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Os Bravos do Mindello Romance Historico
Language: pt4,270 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: PT Romance·Historical Novels·Novels
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #21290.
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Este romance histórico de Faustino da Fonseca situa‑se na turbulenta década de 1820, quando Portugal se vê dividida entre o absolutismo de D. Miguel e os ideais liberais inspirados pela Revolução de 1820 em Espanha e pelos movimentos constitucionais de D. Pedro. O texto abre com um jovem que, na ilha Terceira, sente a “ânsia do desconhecido” e contempla o mar largo enquanto a fragata Princesa Real se prepara para zarpar. Entre a expectativa de um navio que pode levá‑lo a Lisboa e as pressões da família, das tias e da comunidade, o narrador descreve, em detalhes vívidos, a paisagem açoriana, as conversas sobre preços, a influência dos pedreiros livres e as intrigas políticas que permeiam a vida quotidiana.
A linguagem de Fonseca combina um estilo barroco‑romântico, repleto de longas frases, vocabulário arcaico e descrições minuciosas que evocam o ambiente insular e o clima de incerteza política. O ritmo alterna entre reflexões introspectivas e diálogos carregados de tensão, oferecendo ao leitor uma imersão profunda na mentalidade da época. A obra agradará a quem aprecia narrativas históricas detalhadas, com forte sentido de lugar, e a leitores interessados em personagens que encarnam o conflito entre tradição e mudança durante a luta pela Constituição em Portugal.
The opening · free to read
Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a Colombo; tambem queria saber o que haveria para álem da curva do mar largo, essas terras onde tudo se decidia: a França, mãe da liberdade, regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as instituições de Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalára a revolução de 24 de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisição; a Inglaterra, que apoiára a carta constitucional doada por D. Pedro, e decerto auxiliaria a revolução de 18 de maio contra a usurpação de D. Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda não havia um mez; o Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos; Lisboa, de onde uma embarcação traria um primo para lhe arrebatar a mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha.
Annullado na absorpção do mar largo e das terras aonde conduzia, surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo detraz do Monte Brasil, a fragata Princesa Real, mostrando no balanço a bateria rasa, cintada de peças negras em carretas vermelhas abocadas ás portinholas.
Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem lanchas e escaleres.
Tudo acabaria assim?
Sentia-se ligado áquelle navio, dependente da sua rota, do porto de onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que trazia no forte bojo, e espicaçava-o o impeto de sair d'essa dependencia, á mercê do que vinha de fóra, elle como a terra; de reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas esperanças, por fórma a terem que contar com elle.
Havia de ficar áquella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma, adivinhando, no palpitar de um lenço, a noiva perdida para sempre?
Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, até ás recortadas negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava.
Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo, verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casarão onde um pae lha defendia.
Como que via já o pateo cheio, carros de bois carregando os grandes bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e o carroção de coiro bolorento, baloiçando-se nas grossas correias, de largas fivellas areiadas, arrastado á força da aguilhada por duas juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando ferrugentas ferragens.
Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte apoiada na mão esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado, anediando o ligeiro buço, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes, pensando no que devia fazer.
Ao tocarem matinas na Sé, começou a preparar-se para saír.
Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia.
Estava prompto o almoço, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem para Lisboa.
Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da louça da India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado armario de madeira do Brasil, com guarnições tremidas e remates arrendados.
Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se sentou na cadeira de espaldar, de onde o pae e o avô presidiam á grande meza oval, de pés torneados e parafusos de prata, cujas abas se fechavam para sempre á medida que a familia se reduzia, esmoreceram-lhe os impetos, esvaíu-se-lhe a energia.
Amolentara-o a educação mulherenga, creado entre rabos de saias, adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo.
Pobres velhas! Morreriam de dôr se lhes faltasse.
E as ambições de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se no resignado aniquilamento, na tendencia para a meditação, de que o haviam adoecido os dias abafadiços e humidos.
--Já saes?--perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de tartaruga.
Dorotheia accrescentou que não era dia de lição, e o dominio das velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os passos, vigiando-lhe as saídas e entradas, fazendo-lhe scenas de lagrimas quando voltava tarde «do caminho da perdição!»
Não resistia, não se insurgia, não protestava, mas nem por isso deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de liberdade, sem pae que o derrancasse nas sovas que humilhavam outros da sua edade, ao recolherem fóra d'horas.
--Nem que fosse dia de lição irias hoje ao padre Jeronymo.
Pulcheria, magra e sêcca, nervosa, solteirona, alludia á chegada do navio de Lisboa, sublinhando com intenção.
E Dorotheia, viuva, mais prompta á lagrima, supplicou-lhe:
--Não te vás meter em trabalhos.
--Não se fala senão de vinganças, de prisões, credo!--apoiou Pulcheria.
Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado economico das perturbações:
--Tudo mais caro. Os ovos já estão a quatro por um vintem, e querem uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de entrar na cidade, e não passam do Desterro onde açambarcam a manteiga, os ovos e as gallinhas os revendilhões, que põem tudo pela hora da morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada má noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os preços. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que veiu para ahi de tamancos! Já não se pagam fóros, ha que tempos não entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capitão Toledo das Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que não se acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em chôco, mas logo na noite da revolta, com os tiros dos soldados do Lobão contra os milicianos, foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que põem duas vezes por dia! É o que se ganha com essas façanhas dos constitucionaes.
--Ó tia!...--interveiu sorrindo.
--Se não has-de defendel-os, não fosses todo do Juvencio!--commentou Pulcheria, mais directamente ferida pelo gôro.
--Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas iras, fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria.
--Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabeça.
Pulcheria reprimiu João n'um olhar.
--Não te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico é muito de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles são do senhor D. Miguel.
--Estão no seu direito.
Dorotheia acudiu com a questão do dinheiro:
--Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escripturação dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matanças manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de damasco. Teu pae e teu avô foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és tratado como amigo.
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