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O Marquez De Pombal

Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo com um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José, do providencial expurgador da impiedade; a envergadura do livre-pensador, do philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os contemporaneos.

Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul--um visinho da sobre-loja, portanto,--chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão Antonio Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito poderoso» e outras baboseiras. Os que viviam junto d'elle elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora corressem parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o ministro de Luiz XV.

Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são uma revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que não teve nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens que imitou sempre.

Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches.

Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de administração mas não lhe imitou o dandysmo, a resignação espirituosa com que este impio de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos braços de uma amante.[1]

Quando queria ser dandy o marquez de Pombal nem sequer o era como um doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto dandysmo, que historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é a maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um velho de entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao pescoço. Elle tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o plural.[2]

As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez do marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem immortal, um homem deslocado no seu meio e no seu seculo. Elle estava até muito bem posto, o marquez--no meio e no seculo!

O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia da lingua ingleza e a ausencia completa,--de resto propria do seu esquerdismo de desastrado--do puritanismo britannico, o grande puritanismo que antecedeu os dandies George IV, Brummell e lord Pellehan. O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno do ridiculo da época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um Saint-Just, um Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este ultimo o era de corpo, o ministro applaudido e consagrado pela historia tinha uma tão ingenua maldade que a sua attitude dominante consistia em carregar o sobr'olho para fingir a polvora da colera que lhe explosia na pedreira do coração.

Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que lhe dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais estupidamente bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de Pombal como estadista tem o mesmo merito que na litteratura teria o escriptor que herdasse os manuscriptos de um fallecido, e, publicando-os em seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo.

N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de Sebastião e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos da bibliotheca publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de racional.

A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas. Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm feito, só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de conjecturas.

Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal; outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira, que tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não ha um documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada póde considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi ferido no braço: «gravemente» dizem alguns historiadores. É provável que haja engano.

N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da cirurgia; no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um braço, o cirurgião remediava o perigo da gangrena, cortando-o.

Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez d'Angeja onde lhe foram dados os primeiros curativos.

Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida em quasi todas as Historias de Portugal. Na do snr. Pinheiro Chagas vem elle narrado com muita exactidão.

Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os Tavoras, o duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia Tavora é hoje tida como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos, confessou que elles eram culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal com a confissão havia de ter um jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras, fidalgos honestos, vaidosos dos seus pergaminhos que o tratavam desprezivelmente por Sebastião José. O tribunal aceitou a confissão do duque; mas quando se retractou, não lh'o consentiram. Os desgraçados postos a tratos, segundo confessa Michelet e como logicamente se comprehende, muitas vezes confessavam crimes de que estavam innocentes, só para se livrarem d'aquelle supplicio medonho.

Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a sua, dos seus, e do seu amo.

Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de Inconfidencia, todo composto de malandros e de estupidos da casta d'elle? Sebastião José jurou perder os Tavoras, porque julgou, talvez com razão, que a tentativa da conspiração visava mais a elle do que ao rei.

Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro. Corriam boatos de que elles eram cumplices--e elles ouviam perfeitamente esses boatos. Porque não fugiam?

Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações?

Estavam innocentes.

Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade com que aguardavam a colera do rei e do ministro que, no tenebroso espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem.

A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta:

--Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle hesitaria em condemnar-vos innocentes?

Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo.

Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida soberba e uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal.

Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:--um malandro porquissimo e um gordurento repugnante.

Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro tinha a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido seduzidas pelo rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso deboche».

Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o desminta.

Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido era o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José I. Não havia porém uma prova cabal contra elles.

Isto não impediu que o tribunal os condemnasse.

Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos infelizes, considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer soffrer na alma e no corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os, torturando-os, insistindo d'uma maneira infame sobre o destino dos seus restos mortaes.

Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos a fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa, escripto por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas minuciosidades bestiaes foram o additamento que o marquez fez á sentença condemnatoria.

A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite sinistra, á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As pancadas dos martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos todos n'uma casa do palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora, tinha sido conduzida, do convento das Grillas para Belem.

Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos.

Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse contemplar o horroroso supplicio.

Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos Bichos e sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime, o corregedor e a tropa.

Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada por dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no começo da escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo. Recebeu-a o algoz, e, quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia servir ao seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os seus dois filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas, os braços; contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a morte do pai da dos filhos.

A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem a morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço, vendáram-n'a; e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça.

Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto.

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