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Sá de Miranda e a sua Obra
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O ESPIRITO D'ESTE TRABALHO.
Para o completo, universal triumpho: Almeida Garrett. (O retrato de Venus--c. 3.º)
São tres os principaes trabalhos publicados ácerca de Sá de Miranda.
Em ordem chronologica, o primeiro e indiscutivelmente o mais valioso é a Vida, que acompanha a segunda edição das suas obras poeticas, datada de 1614. A Vida, em puro estylo quinhentista, de auctor anonymo, apresenta-se como _collegida de pessoas fidedignas que o conhecerão_--ao poeta--_e tratarão e dos livros das gerações deste Reyno_.
Barbosa Machado attribuiu essa biographia-critica de Sá de Miranda a Dom Gonçalo Coutinho mas não adduziu provas para fundamentar a sua affirmativa. Todos os escriptores, porém, lh'a acceitaram como demonstrada. Apenas o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, lhe pesou o valor e reforçou a allegação do illustre auctor da Bibliotheca Luzitana com as relações havidas entre D. Gonçalo Coutinho, poeta tambem da escola classico italiana, e os individuos a quem elle recorreu para a sua biographia.
Seja ou não de D. Gonçalo Coutinho, e não obstante a sua lamentavel pobreza de datas historicas, a Vida é um documento preciosissimo. Tem servido e servirá sempre de base a todos os trabalhos reconstruitivos da biographia da poderosa individualidade a quem se deve o movimento que tão alto levantou a litteratura portugueza e a fez attingir culminancias nunca alcançadas posteriormente. E tanto mais apreciavel é a Vida que a sua veracidade se comprova facilmente pelas Cartas, verdadeira autobiographia do poeta.
Foi a Vida o fio porque se guiou o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, em a parte particularmente referente á Vida de Sá de Miranda. Este o segundo trabalho de mór valia que temos sobre o grande poeta. Trabalho apreciavel e erudito, mas mais propriamente parte do estudo de uma escola litteraria, como é, que destinado a pôr em relevo, em toda a viveza de suas côres, a biographia de Sá de Miranda e o seu valor como philosopho e poeta.
Obra por egual notavel em erudição e em critica, a da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos. Tambem a sua edição das Poesias de Francisco de Sá de Miranda, feita sobre cinco manuscriptos ineditos e todas as edições impressas, é a mais valiosa de todas, a mais importante.
Um dos manuscriptos de que a illustrada senhora, benemerita das lettras portuguezas, se serviu habilitou-a a conhecer quaes foram as poesias, ou melhor, quaes os grupos de poesias, os mss. separados, que Sá de Miranda enviou, por tres vezes, ao principe D. João. Esse ms. é, demais, preciosissimo porque representa uma redacção primitiva, original, feita com cuidado e com o intuito da offerta. D'ahi, indubitavelmente, uma coordenação subordinada a certos principios e que denuncia a mão do proprio poeta. As edições, até então feitas, haviam-o sido sobre manuscriptos distribuidos a amigos e discipulos.
A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, corrigindo rigorosamente aquelle ms. fundamental da sua edição, deu-lhe não o caracter de diplomatica, sim de normal. Esse codice vem representado no texto pelas tres primeiras partes, reproducção integral, livre de restaurações e renovações arbitrarias, mas emendada onde havia erros visiveis e inilludiveis e systematicamente orthographada, em harmonia com os principios do escriba, com alguma, pouca, pontuação, pouquissimos accentos e resolução de todas as abreviaturas. Acompanha a edição um extenso corpo de variantes.
Esplendido trabalho de erudição, o da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, é ainda enriquecido com uma vida e commentario notabilissimos. Como estudo de profundo saber ficará considerado monumento perduravel e guia indispensavel para obras futuras.
A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e o sr. Theophilo Braga, apoiando-se na Vida, investigaram e esgotaram, por assim dizer, quanto a respeito de Sá de Miranda se pode escrever. Não que hajam aclarado todos os pontos duvidosos da obscura biographia do nobilissimo auctor das Cartas. Isso, todavia, é assumpto para futuras e demoradas investigações.
Comprehende-se, pois, que o presente trabalho não é positivamente novo. Tomando por base a Vida, aproveita todos os resultados adquiridos por os anteriores, comparando opiniões desencontradas e procurando projectar a mais intensa luz sobre a biographia e a obra do grande Sá de Miranda. Tudo documentado, tanto quanto possa ser, por citações das cartas e eclogas do poeta, pois que, das suas producções, as mais d'ellas respeitam sobre casos particulares que succederam na côrte em seu tempo.
O intuito primordial do presente estudo é tornar conhecida a vida d'esse vulto sympathico da nossa historia litteraria, mostrar a estreita relação que ha entre ella e a sua obra, e restituir, ante a geração actual, o poeta ao logar a que tem direito pela independencia do seu caracter, pela auctoridade indiscutivel que lhe dava esse mesmo caracter, e pelo alto valor de sua poesia, toda conceituosa e philosophica. Isto apenas desejava conseguir o auctor para poder justificar a si proprio a audaz tentativa que emprehende.
Lisboa, agosto de 1895.
Escreveu o mallogrado Pinheiro Chagas, referindo-se ao director espiritual e mestre dos lyricos do seculo XVI, ou da escola chamada classico-italiana, que--se Camões, como os Jeronymos de Belem, significa a resistencia do estylo nacional e da tradição nacional á Renascença classica, Sá de Miranda representa o enxerto da litteratura classica em um vigoroso rebento nacional. Nenhum outro juizo, como o do nosso grande historiador contemporaneo, poderia assignalar melhor o logar de Sá de Miranda no movimento litterario nacional portuguez. Cultor fervoroso da tradição portugueza em seus primeiros tempos de poetisação, o illustre solitario da Tapada, ao dedicar-se ao estudo e á imitativa dos classicos da antiguidade grega e romana, não quebrou, talvez porque o não quizesse fazer, os laços que o prendiam ao espirito que lhe guiara os primeiros passos.
Sá de Miranda, como nota o sr. Theophilo Braga, fez uma revolução profunda na poesia portugueza, foi a alma da boa litteratura e o poeta que mais propagou a tradição classica entre nós, no seculo XVI. Comtudo, o classicismo n'elle não passa de um enxerto, mera tentativa não sem valor, mas destituida de vida. E a sua gloria está toda, exactamente, em o que a sua obra tem de genuinamente portuguez. As suas Cartas, satyras admiraveis, são em todos os sentidos verdadeiras perolas da nossa litteratura.
É certo que o classicismo, a brilhante Renascença, auroreava já no horisonte do Portugal litterario. Encontrára mesmo alguns adeptos apaixonados, mas que, faltos de talento, lhe não tinham dado impulso. Se algumas tentativas houve antes de Sá de Miranda, tão fracas foram que não tiveram seguidores. Elle seu principal e verdadeiro propulsor.
Em sua educação primeira, Sá de Miranda recebeu necessariamente uns laivos de classicismo pelo estudo das obras dos poetas gregos e latinos. Nem de outro modo se poderia explicar a sua inclinação manifesta em esse sentido. A Vida dá conhecimento de que, em 1584, um fidalgo de Lamego, Gonçalo da Fonseca de Crasto, possuia um Homero com notas á margem feitas em grego pelo douto Sá. Prova de que Sá de Miranda recebeu uma educação classica.
Esclarecerá tudo, talvez, o saber-se que Sá de Miranda nasceu em Coimbra, que vem sendo de seculos o mais importante centro intellectual do paiz. Centro que tem inspirado a poesia desde Sá de Miranda até Garrett e, posteriormente, até João de Deus, Guerra Junqueiro, Anthero e Eugenio de Castro. Coimbra, a cidade das melancolicas margens do Mondego, a que as lagrimas de Ignez tornaram lendario e querido dos poetas, a Coimbra dos estudantes... Antiga e nobre cidade, como Sá de Miranda lhe chamou em uma das suas Cartas, a dirigida a Pero de Carvalho.
Da antiga e nobre cidade Som natural, som amigo.
Cidade cuja belleza maravilhosa sempre amou e louvou com o carinho de filho amantissimo.
Cidade rica do santo Corpo do seu rei primeiro Que ainda vimos com espanto Ha tam pouco, todo inteiro, Dos annos que podem tanto.
A nobre e leal Coimbra.
Outro rei, tanto sem mal Que lhe empeceu a bondade, O quarto de Portugal, Qual teve ele outra cidade Tam constante e tam leal?
Do nascimento de Sá de Miranda affirma a Vida que o poeta viu a luz em o mesmo dia em que el Rey Dom Manoel tomou posse do governo destes Reynos. Sobre qual tenha sido esse dia levantou-se divergencia de opiniões. Uns pretenderam que fosse fixado a 24 de outubro de 1495, como o admittiu o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, livre da supposição de, pela logica dos factos, ser levado a crer que o poeta tivesse nascido muito antes d'esse anno. Outros escriptores attribuiram-lhe a data de 27 de outubro, para a qual se inclinaram a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e Pinheiro Chagas.
A logica dos factos não mentiu ao sr. Theophilo Braga. Sá de Miranda viu a luz necessariamente muito antes do anno admittido geralmente. Demonstra-o, irrefutavelmente, um precioso documento recentemente encontrado, em a Torre do Tombo, pelo incansavel investigador e erudito escriptor, sr. dr. Sousa Viterbo:--nem mais nem menos do que a carta de legitimação do grande poeta, datada de 1490, em que apenas se faz referencia a Francisco, filho do conego Gonçalo Mendes, que, não resta duvida, é o nosso poeta. Ha pelo menos, portanto, a recuar uns cinco ou seis annos a data de seu nascimento, o que não deixa de ter importancia para a comprehensão da sua vida.
Da filiação de Sá de Miranda apenas se conhece o nome do pae, o conego Gonçalo Mendes de Sá, embora o sr. Theophilo Braga o diga filho de D. Filippa de Sá. Errada interpretação, como o apontou Camillo Castello Branco, da noticia-attribuida a D. Gonçalo Coutinho. A Vida é bem expressa dizendo que o poeta foy filho de Gonçalo Mendes de Sá e neto de João Gonçalves de Miranda, que viveo junto a Buarcos e de Dona Phelippa de Sá sua molher. Clarissimo, pois, que Sá de Miranda era neto, e não filho, de Dona Phelippa de Sá. Quem fosse a mãe, se plebea ou nobre, é mysterio que a alludida carta de legitimação vem desvendar.
Descendia, portanto, Sá de Miranda, da antiga geração dos Sás, geração que deu a Portugal muitos filhos illustres, cavalleiros, prelados e escriptores de renome e dos quaes um irmão do nosso poeta, Mem de Sá, é um nobilissimo exemplo. Mas, essa geração tambem legou ao mundo alguns scelerados de marca. Um dos proprios filhos de Sá de Miranda demonstrou exuberantemente quanta bilis corria entre o sangue generoso d'essa illustre familia.
A avó do nosso poeta. Dona Phelippa de Sá, era filha de Rodrigues de Sá, e neta de João Rodrigues de Sá, o primeiro que chamarão das Galés assas conhecido em tempo del Rey Dom João de boa memoria. Sá de Miranda estava assim aparentado com as mais nobres familias do paiz e mesmo com a illustre familia Colonna de Italia. Era-o, tambem, com a fidalguia de Hespanha. A origem hespanhola dos Mirandas explica, como quer o sr. Theophilo Braga, os versos em que o poeta se dá por parente do fidalgo asturiano Garcilaso de la Vega.
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