
Public-domain ebook
Triste Fim de Polycarpo Quaresma
by Lima Barreto
Language: pt480 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: Novels
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #67535.

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The opening · free to read
Como de habito, Polycarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma, bateu em casa ás 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte annos que isso acontecia. Sahindo do Arsenal de Guerra, onde era sub-secretario, bongava pelas confeitarias algumas fructas, comprava um queijo, ás vezes, e sempre o pão da padaria franceza.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de fórma que, ás 3 e 40, por ahi assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pizar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januario, bem exactamente ás 4 e 15, como se fosse a apparição de um astro, um eclypse, emfim um phenomeno mathematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os habitos e tanto que, na casa do Capitão Claudio, onde era costume jantar-se ahi pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona, gritava á criada: «Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou».
E era assim todos os dias, ha quasi trinta annos. Vivendo em casa propria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocraticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.
Não recebia ninguem, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortez com os vizinhos que o julgavam esquisito e misanthropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a unica desaffeição que merecera, fôra a do Dr. Segadas, um clinico afamado no lugar, que não podia admittir que Quaresma tivesse livros: «se não era formado, para que? Pedantismo»!
O sub-secretario não mostrava os livros a ninguem, mas acontecia que, quando se abriam as janellas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus habitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava commentarios no bairro. Além do compadre e da filha, as unicas pessoas que o visitavam até então, nos ultimos dias, era visto entrar em sua casa, tres vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pallido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitavel! que seria?
E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá p'ra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janella aberta do exquisito sub-secretario.
Não foi inutil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o pinho na posição de tocar, o major, attentamente, ouvia: «Olhe, major, assim». E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre adduzia: «é ré, aprendeu».
Mais não foi precizo pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério mettido nessas malandragens!
Uma tarde de sol--sol de Março, forte e implacavel--ahi pelas cercanias das quatro horas, as janellas de uma erma rua de S. Januario povoaram-se rapida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do General vieram moças á janella! Que era? Um batalhão? Um incendio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça, baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.
É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuario não lhe escondia inteiramente as formas. Á vista de tão escandaloso facto, a consideração e o respeito que o major Polycarpo Quresma merecia nos arredores de sua casa, diminuiram um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Elle, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição.
Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguem ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detraz das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se elle quizesse ir á alma da pessoa ou da cousa que fixava.
Comtudo, sempre os trazia baixo, como se guiasse pela ponta do cavaignac que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de panno listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita, segundo um figurino antigo de que elle sabia com precisão a epocha.
Quando entrou em casa, naquelle dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
--Janta já?
--Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje comnosco.
--Polycarpo, você precisa tomar juizo. Um homem de idade, com posição, respeitavel, como você é, andar mettido com esse seresteiro, um quasi capadocio--não é bonito!
O major descançou o chapéo de sól--um antigo chapéo de sól, com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madreperola--e respondeu:
--Mas você está muito enganada, mana. É preconceito suppor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuina expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ella pede. Nós é que temos abandonado o genero, mas elle já esteve em honra, em Lisboa, no seculo passado, com o padre Caldas, que teve um auditorio de fidalgas. Beckford, um inglez notavel, muito o elogia.
--Mas isso foi em outro tempo,--agora...
--Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionaes...
--Bem, Polycarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias.
O major entrou para um aposento proximo, emquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veiu para a bibliotheca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descançando.
Estava num aposento vasto, com janellas para uma rua lateral, e todo elle era forrado de estantes de ferro.
Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquella grande collecção de livros havia de espantar-se ao perceber o espirito que presidia a sua reunião.
Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama, o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá faltava nas estantes do Major.
De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares, Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook, Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.
Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes, encyclopedias, compendios, em varios idiomas.
Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.
Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade Neves--era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrellada do Cruzeiro.
Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a terra que o viu nascer. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.
Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra, de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria.
Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com este rival do seu rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.
Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o--Ubirajára. Certa vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que hoje o Ubirajára esta tardando».
Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o pince-nez, levantou o dedo indicador no ar e respondeu:
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