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A obra é uma crônica oficial encomendada por D. Manuel ao cronista de palácio Rui de Pina, que se propõe a relatar a história de D. Afonso V a partir de documentos e informações que pôde alcançar. O texto de abertura já revela a intenção do autor: apresentar a época do rei como fundamento para as lutas do reinado seguinte, destacando a autoridade real, as expedições ultramarinas e as melhorias materiais nas populações. Pina descreve o monarca como um amante de música e livros, generoso porém pouco calculista, cujas decisões acabam por gerar conflitos nas primeiras décadas de D. João II. Ao mesmo tempo, menciona figuras proeminentes como os infantes D. Pedro e D. Henrique, o bispo D. Garcia de Menezes e outros personagens que animam o panorama político e cultural da época.

A linguagem é típica da literatura histórica do século XVI, com um estilo formal, abundante em termos de honra, virtude e dever, e repleto de referências a cerimônias reais e a conselhos morais. O texto combina relatos de eventos militares, como as batalhas contra os turcos, com descrições de costumes e documentos administrativos. Quem se interessa por história de Portugal, pela cronologia dos reis, ou por estudos de fontes primárias da época encontrará nesta crônica um relato detalhado e uma visão contemporânea dos desafios e conquistas do reinado de D. Afonso V.

Who appears in Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)

  • D. Afonso VMiddle‑aged Portuguese king in 15th‑century regal robes, gold chain, crown, trimmed beard
  • D. ManuelOlder Portuguese monarch, austere black velvet mantle, white collar, short hair, dignified expression
  • D. PedroYoung Portuguese infante, padded doublet, flowing cape, short curly hair, youthful confident gaze

The opening · free to read

Duas palavras de introducÁ„o

El-rei D. Manuel encomendou com grande efficacia a Ruy de Pina a chronica de D. Affonso V. E elle escreveu baseado em informaÁıes e nos documentos que poude alcanÁar, com uma sinceridade notavel em chronista de palacio occupando cargos de confianÁa regia.

Parcial todavia, pouco inclinado a cousas de Hespanha e da nobreza, conta-nos a historia d'esse periodo de fÛrma que parece preparar o espirito do leitor para as grandes luctas do reinado seguinte.

A historia da Èpocha de D. Affonso V importa ao estudo da nacionalidade portugueza em qualquer ponto de vista. Affirma-se a auctoridade real, apezar das prodigalidades do rei, a independencia da naÁ„o em combates rijos, a expans„o ultramarina define-se com o arrojo dos navegantes e dos homens de guerra, a cultura dos espiritos sÛbe, os costumes policiam-se, attende-se a melhoramentos materiaes nas povoaÁıes.

A propria figura do rei desperta vivamente a attenÁ„o; os seus primeiros annos passaram num meio agitado, difficil, triste talvez, pelas luctas palacianas, mas util para a formaÁ„o de espirito culto pela frequencia, provavel, de homens superiores como os infantes D. Pedro e D. Henrique. Pelo que nos conta Ruy de Pina foi lastima que Affonso V fosse rei, porque era bom de mais, com sua parte de phantasia mansa.

Era um sereno, de piadosa condiÁ„o, familiar, grande amador de musica e de livros, e tambem de emprezas arriscadas.

Quando a Excellente Senhora professou, grassava em algumas cidades do paiz o contagio com grande intensidade, elle desconsolado quiz deixar a governanÁa, queria ser leigo no seu mosteiro do Varatojo.

Como era generoso e pouco calculista, sem sentir, pouco a pouco, foi accumulando de mercÍs certos fidalgos insaciaveis, o que originou depois a grande lucta dos primeiros annos de Jo„o II.

N'esses quadros agitados destacam-se figuras principaes como o infante D. Pedro, o das sete partidas, e D. Henrique o navegador, sempre com a sua idÈa fixa de descobrir terras, os condes de Viana, e de Avranches, grandes senhores, e aquelle singular bispo D. Garcia de Menezes t„o brilhante orador e guerreiro que tristemente encerrou a sua vida.

Outros vultos de raro perfil movimentam ainda a Èpocha, D. Pedro o rei intruso de Arag„o, filho do infante D. Pedro, erudito, collecionador de livros e medalhas, o duque de Borgonha, a Excellente Senhora. No meio das luctas e intrigas estrondea o casamento de D. Leonor. Depois das gloriosas jornadas de Alcacer, Tanger, AnafÈ e Arzilla, a ida para FranÁa.

O chronista n„o esquece os movimentos populares, as luctas na cidade de Lisboa, as uniıes e alvoroÁos; nem a lucta contra o Turco que em 1480 quasi se assenhoreou do Mediterraneo.

Hoje conhecemos outros documentos, os antecedentes da Alfarrobeira est„o mais esclarecidos, papeis de aleivosia como o testemunho do escudeiro Jo„o Rodrigues correm impressos.

Ha documentos tambem para o modo de viver da Èpocha que em geral n„o mereceram attenÁ„o aos chronistas, os que dizem respeito a costumes, a questıes economicas, ao direito. A publicaÁ„o das OrdenaÁıes, comeÁadas em tempo de Jo„o I.^o È facto capital. Em chronicas francezas encontram-se noticias de valor, ainda n„o approveitadas. Finalmente ser· preciso estudar noutra parte, e hoje ha muitos elementos publicados, o admiravel esforÁo do infante de Sagres, e da sua gente, n'este periodo, nos gloriosos descobrimentos dos novos caminhos maritimos, dos archipelagos do Atlantico revelados successivamente,

G. Pereira.

O mais singular e mais proveitoso conselho, Serenissimo Rei, que Demetrio Phalereo, philosofo mui sabedor, deu ao grande Tholomeu, Rei do Egypto, para sobre todolos Reis de seu tempo poder ser mais excellente, foi que procurasse de vÍr, e ter por mui familiares os livros, principalmente aquelles, em que os virtuosos costumes e claros feitos dos illustres Reis e Principes passados fossem verdadeiramente escriptos: amoestando-o que com vivo cuidado os lesse e ouvisse: nem era sem causa; porque, como mui prudente, sabia que os livros, posto que sejam conselheiros mortos, sempre porÈm ensinam e d„o verdadeiros e s„os conselhos, mui livres e isentos das paixıes dos conselheiros vivos, dos quaes muitas vezes por n„o saberem, e outras por n„o quererem, e muitas mais por n„o ousarem, se nega e esconde a clara verdade, que a seus maiores e Senhores pospıem ·s proprias inclinaÁıes e paixıes d'affeiÁ„o, odio, lisonjaria, interesse ou temor, que s„o causa da mais certa queda, e principal destruiÁ„o de reinos e senhorios. E por tanto, muito poderoso senhor, no conhecimento dos bons exemplos e das cousas passadas, de que a Historia È um vivo espelho, e os livros s„o fieis thesoureiros, se recebe, para n„o errar, conselho sem paix„o, e doutrina sem receio, de que · Humanidade e ao Estado Real principalmente se segue um mui seguro proveito, e por isso a Deus grande e mui assignado serviÁo.

E posto que das Chronicas e lembranÁas escriptas das perfeitas bondades e memorandas faÁanhas dos claros barıes n„o naturaes e estrangeiros, quando as lemos e ouvimos, logo nos movem para aborrecer os vicios, e com uma virtuosa inveja de seus gloriosos exemplos, nos espertam e guiam para o caminho de suas louvadas virtudes e fama; porÈm, outra differenÁa de vergonha, outra viveza de gloria, outro acendimento d'esforÁo sentimos logo em nossos coraÁıes, quando lendo topamos, e com tento esguardamos nas excellentes virtudes e prosperas empresas de nossos proprios naturaes, e maiormente d'aquelles de que descendemos; porque tanto mais nos acendem e obrigam para os semelharmos e seguirmos, quanto a certa verdade de suas virtuosas obras e grandes feitos È de maior contententamento e mais chegada a nosso fresco conhecimento, com que a n„o duvidamos.

E por esta t„o urgente causa e bem t„o universal, e principalmente por honra e gloria de vossos reinos de Portugal, Vossa Mui Real Senhoria, como virtuoso Rei mui piedoso e verdadeiro successor d'elles que È, sabendo que a memoria das reaes virtudes e feitos imperiaes do mui glorioso Rei D. Affonso o quinto, vosso tio e predecessor, cujo irm„o legitimo era o mui illustre Infante D. Fernando vosso padre, por negligencia sua ou mingoa d'escriptores n„o eram j· do escuro esquecimento menos gastadas, que sua carne e seu corpo que a terra comia: por mais illustrardes vossa legitima descendencia, e vossa corÙa real n„o ficar sem uma guarniÁ„o de pedraria t„o preciosa, como È sua clara e louvada memoria: e assi por Vossa Alteza mostrar um santo ensino e maravilhoso exemplo de Rei, encommendou com grande efficacia a mim Ruy de Pina, Cavaleiro de vossa casa, Chronista MÛr de vossos reinos e Guarda MÛr da Torre do Tombo d'elles, que, quanto · minha deligencia e entendimento fosse possivel, trabalhasse de haver as cousas notaveis de seu tempo, e para sua Chronica mais necessarias, e a compozesse. E como quer, muito poderoso Rei, que a carrega e peso d'esta Obra, por ser t„o digna e t„o necessaria, e com desejo e cuidado t„o virtuoso, como È este vosso, j· foi outras vezes posta e encommendada sobre os hombros e forÁas d'outros chronistas d'estes reinos, que ante mim foram pessoas de singular doutrina e mui sufficientes: e por suas grandes e desesperadas difficuldades e peso incomportavel, elles nem sÛmente a moveram; porÈm eu que para vencer e passar com ella caminhos j· t„o cerrados e de tanta aspereza e escurid„o, convertidas j· em uma manifesta impossibilidade, por vir ao fim de vosso desejo e esperanÁa, tomei por guia e salvo conduto de tantos temores vosso mandado e o vivo desejo que sobre todos em mim sinto de sempre bem e lealmente servir Vossa Real Senhoria, e inteiramente lhe obedecer: confiando que ao menos, pelo merecimento de minha obediencia, algum tanto serei relevado do erro da ignorancia e temeraria ousadia com que emprendi e acabei esta real e mui verdadeira chronica, cuja sequencia È n'esta maneira.

NarraÁ„o

O muito alto e muito excellente Rei D. Duarte, d'este nome o primeiro, e onzeno dos Reis de Portugal, acabou sua desejada e necessaria vida com claros signaes de grande contriÁ„o, e com certo testemunho de salvaÁ„o de sua alma, em a Villa de Thomar, quinta feira IX dias de Setembro, anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e XXXVIII: no qual dia por espaÁo de duas horas o sol em grande cantidade foi cris, assi como tambem o foi na hora do fallecimento d'El-Rei D. Jo„o seu padre, e da Rainha D. Filippa sua madre. E as cousas que de sua antecipada morte se conjeituram, e aos autos de prantos e tristezas que se n'ella n„o podiam escusar, e como foi levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz sepultado, em sua Chronica, onde propriamente pertence, com maior declaraÁ„o est„o apontadas.

E por seu fallecimento ficaram legitimos dois filhos e quatro filhas: I o Principe D. Affonso filho seu maior, primogenito herdeiro, que logo foi alevantado por Rei, que de sua edade havia seis annos e entrava em sete: e o Infante D. Fernando, padre d'El-Rei D. Manuel nosso Senhor: e a Infante D. Filippa, que no anno que o dito Rei falleceu se finou em Lisboa de onze annos: e a Infante D. Lyanor, que foi imperatriz d'Allemanha: e a Infante D. Catherina que sem casar falleceu e jaz em Santo Eloy de Lisboa: e a Infante D. Joanna, de que a Rainha D. Lyanor ficou prenhe, e foi Rainha de Castella, casada com El-Rei D. Anrique, o quarto d'este nome.

E ficaram outrosi vivos estes irm„os d'El-Rei D. Duarte, filhos d'El Rei D. Jo„o I; o Infante D. Pedro, que era duque de Coimbra: e o Infante D. Anrique, que era duque de Vizeu e tinha o Mestrado de Christus: e o Infante D. Jo„o, que era Condestabre do Reino e tinha o Mestrado de Santiago: e o Infante D. Fernando, que ent„o era captivo em Fez e tinha o Mestrado d'Aviz: e a Infante D. Izabel, legitima duqueza de Borgonha, casada com o duque Filippe: e D. Affonso conde de Barcelos, que depois foi duque de BraganÁa, que era filho natural d'El-Rei D. Jo„o.

Ao tempo que o dito Rei falleceu n„o eram em Thomar outras pessoas principaes, depois do Principe D. Affonso e seu irm„o, salvo a Rainha D. Lyanor sua mulher, filha d'El-Rei D. Fernando d'Arag„o, e o Infante D. Pedro, irm„o primeiro legitimo d'El-Rei: o qual, por dar ordem ao alevantamento d'El-Rei D. Affonso seu sobrinho, e ·s outras cousas que pertenciam para bem do reino, ficou na dita villa e n„o foi com o corpo de seu irm„o, a que n„o falleceu outra muita e honrada companhia.

Alevantamento d'El-Rei

Era quinta feira logo seguinte, dez dias do dito mez: o Infante D. Pedro, como Principe a que das cerimonias reaes e das outras cousas em que cabia descriÁ„o e virtude nada s'escondeu, fez fazer antre o convento e os paÁos do castello da dita villa um assentamento assi real e ricamente guarnecido, como para o auto cumpria. E · bespora do dito dia, o Infante com todolos fidalgos e nobre gente da cÙrte foram aos paÁos d'El-Rei, que eram dentro no convento, vestidos por ent„o os corpos dos panos mais ricos, mas as almas e caras de clara tristeza, que em todos n„o era fingida, mas verdadeira e justa, assi pela privaÁ„o d'El-Rei, que era muito virtuoso e para todos de grande humanidade e boa condiÁ„o, como por lhes os coraÁıes revelarem as grandes divisıes e muitos trabalhos, em que pela soccess„o de t„o novo Rei se haviam de vÍr, como viram.

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