelho, si Solis, si Magalhães e Falleiro, ou si Martim Affonso. Alguns AA. até querem que tivesse sido em 1501. (V. Pizarro, Memorias do Rio de Janeiro; e Varnaghen, Notas ao Roteiro de Pero Lopes)). Esta expedição deo lugar a questões de limites e a reclamações entre Portugal e Hespanha, sobretudo á vista da celebre decisão do Papa Alexandre 6.^o. O Imperador Carlos 5.^o, então Rei de Hespanha, attendeo a todas as reclamações, e até punio os implicados em semelhante expedição como quebrantadores da paz entre os dous Reinos.