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Camillo Castello Branco
Language: pt703 downloads on Project Gutenberg
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Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #31346.
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Na dolorosa epopêa do genio discutido e calumniado abre uma excepção, que nos consola, este grande nome de Camillo Castello Branco. Os grandes homens insultados pela mediocridade confiaram sempre do futuro o glorioso desaggravo; Camillo encarregou-se da desforra; e os seus insultadores são homens mortos para a imputação, desde a hora em que o gigante os discutiu,--dado que não vinguem purificar-se no arrependimento e honrosamente confessal-o.
Eu insisto ainda agora na expiação que me rehabilita: se ha quem muito deva em lição, mais que muito salutar, ao mestre de todos nós, sou eu, que lhe aggredi o trabalho colossal, sem resvalar ao insulto ignobil ao homem que mais tarde me foi mestre e ao lar que me recebeu amigo...
Pude assistir, hospede, n'esse lar, á formação do ultimo livro de Camillo. Pede-me a consciencia, porventura illudida, um juizo favoravel á consciencia dos insultadores do livro e do seu auctor;--eu creio que os sentimentos de simples equidade, avocados pela simplicissima vergonha, dariam rebate á confissão do erro no espirito d'esses transviados, se n'esses espiritos pudesse transluzir um clarão tenuissimo d'aquelle viver de sacras amarguras que tem o lenitivo no trabalho, ou que desabafa em palavras de amigavel incitamento quando a provocação dos insensatos o não distrahe para as violencias do correctivo.
Afigure-se ao leitor de boa fé e de claro entendimento que a sorte, raro propicia a entendimentos honrados, o levou em hora de paz ao remanso de S. Miguel de Seide. É hospede na hospitaleira morada. Alta manhã, subiu ao gabinete de trabalho do mestre e achou-o solitario. Sahiu da officina para o lugar do descanço: sobre o leito, presa dos soffrimentos physicos de cada hora, que os soffrimentos moraes vingam suffocar a espaços, o grande homem descança no trabalho. Não ha que hesitar na interrupção: entrai: lá está o sorriso socratico do mestre a receber-vos, carinhoso. Ahi tendes a féra que se propõem acossar uns taes que mal espulgam a insignificancia nas horas ferozes em que o pulguedo da vaidade parva lhes dá rebate ás furias: ahi tendes o homem feroz que esses pregoeiros de especiarias podres apontam como o algoz de suas industrias d'elles. Não hesiteis na expansão do vosso crêr: elle--_o verdugo_--tem indulgencia e conselho para todas as ignorancias; tem o silencio de favor para as vaidades que o não insultam; o que elle não tem é a resignação criminosa da bondade exaggerada, quando os pygmeus chafurdam no pantano fetidissimo da injuria soez, no intuito de lhe salpicarem a formidavel sombra; o que elle não tem é a indulgencia da exaggerada caridade quando suspeita que o aggressor ingenuo encobre o vulto de villão cobarde que se agacha na sombra, menos escura que a alma do miseravel.
Então, n'esses momentos em que os profanos imaginam, á luz vermelha da represalia do mestre, uma irritação feroz, o grande homem converte o insultador em titere, prende-lhe o cordel; puxa: as cambalhotas succedem-se; o publico ri perdidamente, ou sente fremitos de espanto: o insolente morde a terra, e, quando o auditorio espera a punhalada final vibrada pelo gigante, o gigante applica no esmurraçado nariz do iconoclasta um misericordioso piparote, e ri.
Riso que seria crudelissimo se a bondade da suprema força o não temperasse...
Ás vezes, quando o feroz inverno da aldêa me fornecia, benevolo, o pretexto para conservar-me á beira de Camillo, o mestre concedia-me a leitura do seu trabalho, e eu lia distrahido: é que eu pensava, em quanto lia, nos esforços de uns miseros parturientes que atrôam os ares com os seus gemidos, quando cerradas noites dolorosas de meditação lhes arrancam dez paginas de original, morto ao nascer,--uns reformadores sarrafaçaes que põem a tratos de emendas os compositores martyres, quando não preferem--no furor de producção--pôr a tratos a critica misericordiosa que lhes corrige, em que peze a safanões ingratos, as demasias de desaforados absurdos. Confrontava, e confronto a espontaneidade uberrima e a ardentissima e vigorosa seiva d'aquelle espirito de luz com a escuridade interior dos eunucos que o doestam lá da acolheita das suas tropelias. É assim que o mister do critico se distrahe, a espaços, avocado pelo dever de amargas retaliações.
A Corja, elaborada ao correr da penna pelo mestre, é um novo documento para o processo da mixordia litteraria. Demonstra-se, uma vez ainda, que o esplendor da obra nova é uma illusão d'optica, fascinadora para o gentio zanaga, se os arrebiques não occultam o oiro de lei da concepção genial, ou da observação profunda, de par com os conhecimentos da lingua em que se escreve.
E raro occultam esses thesouros.
O que por ahi vemos, é a saudação aos arrebiques; e, justiça inteira, se á pobre chronica jornalistica não é vedado o ingresso nas sociedades de geographos e de escriptores, a crassissima ignorancia veda-lhe o uso da palavra em assumptos que demandam estudo. Que ha a esperar em affirmações de tal lote por parte d'esses eternos infantes prodigiosos que trocam por bilhetes de theatro a sua triste collaboração nas gazetas e os seus direitos de litterato no Martinho ou na associação risonha?
Eu não posso reproduzir-me no aquilatar da moderna escóla (?), dos modernos artistas, dos modernissimos abortos e das deturpações que o trabalho de boa fé tem obtido dos censores inconscientes e dos facciosos instrumentos involuntarios de uns tetrarchas burlescos da evolução deturpadissima. Mas que primores de sanissima linguagem, para lição crudelissima dos abortos e para nossa lição solicitada, não offerece o novo livro de Camillo! Depois, como a espaços, transparece, no decorrer da epopêa de miserias, o moralista mordacissimo, e como n'essa mordacidade transluz um raio de suprema piedade que sóem experimentar e conceder os espiritos de lei, firmados na base dupla do estudo e da experiencia dolorosa!
Eu pasmo--hoje--quando um espirito culto e de serios precedentes atira a luva, de envolta com a injuria, ao invencivel athleta de mil combates. Comprehendo as aggressões de uns gatunos que pedem a um puxão d'orelhas a celebridade, uns pelitrapos de botiquim aceites na Associação dos escriptores portuguezes (sic): mas, que uma entidade pensante, no usufructo da imputação desça á camaradagem com a suja horda--é o que não se póde comprehender sem derivar, para o triste caso, da allucinação partidaria, tanto monta--do mais triste facciosismo.
Elle, o flagellador da Corja, não é apenas o erudito e paciente investigador da nossa historia, o derradeiro e mais illustre mestre da lingua portugueza, «o gigante que fixou em livros immorredouros toda a comedia portugueza contemporanea» (palavras do snr. A. da Conceição no seu primeiro artigo sobre A Corja); mal vae aos tristes aggressores que o consideram immobilisado nos estudos de ha vinte annos: com a autoridade de quem assim levianamente creu e mais tarde corrigiu os seus erros sobre Camillo e sobre outros, eu poderia asseverar que o grande escriptor acompanha no seu retiro da aldêa todo o movimento litterario e scientifico do periodo contemporaneo,--poderia asseveral-o, se não visse bater em retirada, após tres dias de lucta, a aggressão moderna ao supposto immobilisado... Mas não será um crime egual ao da aggressão esta apparencia de defeza?
De homens como Camillo é uso dizer-se: «Está ainda mui perto de nós para a justiça; o futuro ha de fazer-lh'a». Quer dizer:--Estabeleçamos como norma o insulto aos mestres, durante a vida; mais tarde, depois da sua morte, nos servirão seus nomes para injuriar os vivos! Oh! espiritos sublimados dos homens d'hoje, reformadores do existente, destruidores da torpeza legalisada! se não applicasseis todo o marmore disponivel á construcção das vossas proprias estatuas antecipadas, se não empregasseis o vosso esforço em tentativas de demolição das glorias justificadas, se não desseis guarida aos insignificantes repletos de odio e aos parlapatões repletos de charlatanismo, se abrigasseis o respeito ao genio aureolado pelos cabellos brancos e pelo saber,--não dariamos o espectaculo permanente de contendas deploraveis entre os apregoados voluntarios do bom senso e da justiça.
O Movimento do Romantismo em Portugal affirma-se n'uma corrente de banalidades que dão em litteratura a nota da suprema inepcia. Mas todos os crimes e todas as faltas, melhor todas as excrescencias d'essa evolução de sentimentos se resgatam e afundam no esquecimento misericordioso, se acertamos em ver a toda a luz, a obra colossal do homem de genio que entre nós consagrou o romantismo e que o mantem, quarenta annos volvidos, nos dominios do romance portuguez, em plena força indestructivel e em plena gloria incontestavel.
Vieram, com grandes esperanças, algumas tentativas de implantação de novas formulas e de processos novos. Não escaceou o talento, menos ainda a observação, com todo o brilhantismo expositor. Mas faltou a paixão--desculpe-se a velha definição do facto eterno e insubstituivel. Foi pela paixão que triumpharam os raros e grandes triumphadores da geração d'hontem. Surgem os excessos de analyse, as subtilezas, as minudencias, a cathedra para os sentimentos, mas a inferioridade do effeito é manifesta. O successo relativo do romance modernissimo está nas bellezas do descriptivo e nos pormenores liberrimos até aos dominios da pornographia. Mas é raro que dos detalhes saia o grande traço emocional, a forte scena dramatica que convulsiona, a grande synthese psychologica que se impõe e que illumina como uma revelação.
Um lucido e poderoso espirito que nós perdemos e choramos e cujo nome deixaremos vinculado a este singelo estudo--o poeta Cesario Verde--apresentava-nos um dia diversas definições muito rapidas e muito seguras de varios escriptores portuguezes. Tendo de referir-se a Camillo Castello Branco, apresentou a seguinte definição--«é o mais litterato de todos»--completo: é no terreno do estudo severo a erudição benedictina apoiada no bom-senso profundo; é o sacerdos magnus nos dominios da lingua portugueza; é o humorista Sterne combinado com o humorista Henri Heine, e das amarguras d'este teem muito as suas amarguras. A nota plangente que faz estremecer e sossobrar os espiritos na desolação ou que os redime pelas lagrimas, fere-a o grande escriptor com a sinceridade do momento--que é toda a força da paixão. Em hora de zombaria serena assimila os processos novos e desmascara-lhes a impotencia e a inferioridade; logo, corrigindo a ironia, dá-nos em duas paginas que adiante serão transcriptas a scena mais artisticamente executada da galeria do romance portuguez.
Teremos ensejo de fallar d'elle como polemista. Vejamos no entanto a philosophia do seu riso.
«Não conto commigo para destramente me desempenhar da empreza litteraria em que se faz mister mais mocidade de coração que lettras bem ajuizadas.
«É materia,--se se pode com tal nome invilecer o que ha ahi mais subtil e espiritual--é materia, isto d'amores, para inspirar sérias considerações a homem dos meus annos.
«E se os amores vêm d'azas quebradas e involtas nas escomilhas do lucto, se em vez de grinaldas de rozas, cingem cypreste; se lhes alvejam a tiracolo caveiras em vez de aljavas, e lá dentro estiletes hervados em vez de flechas d'ouro--emfim amores negros, amores abominaveis,--maior dever me corre de ser sizudo, elegiaco e espantador de paixões.
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