Storieta
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Profissão de fé

Não vão pensar que a minha musa seja Alguma apparição allucinante De olhar azul e labios de cereja, Diadema d'oiro e espada flammejante.

A musa protectora d'estes versos Detesta a rima altiva dos pamphletos, Educa-me em principios bem diversos: --Lê-me Petrarcha, o mestre dos sonetos.

Não me ensina a cantar imprecações Contra as torpes gangrenas mundanaes, Inspira-me sómente estas canções Que vos fallam d'amor--e nada mais.

Apostolo do Bello e da Bondade, Ella anda a propagar por toda a parte, Ás almas auroreaes da mocidade, A nova religião chamada--Arte.

Consagra um culto fervoroso e santo Aos sentimentos bons, ás coisas mansas. Respeita a Dor nas lagrimas do pranto, Adora a Paz nos risos das creanças.

Por alta noite, quando a evoco e chamo, Segreda-me ao ouvido brandamente, Qual brisa leve a prepassar n'um ramo: Traduz em verso o que a tua alma sente.

Canta os sorrisos, canta as amarguras Dos teus vinte e dois annos incompletos. Faz d'elles um collar d'estrophes puras, Faz d'elles um rosario de sonetos.

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Já vêem, pois, que a minha musa é calma: E agora, se quizerem lêr sem pressa, Verão que em cada estrophe vae impressa Uma affecção diversa da minh'alma.

A minha mãe

As illusões semelham-se a um collar De perolas alvissimas, de espuma. Se o fio que as segura se quebrar, Cahem no chão, dispersas, uma a uma.

Cahem no chão, dispersas, uma a uma, Se o fio que as segura se quebrar; Mas entre tantas sempre fica alguma, Sempre alguma suspensa ha de ficar.

D'as minhas illusões, dos meus affectos, Longo collar de amores predilectos, Muitos rolaram já no pó tambem.

Um só d'entre elles não cahirá jámais: Aquelle que eu mais préso entre os demais. --O teu amor sanctissimo de mãe.

I

Os labios são dois imans de desejos. A bocca, então, é calix de venenos Com infusão de beijos. Eu, se o mortal licor provasse ao menos Alguma vez sómente, Envolto já nas sombras da agonia Ainda um beijo mais lhe pediria --Para morrer contente...

Ii

A voz tem a dolente melopeia Que Dom Juan tirava á guitarrilha, Á luz da lua cheia Nas ruas de Sevilha; Tem os enervamentos do Falerno E a attracção da musica d'Orpheu; Se a ouvisse, o inferno --Tornava-se n'um ceu.

Iii

Os olhos não são olhos, são punhaes. E tanto mais me fita, quanto mais Os crava no meu peito; Comtudo heide dizer-lhe:--«Oh minha amada Desfia-o, fibra a fibra, á punhalada Que morro satisfeito!»...

O matrimonio

De banza a tiracollo e capa á trovador, Eu nunca fui cantar endeixas amorosas, Lyrismos de Romeu junto aos balcões em flor, Por sob o luar dormente e as nuvens vaporosas.

Tão pouco tenho a linha airosa, aristocrata, Da fina flor do tom, os dandys adamados Que andam pelos salões, monoculando, á cata D'um dote que lhes salve a pança de cuidados.

Tenho, como qualquer, a aspiração ideal D'uma noiva gentil, d'um ninho conjugal; Mas tudo se desfaz se penso um só momento

N'este quadro banal, depois do casamento: O sogro, a sogra, a esposa, um filho já taludo E eu, muito aborrecido... a olhar p'ra aquillo tudo.

Dolorosa

Deitada sobre o esquife funerario E vista á chamma trémula dos cirios, Tinha a alvura das hostias do sacrario E a pallidez suavissima dos lirios.

No seu rosto gentil e sorridente Havia a languidez da pomba mansa. Parecia dormir serenamente, Immersa em vagos sonhos de creança.

Annos passaram desde que morreu; Comtudo vibra intensa no meu ser, A sensação do beijo que me deu Poucos momentos antes de morrer.

E julgo vel-a ainda á luz dos cirios, Deitada sobre o esquife funerario, Mais pallida que as petalas dos lirios, Mais branca do que as hostias do sacrario.

Sonho de nupcias

Eu punha no teu labio a nota quente A musica vibrante dos desejos, Poisava-te no collo branco, ardente, O poema rendilhado dos meus beijos.

Ao intimo contacto d'esses beijos, Erguia-se em volutas de serpente A curva delicada, alvinitente, Das tuas fórmas, tremulas de pejos.

Senti então, allucinado e mudo, O élo dos teus braços de velludo Cingir-me contra a carne feiticeira.

E sobre o veu de gaze delicado, Murchavam na capella do noivado Os albentes botões da laranjeira...

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