Storieta
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Em S. Miguel De Seide

Eram onze horas da manhã. Acabava, na egreja de Santo Thyrso, a missa do dia. Para o largo do mosteiro vinham sahindo os ranchos dos homens e das mulheres do campo; algumas senhoras, poucas. A manhã tinha estado fresca, segundo me disseram, mas eu perdi a manhã, pela simples razão de ter perdido a noite no arraial da Senhora das Dôres, na Trofa, aonde condescendentemente me deixei arrastar. Quando sahi de casa, seguido pelo criado que levava de redea a garrana, o sol descobria. A consciencia de não ter nascido fadado para cavallarias altas, obrigou-me a ir a pé até um sitio que julguei propicio para me lançar a cima do sellim sem grande concurso de publico.

O criado dizia-me que não conhecia besta melhor do que a garrana.

--Muito fiel! accrescentava elle, inspirando-me confiança, e descendo os estribos.

Para além da ponte, cavalguei.

Pareceu-me que effectivamente a garrana tinha apreciaveis prendas de caracter; entreguei-me á sua lealdade, e posso asseverar que não foi desmentida, durante todo o dia, por nenhum incidente desagradavel.

É a besta mais honrada com que tenho lidado. O criado tinha razão.

--A que horas estaremos em S. Miguel de Seide?--perguntei eu ao Bernardo do João de Deus, nome e alcunha do meu companheiro, para estabelecer dialogo, visto que a garrana não podia, por um erro da natureza, conversar comigo.

--D'aqui a uma hora, n'este passo, respondeu elle. De Landim lá, é um instante.

Landim! repeti eu mentalmente.

Estava, pois, nos vastos dominios romanticos de Camillo, no proscenio florido das suas Novellas do Minho, uma das quaes se intitula O cego de Landim. Á minha direita ficava Monte Cordova, de cuja bruxa o eminente romancista escrevera a commovente historia.

O sol descobrira de todo; os seus raios, como flechas de oiro, cahiam sobre os campos, doirando-os. O calor principiava a ser intenso.

O criado ralhou comigo amoravelmente.

Que se eu me tivesse levantado mais cedo, ponderava elle, não apanharia tamanha calma. E depois podia ser que eu não estivesse habituado. Finalmente, accrescentára que o sr. visconde, prevenido da minha visita, de certo me teria esperado para o almoço.

Que me importava a mim a calma, por maior que fosse? Eu ia vêr, abraçar aquelle que sempre fora para mim o mais dedicado dos mestres, e o melhor dos amigos. O acaso que durante alguns annos nos juntara, separara-nos um dia: elle ficara quasi sempre no Minho; eu vivia em Lisboa. Havia já dez annos que nos não avistaramos. Por isso, ainda que se tornasse preciso um grande sacrificio, de boa vontade eu o teria feito para comprar a felicidade de estar alguns momentos em S. Miguel de Seide.

O caminho não me sahira tão cruel como eu esperava. A breve trecho havia arvores que déssem sombra. Em torno de mim, para qualquer lado que lançasse os olhos, a vegetação era opulenta, feracissima. Os meus pulmões fortificavam-se com delicia n'um bom banho de oxygenio. E, por antithese, lembravam-me os saguões e as escadas dos predios da baixa, em Lisboa, onde se respira um ar mephitico, que asphyxia. De longe a longe, uma casa e um parreiral; os cachos pendentes da latada davam na vista ao criado, que observava:

--Vão amadurecendo bem, graças a Deus!

E tirava o chapeu, respeitosamente, em homenagem ao Creador dos homens e dos cachos.

Um ou outro cão vinha ladrar-nos ao muro do quintal.

Bernardo, todo embevecido na contemplação da novidade, dizia-me que reparasse nas ramadas, onde as travessas de madeira teem sido substituidas por fios de arame. Uma innovação recentemente introduzida no Minho.

--Isto--o arame--observava o Bernardo, dura a vida de um homem.

O calor ia apertando, mordendo. Eu, de quando em quando, aproveitava a sombra de uma arvore para accender um cigarro. A garrana, com uma grande deferencia pelas minhas commodidades e pelos meus vicios, esperava pachorrentamente que eu embrulhasse o cigarro e o accendesse. Eu, em compensação, para ser grato, sacudia-lhe as moscas com a ponta da vergasta. E não se pense que me custava pouco esta retribuição amavel da minha parte: as moscas, enxotadas da garrana, vinham para mim. Uma mordeu-me no pescoço com a mesma gana com que o teria feito á cavalgadura, em igual sitio.

Confundiu-nos! o diabo da mosca!

O Bernardo pedira licença para despir a jaqueta. Já não podia aguental-a com o calor. Ás vezes tirava o chapeu, e limpava-se. A sua cara escorria ressumbrações de suor. Não obstante, o Bernardo acompanhava a garrana com o seu passo largo e firme, de caminheiro intrépido e experimentado. Eu disse-lhe que sentia haver-lhe dado incommodo em dois dias consecutivos, porque na vespera fôra elle de Santo Thyrso a Seide, por ordem minha, com uma carta para o visconde de Correia Botelho, a fim de me certificar de que o encontraria no dia seguinte.

--Isto não é nada, respondeu o Bernardo. Pelo S. Thiago fui ao Porto e vim, no mesmo dia.

E com o corpo lançado para diante, meneiando os braços n'uma oscillação de pendulo, continuava a acompanhar intrepidamente a garrana, não suando menos do que ella.

Elle ia-me nomeando os sitios por que passavamos:

--Isto aqui é a Fonte da Gallega.

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