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Tenebrae Erant

Portugal ora olhado com desdem o sobrecenho pelas mais nações da Europa, como tendo, desde o ápice de sua grandeza e poderio, baixado rapidamente aos termos derradeiros da sua degradação. Quando lord Tyrawley foi mandado pelo gabinete inglez a Portugal, pouco antes da guerra de 1762, a descripção, que fizera d'este reino, desenhava-o incapaz de nenhuma resistencia, e pouco distante da barbarie.

LATINO COELHO.

Nous sommes au seuil d'un monde nouveau.

L. JACOLLIOT.

Dans l'histoire humaine, parfois c'est un homme qui est le chercheur, parfois c'est une nation. Quand c'est une nation, le travail, au lieu de durer des heures, dure des siècles, et il attaque l'obstacle éternel par le coup de pioche continu. Cette sape des profondeurs, c'est le fait vital et permanent de l'humanité. Les chercheurs, hommes et peuples, y descendent, y plongent, s'y enfoncent, parfois y disparaissent. Une lueur les attire. Il y a un engloutissement redoutable au fond duquel on aperçoit cette nudité divine, la Vérité.

VICTOR HUGO.

Foi em Alcacer-Quivir que rolou a corôa de Portugal pelos areaes d'Africa. Deus sabe o que havia de grandioso, que sonhos esplendidos de futuro iam na mente de Sebastião--_o Desejado!_

Os formosos palmares da India, a opulencia fascinante da Asia, as sumptuosas magnificencias do berço da humanidade, as lendas fabulosas do Preste João, os riquissimos e legendarios templos de Brahma, e dos deuses mysteriosos da cosmogonia secular d'aquella raça, e todos os sonhos e sedenta avidez d'uma nação pobre, habituada a lutas heroicas, e obscuras com os musulmanos d'Africa--fascinaram, e enlouqueceram, por tal fórma, os guerreiros e fronteiros de Ceuta, Tanger, e Arzila, que, aos primeiros descobrimentos dos navegadores do seculo XV, os portuguezes invadiram o Oriente, abandonando aquella escóla de valor e de heroismo, onde expirou o infante santo, e onde a cruz do Redemptor era o incentivo e estimulo das mais nobres façanhas, e dos feitos mais esforçados.

Quiz D. Sebastião, com a mystica lenda do Golgotha, salvar Portugal do ignobil desdouro, do scepticismo miseravel, da louca ambição de riquezas, e da cobardia e enervação, que ia corroendo e gangrenando os nobres na sordida mercancia das especiarias da Asia?

Sabe-o Deus.

Sabel-o-hia a historia--se os aios, e confessores de principes e de reis, em vez de serem bonzos, fakires e derviches d'um credo intolerante e sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das idéas, e das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do desenvolvimento da humanidade.

Havia, de certo, um profundo pensamento politico detraz d'este fervor religioso, que arrastava a christandade para lutas e pelejas com agarenos.

Uma geração enervada e corrupta, uma nobreza effeminada e devassa deixou abater o pendão das quinas, em terras de berberes, quando as intrigas, a sordida cobiça, e traições de Castella almejavam por esta derrota d'um principe christão.

Os Philippes de Hespanha iam projectar a sua sombra sinistra n'este estacionamento inexplicavel das gerações europêas.

A historia um dia dirá--a historia escripta pelo povo--se foi sómente o fanatismo religioso que arrastou o moço rei aos campos de Alcácer-Quivir, ou se o herdeiro do sceptro de D. João I quiz arrancar ás devassidões e torpezas da India uma nação, que cobrára em Africa pundonorosos alentos, esforços guerreiros, e energicos brios com que escrevêra a mais esplendida e brilhante pagina dos feitos memoraveis nos seculos XV e XVI.

Não foi a purpura real que rasgaram os leões africanos, não foi o throno do Occidente que cahiu despedaçado e partido nas vastas planuras da Lybia. O sôpro ardente das tempestades do deserto varreu mais do que um throno, abrazou mais do que uma purpura; abateu, humilhou, e arrancou a seiva a um povo cheio de pundonor, e coroado de gloria, arremessando-o de abatimento em abatimento, de humilhação em humilhação, de desventura em desventura até á invasão franceza, até á fuga do rei portuguez, até á mais ignobil vassallagem prestada á soberba Albion, pela nação mais cavalleirosa, emprehendedora e aguerrida dos extremos da Europa.

Dizia a Polonia, quando se debatia nas vascas da mais dolorosa agonia--a agonia d'um povo que vai morrer: «Deus está muito alto, e a França muito longe!»

E nós?--Tratados como os rajahs do Indostão, como os nababos, e como os parias, tambem, da India ingleza, dobravamo'-nos, submissos e obedientes, como colonia britannica, á fé punica, á avidez implacavel e inexoravel politica da nossa fiel alliada.

A Veneza dos inquisidores e dos doges immergira-se nas lagoas do Adriatico, quando nós invadimos o mar Vermelho, para deixar erguer este colosso da Grã-Bretanha, a quem Cesar appellidára barbara nos seus formosos Commentarios. O leão de S. Marcos escondeu as garras, ao tremularem as nossas quinas no berço da nossa raça, na vastidão do esplendido Oriente, para mais tarde os ferozes leopardos bretões serem a taboleta do commercio da Asia.

Na immensa grandeza do nosso heroismo, nós, cavalheirosos, desinteressados, e imprudentes avassallamos os reis de Calecut e Cochim, escreviamos Os Lusiadas, empenhavamos as barbas de D. João de Castro, deixavamos agonisar, cheio de affrontas, Affonso d'Albuquerque, na barra de Gôa, algemavamos Duarte Pacheco, enchiamos de odio o nobre coração de Fernando de Magalhães, e recusavamos, com desprezo e altivez, a nobilissima dedicação de Christovão Colombo, a quem Americo Vespucio, mais tarde, roubou o nome e parte da gloria.

De affronta em affronta, de vilipendio em vilipendio, de ingratidão em ingratidão degeneramos tanto, que, em 1817, viviamos como parias e ilotas da soberba Albion, sob o mando e dominio do marechal-general Beresford.

Trasbordava o calix das humilhações.

Portugal era um paiz conquistado. Pouco importava que fossem as aguias do imperio ou os leopardos britannicos que subjugassem este solo.

Haviamos tocado os extremos da ultima abjecção.

As industrias fabris jaziam completamente arruinadas, a agricultura estava reduzida á maior miseria, o fanatismo religioso campeava sobranceiro por sobre este ignorantissimo povo, as arcas das rendas publicas e particulares iam caminho do Brazil, o paiz achava-se recortado em bens vinculados, entregue aos morgados, aos possuidores de bens da corôa e ordens, e aos opulentos mosteiros de todas as religiões, que escravisavam o solo; o governo fomentava as intrigas politicas, enganava a corôa, escondida n'outro hemispherio; e o exercito, governado e dominado por officiaes inglezes ás ordens da Grã-Bretanha, curvava-se aqui ao mando e poderio do muito alto e poderoso lord Beresford.

As citações, que vou dar em seguida, serão mais judiciosas do que todos os meus commentarios.

Diz Gervinus, na sua Historia do seculo dezenove: «Esta ruina da economia politica de Portugal caminhava parallela com a sua decadencia moral e intellectual.»

Era assim.

O governo para sustentar uma dignidade ephemera, um simulacro de authoridade, que não tinha, carecia d'um exemplo efficaz e energico, embora o sangue das victimas espadanasse a jorros encharcando o solo da patria.

Inventou a conspiração de 1817.

Presentiu o desgosto profundo que ia no povo, apoiou-se nos maus instinctos, e na perfida politica do regulo da Grã-Bretanha, revolveu, com a sua abjecta espionagem, as ultimas camadas da plebe, escutou e deu vida a todas as invejas, a todos os odios, e a todas as ruins paixões, que fermentam sempre no coração de todos os intrigantes, e de todos estes reptis immundos e repugnantes, que se criam e desenvolvem n'este torrão luxuriante e vivificador. Aqui, como nos juncaes e densas selvas dos tropicos, existem, com face humana, o tigre real de Bengala, a vibora dos pantanos do Indostão, a hyena das margens do Ganges, a mosca venenosa dos tremedaes e terrenos paludosos da Zambezia, e os cascaveis hediondos das florestas da America, ao lado das virgens mais puras das creações do budhismo. Estas regiões, que vivem em maior contacto com o nosso astro supremo, mais aquecidas pelo sol, não admittem, nem consentem transições. Cortam bruscamente os crepusculos--não teem longos esvaimentos de luz--não desenham penumbras. Quando o sol se immerge no oceano adensam-se rapidamente as trevas.

Onde não ha a nobreza do sentimento, o estimulo das mais nobres aspirações, e o exemplo tocante da mais completa abnegação--é porque as sombras do cynismo se espalharam sobre a intelligencia do homem, é porque a ignorancia e os maus instinctos sepultaram, e apagaram a luz viva, o facho ardente, a idéa primordial, que vinha irrompendo na alma humana; e a consciencia do individuo, o senso moral confundem-se nas trevas, que escondem para todo o sempre estes arreboes divinos do ente creado.

Assim foi, e assim será sempre.

O tenente-general Gomes Freire de Andrade era a synthese d'estes soffrimentos, que minavam todos os membros corroidos da nação. Era o alvo de todas as invejas. Era a voz da patria, n'este estertor em que se debatia, e agonisava um povo inteiro. Por isso foi o martyr. Parecia, talvez, que, ao torturarem aquella alma nobilissima e generosa, Portugal ficaria sujeito e submisso como o ultimo ilota dos banquetes de Sparta.

Diz o author da Memoria sobre a conspiração de 1817 (livro que não foi estranho ás solicitudes de Beresford): «O tenente-general, Gomes Freire de Andrade, ha sido preso pelo desembargador ajudante do intendente, João Gaudencio, acompanhado de um forte destacamento da guarda da policia, commandado pelo tenente-coronel da mesma, Joaquim José Maria de Sousa Tavares. Depois de cercarem a casa do tenente-general (que morava no alto da calçada do Salitre) arrombaram a porta da rua, e foram arrombando as de mais até chegarem ao gabinete onde elle se achava; assim que foi arrombada esta, os soldados entraram no quarto, apontando as armas contra o general, o qual não fez a menor resistencia, nem se mostrou assustado, e por detraz dos soldados gritou o dito tenente-coronel:--«V. exc.ª está preso»--ao que Gomes Freire respondeu: «Assim se entra com tanta insolencia e desafôro em casa de um tenente-general?--e vossemecê não me póde prender, porque não tem a minha patente.» Então appareceu o desembargador, e mostrando-lhe a ordem, o general se deu á prisão sem nada dizer ao desembargador; mas voltando-se para o tenente-coronel, chamou-lhe um fraco, e insolente, ajuntando, que o seu comportamento não era nem de um official, nem de um cavalheiro, mas sim, de um esbirro, aguazil ou vil agarrador.»

O tenente-general foi conduzido logo para a torre de S. Julião, acompanhado pela mesma escolta de cavallaria da policia, que o fôra prender. As outras victimas d'esta perseguição foram conduzidas uma parte para o Limoeiro, e a outra para o Castello. Começou immediatamente o processo, diz o author da Memoria, «com aquellas tenebrosas formalidades do costume.»

«Parece, que os governadores do reino, acrescenta o mesmo apologista de Beresford, projectaram implicar, na conspiração, todos os maçons, para com este pretexto se desfazerem d'algumas pessoas a quem não eram affeiçoados.» Esta infernal lembrança era uma inspiração do secretario D. Miguel Pereira Forjaz.

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