Storieta
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—Pois se ella é tão minha amiga, que não póde estar um só instantinho sem mim!... Meu rico anjo!... Se accorda e me não vê, logo chora que é grande matação. Lá o meu rapaz era muito mais bravo e até ruim. Dava-me cada dentada!... Havia noites, que eu não pregava olho por causa d'elle.

Assim correu o primeiro anno; mas quando se entrou no seguinte e pela volta dos quatorze mezes, começaram para a misera Antonia noites difficeis e tormentosas com o rompimento das presas. Tudo que até ahi fôra doçura de caracter, se transformou em rabugem insupportavel. Quantas dôres não soffreria a pobre creança para chorar continuadamente, de dia e de noite, que nem se comprehendia como tivesse folego para tanto!... A ama aguentava com heroicidade e lagrimas as mordeduras no peito, que chegavam a fazer-lhe sangue. Os medicos prohibiram o desmamme n'esta grave crise, que foi tão violenta e alarmante, como qualquer perigosa molestia. Esperava-se que isto passasse; decerto havia de passar e passou, depois de ter durado tres longos mezes, com a creança entre a vida e a morte. Não lhe faltaram com nenhuma coisa que podesse minorar aquelle soffrimento horrivel: além dos medicos que vinham ambos todos os dias, foram requeridos os mais afamados e milagrosos santos da visinhança; e consultadas as feiticeiras mais sérias, que predisseram com grande tino e sagacidade, sobre cueiros e camisinhas da innocente Margarida. Mas n'esse periodo atroz dos tres mezes tudo parecera infructifero: as convulsões eram aterradoras, a febre continuada, o emagrecimento implacavel! As honras da victoria, por fim, couberam a santa Margarida, padroeira da capella da casa, cujo valimento imploraram, adiantando-lhe uma illuminação de velas de cera em oito dias e oito noites contadas hora a hora. As primeiras reconhecidas melhoras declararam-se exactamente no fim d'este espaço de tempo, e por tal motivo houve depois missa cantada em acção de graças e sermão, em que o padre José Pitança disse coisas maravilhosas ácerca do incontestavel milagre.

—Mesmo uma cabrita!... Não é do meu leite... não! Isto... trocaram-m'a por outra. Se esta Nossa Senhora a levasse para a sua companhia...

Mas vinham-lhe logo idéas de arrependimento, por causa de taes arrenegos. Creara-a ao seu peito e lembrava-se com amor das consolações, que Margarida lhe dera no primeiro anno de amammentação, quando era meiga como um cachorro recem-nascido, formosa como um anho de lã branca. Não se lhe desvanecera ainda da pelle a sensação deliciosa d'aquelle contacto setinoso; no mamillo sentia ainda o sugar angelico que lhe inebriara de caricias todo o corpo e até, por vezes, a tinha adormecido com deleites (como dizem que produz a cobra manhosa, que magnetisa a teta ubere de que se sustenta ás furtadelas). Então Margarida era uma bolinha de carne, que dava gosto mostrar a toda a gente, e com quem appetecia dormir quando ella se mettia pelo corpo da ama dentro, feita n'um novello, os joelhinhos proximo do queixo, as mãosinhas agarradas na mamma com medo que lhe fugisse. Taes coisas nunca esquecem, deixam, na memoria de todo o corpo, impressão de suavidade e doçura tal, que impossivel é olvidal-as, mesmo quando surjam novos factos de natureza varia a contradizel-as. Foi por causa da primeira crise de dentição, que Margarida mammou muito para além do anno; e ainda para maior mal, Antonia continuara-lhe este vicio bem mais tempo do que se suppunha. Já o peito estava sêcco; a menina, que dormia com ella, não pegava no somno sem que tivesse a chucha na bocca e fazia-o com tanto geito e goso que a ama lhe dizia:

—Sua lambona! No dia em que se casar ainda ha de pedir d'isto... Caso é que parece correr-lhe...

E corria e ella deixava correr, pois que n'esse sugar improficuo e vicioso, a boa mulher, além de não querer contrariar Margarida, encontrava a lembrança de tantas meiguices passadas, que até lhe vinham lagrimas de contentamento. Se ao despegar a creança a bocca, por cahir em somno, ella reconhecia no bico do peito algumas gottas tiradas do seu sangue, vinham-lhe assomos de ternura, em que perdoava todas as rabinices do dia. Foram n'este viver defezo até aos cinco annos da pequenita, pois Antonia só assim encontrava meio de lhe dominar as crises de genio violento. Quando a via com o diabo no corpo, fechava-se com ella no quarto ás escuras e lá perpetravam o seu crime. Mal pensava a ama, que com tal proceder, concorria para tornar aquelles nervos (já de sua natureza vibrantes e sempre álerta para explodirem como centelhas electricas) exigentes e melindrosos, logo no começo da vida! Pois assim se formou aquelle cerebro excentrico e phantasioso: ora illuminado de alacridade estrondosa e communicativa, ora obscurecido por tristeza bronca e inconvivente; hoje da suavidade doentia da rola amorosa, ámanhã da rudeza do milhafre accommettendo com as garras e o bico. Quando presa de melancolia, procurava escuras sombras nos arvoredos da matta contigua á habitação, secrestando-se assim do convivio de todos; n'outras occasiões, com a mente jubilosa praticava innumeras temeridades—subindo a arvores e a telhados, provocando os viçosos bezerros que pasciam no prado, soltando os sanhudos cães de guarda para accommetterem pacificos transeuntes e os pedintes que vinham ao portal. Porém alegrias ou tristezas eram-lhe de pouca dura: simples fulgurações de nervos, que logo se apagavam após ephemero clarão. Appareciam frequentes e ligavam-se taes estados de sentir contrarios, mostrando, no emtanto, accentuado pendor para tudo que fosse bulha. Traziam tambem essas rebeldias de nervos caracter de contagiosas ou suggestivas para as outras creanças, que a imitavam e seguiam com enthusiasmo e obcecação, collaborando com ella em obras destruidoras contra animaes, flores ou mobilia. Esta pequena imperatriz da maldade impunha auctoritariamente a imitação do seu procedimento tyrannico e contundente. Os paes eram ricos, queriam-lhe muito e consentiam-lhe tudo; por isso encontrava sempre como victimas para esgotar a turbulencia da sua alma um velho creado paciente e tonto, um cão gottoso e indefeso que dormia juncto da lareira, um pobre jumento aposentado, que soltavam para comer nos vallados. Porém a passividade soffredora, que taes entidades lhe offereciam, mais lhe fazia referver o sangue; não se ressentirem das suas provocações tomava-o como de pouca consideração pelo seu poder; o soffrimento alheio causava-lhe regosijos de que dava mostras com animo contente e satisfeito. Quem podia, evitava-lhe o contacto; mas os creados e dependentes faziam-lhe vontades e muitas festas deante dos paes; diziam-lhe palavras de carinho e agradaveis; louvavam-lhe a docilidade de genio e animo dadivoso; porém, não poucas vezes, Margarida lhes commentou os dizeres com esta que tal rabinice:

—Tu dizes isso para a mamã te ouvir...

Os doze annos de Margarida, coincidindo com o domingo de Paschoela, em que se celebrava o orago da capella da casa, foram festejados com demasiada pompa. Quem primeiro lembrou o ajustado d'essas duas datas foi Antonia, e D. Claudina assignalou a importancia do facto, por serem os doze annos a edade que marca a transicção da inconsciencia infantil, para a responsabilidade de quem já repara na sombra. Talvez ambas tivessem o pensamento reservado de pedir a collaboração da santa, com o fim de conseguirem qualquer mudança favoravel no caracter irrascivel da creança!... Tem-se visto milagres d'estes e maiores; nunca se deve desesperar da possibilidade da intervenção do poder divino nos destinos humanos. Posta a questão de assim conseguirem para a alma de Margarida uma correlação de belleza com a do seu rosto, que era, em certos instantes, d'uma belleza seraphica, não se pouparam os paes a larguesas. Formaram plano grandioso: haveria missa a tres padres, com Gloria e Credo cantados por côro escolhido; haveria sermão de circumstancia pregado por qualquer padre de nomeada, que viesse de Braga, onde os ha bons; haveria fogo preso e musica de vespera; romaria e procissão com anjinhos no dia. Isto pelo que toca ao divino: no que diz respeito ao profano, grande jantar com numerosos convivas, uma especie de baile no domingo á noite, que se realisaria na grande sala de ordinario destinada a estendal e armazem das fructas, batatas e feijão, que se guardavam para todo o anno.

Quanto mais se martellava n'isto, mais se estendia e melhorava a primitiva idéa. João da Costa assentou em que, para celebrar condignamente a juncção da festa da padroeira da sua capella com os doze annos de sua filha, devia attrahir muito povo de perto e de longe e por tanto encommendou ao Zé Osti, o mais afamado fogueteiro do Alto Minho (onde se conhecem dos primeiros) um fogo preso chibante! Sabia elle muito bem que sendo conhecido este promenor, não ficariam em casa senão os muribundos; porque até os cegos e paralyticos haviam de concorrer.

Não se enganara: era de vêr como dos campos em lavrada, se levantavam alaridos de alegria no dia em que atravessaram as aldeias visinhas o proprio filho do Zé Osti, capitaneando uma duzia de mulheres, que á cabeça transportavam as diversas figuras e o abundante fogo do ar. Tambem João da Costa se não esqueceu de mandal-os esperar pela musica que tinha contractada, e que á frente vinha annunciando o caso com o estrondo dos seus metaes, tocando grandiosa marcha. A galhardia dos trombones, figles e cornetins, lardeados pelos alegres clarinetes e flautas soprados com alma e coração, e tudo esfuziado por um soberbo requinta que fôra musico do tres de Vianna, formavam um tal conjuncto alegre e ostentoso, adeante dos bombos e pratos, que era de deixar bois, charrua e arado, para vir ao caminho gozar, admirar e applaudir! Tudo merecia a imaginação copiosa e deslumbradora do afamado fogueteiro! As formosas moçoilas que abandonavam, por momentos, as sacholas e vinham acompanhadas dos namorados ver as ricas peças, bem o demonstravam exclamando:

«Olha a chieira d'aquella macaca de chapeu de flôres! Veremos se terá a mesma, quando lhe rebentarem as bombas por baixo da saia de balão.»

«Olha o barbeiro a amolar as navalhas! No sabbado á noite é que as hade amolar depressa!...»

«Olha o janota de chapeu alto, que grande charuto leva na bocca! Aquillo é que hade esguichar fogo, quando lh'o accenderem.»

«E o painel de Santa Margarida cheio de lagrimas de côres á roda! É obra apilarada! Não vêdes gentes, como se parece com a morgadinha?!...»

Do fogo do ar é que se presumiam coisas de espavento, pelo que se vira na passada romaria da Agonia. Então deitaram-se foguetes com cabeças maiores do que as de gente, e houve por momentos receio de que pudessem estremecer e toldar os vinhos que ainda estavam envasilhados, ou aluir qualquer penedo mal seguro! Todos tinham tamanho respeito aos monstros, que o Zé Osti, não encontrando nas localidades homem bastante corajoso para lhes chegar a murraca, nas occasiões se fazia acompanhar por um especial, que tinha o craneo por forma duro e resistente, que não haveria receio de que lhe rebentasse o sangue pelos ouvidos, ou se lhe voltasse a mioleira, se por acaso um dos foguetes não subisse e lhe estalasse aos pés.

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