De facto, no comboio do Minho das 6 horas da tarde do dia 3, chegava ao Porto o cadaver do Romancista, acompanhado por Freitas Fortuna, desde Famalicão, esperando-o na gare, «quando muito cem pessoas», informa o Correio da Manhã, e entre ellas Alves Mendes, Sebastião Leite de Vasconcellos e o editor Costa Santos. De resto, o ataúde seguiu para a Lapa, mal coberto por cinco coroas de flores artificiaes e sempre acompanhado por Freitas Fortuna, por Espinho, pelo creado Manuel, mais a cauda de dezoito carruagens arrastando a praga dos reporteres.
Alem de Alves Mendes, não comparecera mais um unico escriptor ou artista, informa ainda o mesmo jornal!
É que mettera medo o baque da sua queda, senão o gesso que de si restava e a que a alludida folha se refere da maneira seguinte:
A CAMARA ARDENTE--O MORTO.
«A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a um templo vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os unicos sons que interrompiam a funebre quietação do aposento.
No seu fato escuro--_pardessus_ usado, frak e calça preta da mesma fazenda, costume que vestia quando se suicidou--tons roxeados a cercar-lhe as narinas e os olhos, o seu perfil macerado, fortemente vincado de rugas, o farto bigode cahindo-lhe lasso, na bocca esse extranho rictus que parece dar ao cadaver um riso de mofa,--o supremo escarneo da morte á vida. Lá estava elle sereno como um adormecido, os pés salientes, a cabelleira negra e comprida, as mãos finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo clarão de duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dôr da viscondessa que aos pés do seu ultimo leito, abysmada na oração, velava sósinha.»[2]
Entretanto, Freitas Fortuna, longe de enjeitar o legado dos seus restos, logo fez valer junto da familia de Camillo as declarações em seu poder, e sobre as quaes tambem, immediatamente, todos os interessados concordaram, soccorrendo-as com dois novos documentos, ou tenha sido com o auto da sua doação, assignado por D. Anna Augusta Placido e Visconde de S. Miguel de Seide; e com a declaração do legatario, acceitando aquelle deposito no seu jazigo da Lapa, com o encargo de ahi o conservar perpetuamente.
Mas reproduzamos, na integra, e, por sua ordem, os preciosos documentos.
A primeira carta de Camillo sobre o assumpto:
«Exmo. Freitas Fortuna, meu querido amigo.
Revalido, por esta carta, o que lhe propuz com referencia ao meu cadaver e ao seu jazigo no cemiterio da Lapa.
Desejo ser ali sepultado e que nenhuma força ou consideração o demova de me conservar as cinzas perpetuamente na sua capella.
É natural que ninguem lhe dispute a posse dessas cinzas; receio, porem, que seja ainda uma fatalidade posthuma que se compraza em impor a violencia até aos meus restos.
Dê o meu amigo a estas linhas a validade de uma clausula testamentaria, e, sendo preciso, faça que ella valha em juizo.
Abraça-o com extremado affecto e inexprimivel gratidão o seu
CAMILLO CASTELLO BRANCO.
Porto, 6 de abril de 1888.
Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal O Seculo, em 4 de julho de 1914, onde nós a publicamos para evitar que fosse por diante a trasladação dos restos do Escriptor para Belem, que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre professor sr. Carvalho Mourão, devotadissimo admirador de Camillo--tencionava, ainda contra a má vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem, vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se deu a objectar innocentes escusas, á conta duma tal jornada.
Muito antes, e incidentemente, nos veio á mão aquelle documento, quando também nós--(que, ao tempo não tinhamos sequer presente a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna, sobre o assumpto, aliás desde muito publicada--)[3] nos propunhamos insistir e collaborar com todos aquelles que, seriamente, e bem de alma, se dessem a promover ou dispor a trasladação, que já então, valha a verdade, consideravamos menos como homenagem necessaria á sua memoria, do que como solução de direito, que não de obsequio, ao repouso definitivo das suas cinzas.
Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanças, de par das dos maiores admiradores de Camillo--Silva Pinto, Senna Freitas e Ricardo Jorge, no melhor numero--quando, a proposito da deliberação da Camara do Porto e «Renascença Portuguesa» que, por si, e independentemente da discussão tragico-burlesca dos parlamentos, se propunham levar a cabo uma tal idéa,--nós fomos solicitado a ouvir dos representantes de Camillo a sua opinião a tal respeito, isto é, a consulta-los sobre se auctorizariam ou não o levantamento dos restos do Escriptor do seu jazigo na Lapa.
É claro, que interferi no caso particularmente, e só por acquiescer ás solicitações dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo, do corpo dirigente da «Renascença Portuguesa», sociedade literaria com séde na mesma cidade[4], e que para aquelle effeito se me dirigiu, bem por certo por mera razão da minha idoneidade como incondicional admirador do Romancista, mais pelo conhecimento que porventura tivera das minhas opiniões a tal respeito, desde muito, expressas.
Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno Placido Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do Visconde de S. Miguel de Seide, com a ordem de a publicar opportunamente, e como instrucção do juizo que porventura seguissemos, no caso da consulta que, por sua vez, elle devolvia para que sobre ella as Corporações interessadas resolvessem.
É claro que, á face de tão obrigante documento, a sua opinião parece ter sido uma:--nunca mais aquellas corporações pensaram na trasladação. E dahi tambem o silencio, feito á volta do caso, até ao momento em que alguns deputados, aliás no melhor empenho,--o mesmo que a Camara do Porto e a «Renascença Portugueza» tinham tido--deliberaram voltar ao assumpto.
Foi então, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever publicar aquella carta, como elucidação aos promotores da inopportuna homenagem, e tão cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles desistiram do seu intento, transferindo as importancias destinadas á sua despeza para o levantamento de um monumento, infelizmente já bem tardio, a Camillo.
Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por não dizer impertinente, a trasladação, parece ter crescido o numero dos devotos de tal idéa--vamos nós, hoje, que estamos de posse de todos os documentos, ver o que, á face delles, aquella vale.
Mas antes, e por melhor firmar opinião, sigamos no traslado dos documentos que ao assumpto se referem. Tornar-se-á mais facil de ver depois, e a melhor luz, até onde vae a teimosia dos sectarios duma idéa hoje indelicada, (e que maior crime pode cometter-se para com os mortos do que o da indelicadeza?--) que não sectarios da melindrosa memoria do Escriptor.
Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna:
«Meu presado Freitas Fortuna.
Começo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu cadáver.
Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fiz da minha saude, que já agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale é retribuição devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns annos aviventada pela engrenagem de putrefacção.
Deste affecto extraordinario, mas não excepcional, resultou dizer-lhe eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que aspirava fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa.
E bem certo que, para além da campa, ha o que quer que seja que ainda nos prende ás coisas mortaes. Sei que no seu jazigo dormem o somno infinito seus extremosos progenitores.
Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do trabalho e na pujança da alegria e da felicidade.
Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se mortas duas imagens sagradas que renascem na alma dum filho ao fogo da sua saudade, com o seu respeito filial, com as suas lagrimas represadas, e que os annos ainda não poderam crystallizar em glacial indifferença.
Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas irão aos braços já cinzas tambem de seus paes estremecidos.
Se a morte tivesse expressão que não fosse aquelle mudo terror de um gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do silencio nos labios gelidos, só ella poderia dar-nos a sombra horrida e que o seu esquife baixar á perpetua união com os cinerarios de seus paes. E eu, a essa hora, estarei á beira delles como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na face quando o coração lhas dava repassadas duma santa saudade.
Não sei se esta chimera, que vagueia na região tenebrosa e na crypta dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me domina ha anno e meio de ser enterrado no seu jazigo.
O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua familia extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima da sua dedicação incomparavel. Bem haja, e adeus.
Bemfica, 15 de julho de 1889.»
Camillo Castello Branco.[5]
Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo sido impressa no Jornal da Manhã, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido na vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausoléo-Fortuna.