Era uma velha esguia e desgrenhada com sorrisos bastante insinuantes. Vestia á grega; cara descarada; os olhos encovados mas brilhantes.
Sem tempo me dar a pôr-me álerta, com gesto de fina regateira, mão posta na ilharga e perna aberta, um discurso faz, desta maneira:
--«Larapio e massador! tu és um impostor que queres imitar, de Daphnis e Chloë, a maneira de amar.
Meu tolo, meu pedante! eu vou-te, n'um instante, mostrar que vaes errado, e que tens por cabeça grandissimo telhado.»
Uma pausa fez, e de tom mudando, em pose academica, foi chiando:
--«O tempo do romantismo já vae bem longe: morreu, quando morreu o derradeiro monge. A sciencia moderna dá a orientação á arte, á litteratura, á civilisação. Segue a sociedade na maneira de ser que hoje manifesta; copia-lhe o viver, se queres que te leiam, queres que te admirem, se queres que te applaudam e por ti suspirem: --porque o suspirar, embora termo antigo, é um acto real que todos teem comsigo.--
Descantar amores é carunchoso, é velho: atira isso ao lixo, toma o meu conselho.
As flores não cantes... Canta sómente as brancas, a côr da pureza: com isso não espancas o realismo puro, embora as côres quentes tenham mais procura e sejam as mais decentes, --por serem mais sadias á face da sciencia-- não que as brancas sejam alguma indecencia.
Não cantes os lirios: isso é velharia; tens o roxo das chagas que está mais em dia.
Nunca falles nas puras aguas do arroio: isso é asneira; apenas rima com saloio e poucos termos mais. Falla na copahiba, que é liquido bom, muito usado lá p'ra riba pelas altas regiões do deboche doirado. Pódes fallar, tambem, no cel'bre preparado de Gibert, de Raquin, e na Salsa-parrilha...»
--«Quem és tu? minha cara de pandilha! serás abelha-mestra, ou boticaria? serás bruxa com loja de hervanaria, ou annuncio de drogas, por acaso?»
--«Eu sou a velha musa do Parnaso que, inspirada na sciencia dos effeitos, despida de rançosos preconceitos, abracei a moderna poesia, e conquisto mil adeptos por dia.»
--«Ó musa moderna, eu te saúdo! e por ti me declaro amurudo se ensinas a fazer al'xandrinos mais sonoros, bellos, mais divinos que os gorgeios do proprio rouxinol. Juro!... nem cantar o girasol, que preciso é aqui para rimar. Antes, porém, haveis d'explicar como, velhos preconceitos tu despindo, a vestimenta conservas, que no Pindo usavas em a era romanesca.»
--«Conservo-a por ser bastante fresca. A frescura é cousa indispensavel para crear um nome perduravel.»
--«N'esse caso vou cantar o nú como diz o dito--mesmo crú.»
--«Amigo: até isso vae sendo já safado... e comtudo explorar o que está explorado, por séria difficuldade, passa hoje em dia. Com arte fina e certas manhas, todavia, tudo se consegue.
Vem tu dahi commigo, verás como é certo e bem certo o que te digo.»
Ii
Eis-me transportado pelo espaço furando por pesada athmosphera, com risco de quebrar o espinhaço, pois nem umas azas de chimera a pulha da musa m'emprestou. Ella pela gola me agarrava e todo o caminho me levou suspendido, emquanto caminhava.
Por fim pousou-me n'uma rua estreita como um bêcco da decantada Alfama.
--«Amigo! tudo que vires, attento, espreita, se queres ser apregoado pela Fama. Estamos no meu Reino: aqui tudo respira quanto a teu estro falta e tão sedento aspira.»
E vi o solo lamacento, immundo, exhalando o cheiro acre e nauseabundo que sae das negras aguas d'um enxurro. Aqui, além, saltavam do monturo vadios e magros cães de torvo olhar, desconfiados que lhes vão disputar, andrajosos mendigos seus collegas, as presas immergidas nas bodegas.
Escorregando como um borrachão vi-me em risco de beijocar o chão; e se a musa amiga me não ampara certamente que partiria a cara.
Corridos varios bêccos tortuosos, que a bebeda co'os nomes mais pomposos, cantando, nomeava alegremente, á laia de cicerone intelligente: topei com um palacio illuminado, e com lacaio á porta enfardalhado.
--«Quem mora ali?»--perguntei assombrado.
--«É a orgia! a filha do argentario que gasta o ouro vil do usurario, que roubando o suor do proletario...»
--«Ai! Deus meu! historia da carochinha que é formosa e bonitinha...»
--«Não me falles á mão! aliás nunca alexandrinos tu farás!
Presta ao meu discurso toda a attenção se queres que te dê inspiração.
--É a orgia! a filha do argentario, que gasta o ouro vil do usurario, e que talvez deixasse na miseria o pobre proletario--vil materia!
É a orgia! a impura mulher do vicio! que tem ha tanto seculo o baixo officio de macular as timidas consciencias.
É a orgia! que, sem guardar conveniencias, prostitue as gordas carnes oleosas n'um sidereo leito, ideal, de nublosas.
É a orgia!... Com seu halito pestifero (que é mil vezes ainda mais mortifero do que o bacillus-virgula do Ganges) mata o coração das virtuosas Langes; e tem feito baquear testas coroadas quando o povo levanta barricadas.
É a orgia que fez cahir os Romanos, aqui ha uns centos d'annos.
É filha della a walsa tentadora que, veloz, sensual, animadora, queima innocencia e queima candura.
Alcovitas prazer de pouca dura e nos dás bellos sonhos côr da rosa: mas findas na botica--ó walsa caprichosa-- comprando copahiba, enxofre e capa rosa.»
--«Lá estás tu com pharmacia a contas e, de rimar, no officio não me apromptas.»
--«Attenta bem, tu, n'isto, meu bilhostre; attenta bem, se queres que te mostre os arcanos da sabencia--hodierna, que é velho e é soez dizer--moderna.
--Nas luxuosas salas ostentam roçagantes, rafadas toilettes, dignas de farçantes, os gotosos e senís peccados mortaes, emquanto, ao fogão, as virtudes theologaes fazem soalheiro da vida das visinhas.
E se não fossem umas bellas niñas --obras de misericordia positivas-- com toilettes de verão allusivas a appetitosas scenas sensuaes, das de comer e de gritar por mais: juro-te! ninguem iria ás soirées. Pelo menos, eu, não punha lá pés.»
--«Não comprehendo como, sendo tu mulher, em assumptos de--femea--mettes a colher.»