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O PASSEIO DOS BARDOS AO BALDEADOR.

O PASSEIO DOS BARDOS AO BALDEADOR.

POR FLORIANO ALVES DA COSTA.

RIO DE JANEIRO, TYP. DE SILVA LIMA, RUA DE S. JOSÉ N. 8. 1848.

AO SEU PRECEPTOR O ILLM. SR. JOÃO DA COSTA FREITAS, como tributo de gratidão O. D. C. Floriano Alves da Costa.

Folgam no campo os naturaes prazeres, E a rustica alegria apraz aos Deuses.

CASTILHO--PRIMAVERA.

O PASSEIO DOS BARDOS AO BALDEADOR.

Que se désse um passeio além das plagas D'esta bella cidade do Janeiro, Entre si dois amigos[1] decidiram, Dando d'est'arte distracção mais ampla Ás tão communs fadigas do trabalho. Foi então escolhido o amêno sitio Que de Baldeador lhe dão o nome; E já de antemão fruindo mil prazeres, Descreviam na mente os dois amigos, Os tantos regozijos que se gozam No bello apreciar do bello campo, Já contemplando a basta Natureza, Já gostando real simplicidade, Que difficil se encontra, ou não existe N'esta nossa cidade populosa!

Concebido o passeio, concordaram Que no dia seguinte se embarcassem Em direcção ao porto do Coqueiro, De onde então a pé seguir deviam Té o sitio por elles destinado, Onde, diante só da Natureza, Que n'esta nossa terra tanto sobra, Resfolegar pudessem os enlevos Que offerece o risonho panorama Das montanhas, dos bosques, dos oiteiros, Onde tanta poesia se reúne, Onde a alma do Bardo se extasia, No dôce meditar que o arrebata!...

Gasto o dia anterior a esse dia Em que tanto pensavam estes jovens, Ao ponto destinado foram ambos Afim de ahi a elles se juntarem Mais dois amigos,[2] que tomaram parte No bello distrair d'este passeio, Que tão grato prazer annunciava, N'um folgar tão ridente. Ahi se achavam Em breve reúnidos todos quatro, Quando em meio era o dia do seu giro: Almo prazer em todos respirava, Deu-se a voz da partida, eil-os s'embarcam.

Em sujo batel da roça, De cargas todo tomado, Entraram os quatro amigos Qual em pensar mais ousado: Cada um já assentado Contemplava o borborinho Que se fazia sentir No tão pequeno barquinho.

De vinte quatro pessôas Já elle tomado estava; Mulheres, homens e cargas Tudo mal se acommodava: Entretanto, a tudo dava Maior graça, mais acção, Os ditos que proferia Do tal barquinho o patrão.

Este, assentado na pôppa, Tomando do leme conta, Para seguir a viagem Bem galhardo já se aprompta: A prôa do barco aponta Para o sitio desejado; Soltam-se as vélas e vê-se Já o ferro levantando...

O vento a favôr Que então se agitava, No barco empregava Toda actividade, Que em breve a cidade Nos fez tão distante, Que olhar penetrante Não mais descobria.

Na vasta bahia Então nos achámos, E a vista espraiámos Em seus arredores: Os bellos verdores Das ilhas formosas, Serras alterosas Fomos contemplando.

Fomos desfructando Todo o panorama, Que assaz se darrama N'esta bella terra, Aonde se encerra Tanta poesia, De noite e de dia, Em todo o lugar...

N'estes bellos contemplar Todos engolfados iam, Que nem ao menos sentiam Do sol os ardentes raios.

Tal era o contentamento Que a todos dominava, Em tudo graça se achava, Tudo era riso e ventura.

Esquesitos pensamentos Pelo patrão emittidos, Feriam mais os sentidos Da bella reunião.

Pois ninguem mais desejava Do que nós, se divertir; Em todos, dôce sorrir Ineffabil se mostrava.

Entanto o activo vento Mais e mais se redobrava, O barco quase voava Impellido pela força;

Té que tanto foi crescendo E a tal ponto se elevou, Qu'em breve se rebentou Uma das duas escôtas.

Aos gritos de--férra a véla-- A risada foi geral, Fazendo-se mais cabal O nosso divertimento.

E em taes brincos Nos engolfando, Fômos passando Toda a bahia.

Em todos, prazer Se manifestava, Em todos reinava O contentamento,

E em complemento A dôce alegria De todos se via No rosto expressar.

De tantos enlêvos Foi o só motôr, O Baldeador Já tão desejado!

E tudo já tendo Bem analisado, Conforme o ensejo Nos foi permittindo, De--terra--uma voz Se deu, e nós todos Do barco da roça Nos fômos saindo.

Então avistámos, Mesmo á nossa frente, Um alto coqueiro Já envelhecido, O qual nome deu Ao porto, que achámos De curta extenção, Mas appetecido.

Pequenas casinhas, Em numero breve, De tôsco trabalho, Sem ordem alguma, Postadas em fila Ao longo da praia... Do Coqueiro o porto Este é, em summa.

E já em terra todos, espraiamos A vista ao derredor do porto ameno; Tudo n'elle animava, e assaz se via A Natureza em tudo derramada N'este sitio tão bello e pitoresco. Aqui, de uma janella se mostrava Como que a mêdo a púdica donzella; Ali, o ancião curvado de annos Desfructava do porto a vista bella; Estes, debaixo dos tamarinheiros, Que em frente ás casas ficam, junto á praia, Abrigados do sol, se distraiam C'os novos viajôres que saltavam.... Oh! como é bello o habitar bem longe, Bem longe, das cidades grandiosas! Ali, a Natureza em toda a parte, Nos homens e animaes, na flôr, nas hervas, Nas casas, nos costumes dos seus povos; Aqui o luxo e o estridor dos carros D'esses grandes do mundo... e o labyrinto... Tudo é confusão, tudo é buliço....

Oh! como é bello o habitar bem longe, Bem longe das cidades grandiosas! Desfructa-se do campo almos prazeres, No campo o home'em tudo s'extasia!...

E ahi nós tendo Pago ao patrão, E as nossas malas Tendo na mão; Dôce espanção Dêmos á vista, Pois que no porto Nada contrista.

A estrada fômos Depois tomando, Que em frente 'stava Se nos mostrando; Fomos caminhando... Por todo o passeio Tudo era alegria, Tudo era recreio.

E a casa avistámos, emfim, Que pôz cabo á viagem comprida; N'ella, a simplicidade esculpida Nós achámos, no aspecto singelo.

Isolada n'um campo, onde finda Mui custosa ladeira, escarpada, Sem abrigos ao vento, assentada Nós a vimos, e pois a saúdamos.

Oh! então a alegria se fez Dignamente expressar em nós todos; O contento se via nos modos, Nas acções, nas palavras, nos rostos.

Já da casa as pessôas se apinham, E contentes nos vêm receber; Seus olhares expressam prazer, Tudo é natureza e bom grado.

A cancella transpuzémos E na casa nos achámos; Declinava o sol então, E á mesa nos sentámos,

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