Storieta
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I

Para mim a sepultura é santa; são santas as fundas agonias humanas, ainda quando associadas ao crime.

A. HERCULANO.

Si l'on demande comment, avec de pareils sentiments, j'ai pu remplir si longtemps les horribles fonctions qui m'étaient échues en partage, je n'ai que ceci à répondre: qu'on vacille bien jeter les yeux sur la condition dans laquelle j'etais né... C'est le testament de la peine de mort par le dernier bourreau.

Mémoires des Sanson par H. SANSON, ancien executeur des hautes oeuvres de la cour de Paris.

Felizmente a civilisação do seculo arrancou do nosso codigo esse negro artigo da pena de morte, e esta conquista da illustração, que a tenaz perseverança da philosophia alcançou gloriosa, depois d'uma porfiada lucta, já não póde retrogradar em Portugal, e parabens me dou a mim mesmo de não estar já ameaçado de commetter homicidios, e de sentir gotejar sobre a minha cabeça, n'estes meus já bem cançados dias, o sangue, que uma lei draconiana fazia espadanar no cadafalso.

Historia (inedita) _de Luiz Antonio Alves dos Santos_--O NEGRO, ultimo executor de justiça em Portugal.

A pena de morte será executada na forca pelo executor da justiça criminal, em lugar publico, com o acompanhamento da confraria da Misericordia, se a houver no lugar, e dos ministros da religião, que o condemnado professar: assistirá o escrivão dos autos para n'elles dar fé do cumprimento da sentença. Nas quarenta e oito horas marcadas no artigo antecedente, se ministrarão ao condemnado todos os soccorros da religião, e os mais que por elle forem requeridos.

(Art. 1203 da Reforma judicial novissima, decretada em 21 de maio de 1841).

O meu quarto, o meu antro, a minha jaula tinha quinze passos de comprido e seis de largura. Era tão limitado o recinto que nos achavamos face a face--o carrasco e eu.

A primeira impressão que senti, ainda mal, porque se traduziu em factos--arrependi-me depois--foi recuar e esconder as mãos nos bolsos.

Na lei, que ordenava o homicidio, é que eu não devia tocar. Era para com o juiz, que proferia a sentença, para com o jury, que condemnava, e para com o ministerio publico, que requeria, que eu devia guardar estas reservas e cuidados.

Para com o executor--não.

Este era o instrumento, era o cumplice, era a força physica, era a machina brutal, inconsciente, estupida e passiva. Era a forca, era a guilhotina, era o patibulo, era o cadafalso, era o pelourinho, era a gargalheira, era o potro, era o equuleo, era a cruz do supplicio--era finalmente o verdugo, o algoz e o saião. Era o carrasco.

Para com elle, o meu instincto de repulsão era um absurdo.

Toca-se nas rodas dentadas d'uma machina qualquer--quando postas em movimento, se o operario n'um momento de irreflexão e de imprudencia se aproxima d'ellas--despedaçam-no, esmagam-no. A roda é um agente: obedece impassivel ao impulso da diretriz, do motor.

E, aliás, ninguem despreza a roda, ninguem a reputa aviltante, ninguem a insulta.

Que mais vale o carrasco, para que o legislador lhe legasse o desprezo e a consciencia da sua infamia?

O movimento de repulsão, que actuou em mim, não fôra tão rapido que o não observasse Luiz Negro.

Observou.

Vi rebentar uma lagrima nas palpebras avermelhadas do velho. Rolou-lhe, depois, deslisando na concavidade das rugas, que lhe sulcavam as faces, e foi em espiral, mansamente, gota a gota, perder-se-lhe na espessura das barbas.

Conheci a affronta e corrigi-a sem detença. Estendi-lhe a mão. Apertou-a o carrasco com uma alegria convulsiva. Havia não sei que traços de gratidão desenhados n'aquella physionomia franca e aberta. Parece-me têl-os ainda impressos na memoria, para remorso eterno da minha consciencia.

«Posso apertar-lhe a mão com desafogo», exclamou elle, com uma voz surda e rouca. Senti-a primeiro no coração antes de me entrar nos ouvidos. «Felizmente, nos abysmos da minha profunda desgraça, resta-me uma consolação...» Hesitou. Depois proseguiu: «consolação unica, que me alumia a existencia, e mitiga os pezares que me vão n'alma: as minhas mãos estão puras, tenho-as immaculadas da forca, não arroxearam jámais, com a soga, a garganta dos padecentes--não derramaram nunca o sangue das victimas que a lei sem respeito pela vida humana, e a que por escarneo chama justiça, obriga outro nomem a derramar.

«Venho, aqui, para o conhecer. Não tenho por costume procurar presos. Nem os busco, nem lhes fallo. Mas sei que é adversario da pena de morte; quiz vêl-o face a fece. Era justo que o carrasco e o homem de lei conversassem em intima convivencia. Estamos em presença um do outro: escutar-nos-hemos reciprocamente.»

E ao passo que Luiz Negro se exprimia assim, perguntava eu a mim mesmo--quantas mãos mais polluidas, menos nobres, menos dignas e menos puras teria eu apertado na minha vida.

Assim como Talleyrand, se Talleyrand era--não me falhando a memoria--asseverava, que a palavra fôra dada ao homem para mentir, tenho para mim que os respeitaveis e acreditados luveiros da nobre cidade de Lisboa foram nascidos e educados, para nos evitarem o contacto de mãos, que nos podem contagiar com estes virus paludosos, que por ahi vão medrando á sombra de magnificas protecções.

Quando o carrasco proferia as ultimas palavras, que acabo de narrar, chegava o meu almoço, trazido por um criado, e acompanhado por outro, que tem sido para mim como o Caleb de Ravenswood, descripto por Walter Scott. Em seguida appareceram amigos meus, trazidos ao Limoeiro pelo desejo de me acompanharem nas horas, em que, sendo-lhes permittida a entrada, eu me achava mais só.

Sentaram-se em torno da mesa. Luiz Negro almoçava comnosco. Fallavamos de tudo. Ignoravam todos o mister do meu novo hospede. Viam um homem avançado em annos, envolto n'um casaco escuro que tinha fórmas de tunica, silencioso, calado e triste, comendo sem nos interromper a nós que esqueciamos as grades, os ferrolhos e os guardas--e arrastados pela nossa imaginação peninsular nem sequer pensavamos no governo.

Fui sempre um conspirador assim--em que pese esta modesta confissão minha ao illustre e meritissimo juiz do processo.

Não direi os nomes dos meus amigos, n'este jovial almoço, com receio de os denunciar ás iras, e aos instinctos odientos dos consules actuaes. Receio que lhes abram assento no santo officio regenerador.

A conversação ia cortada em dialogos cheios de vida, recamados de originalidade e opulentos na elegancia do dizer e na facilidade da phrase. Poderia parecer uma academia litteraria, se não fosse uma enxovia.

Vivia eu, então, n'um carcere que me dizem ter sido morada de Diogo Alves nas vesperas do seu supplicio.

As paredes, se não conservavam tradições de taes luctas legaes, guardavam, pelo menos, os vermes, que formam o apanagio e arrhas d'estes lugubres esponsaes com as nossas cadeias.

Ao terminarmos a nossa refeição, quando o fumo dos cigarros e charutos começava a ennovelar-se em densas espiraes, velando-nos as faces, disse para os meus amigos e alegres convivas, que me penitenciava alli d'um erro grave, erro de lesa polidez, porque os tivera, por tão largo espaço e em tão intima convivencia, com pessoa para elles desconhecida, sem os apresentar, conforme ordenam e exigem as demoradas pragmaticas e minuciosas etiquetas britannicas.

Ninguem o conhecia. Só eu.

Houve um silencio profundo. Parecia que um d'estes tremendos cataclysmos, de que só a natureza tem o segredo, se desencadeára em torno de nós.

As minhas palavras reboaram como o choque d'uma pilha voltaica--faltavam-lhes, apenas, as chispas eletricas.

A sensação foi grande. Não era temor, não era medo, não era susto, que contagiára d'esta sorte todos os meus amigos. Era repulsão. Sentiam-se todos inficionados d'este contacto. Parecia que haviam respirado os gazes deleterios, os fluidos mephyticos d'algum charco paludoso.

E todavia diante de nós estava um homem, feito á imagem de Deus, segundo rezam as piedosas lendas biblicas. Estava um irmão nosso, um filho da mesma raça, nascido na mesma patria, educado na mesma religião de amor e de perdão, e fóra a lei e os seus levitas, que o haviam convidado, constrangido ou subornado, a exercer as cruentas e sinistras funcções d'aquella magistratura de sangue.

Venerar e respeitar os authores das monstruosas carnificinas, que se appellidam em phrase composta e decorosa «pena de morte» desprezando, ao mesmo tempo, o mandante e forçado executor de uma penalidade absurda e irreparavel, pareceu-me sempre um contrasenso abjecto, um preconceito irrisorio, uma aberração torpe e villã. O pudor deslocado não é virtude: ou é hypocrisia ou imbecilidade.

Achei sempre muito mais racional a doutrina de De Maistre. Divinisava quasi o carrasco, elevava-lhe o mister á altura de sacerdocio. Bem haja elle. Pelo menos era logico, consequente e audaz. As situações definidas teem a severidade do raciocinio, a coragem dos dogmas que enunciam, o supremo valor e a immensa lealdade de aceitarem francamente as consequencias fataes e necessarias dos seus actos.

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