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A Illustre Casa de Ramires
Language: pt9,454 downloads on Project Gutenberg
In: PT Romance·Novels
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #23145.
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A Illustre Casa de Ramires apresenta‑se como um romance histórico‑filosófico, iniciado com a descrição minuciosa de um domingo de junho em que Gonçalo Mendes Ramires, conhecido como o “Fidalgo da Torre”, trabalha na sua “Novella Historica”, A Torre de D. Ramires. O texto abre mergulhando o leitor na atmosfera da casa de Severinas, entre estantes de pau preto, folios de convento e volumes de Walter Scott, enquanto o protagonista contempla a torre medieval que simboliza a linhagem dos Mendes Ramires, remontando a genealogias que atravessam séculos de história portuguesa. Essa introdução estabelece simultaneamente o cenário físico, a preocupação genealógica e o projeto literário que o autor pretende inserir nos Annaes de Litteratura e de Historia.
A escrita de Eça de Queirós combina um estilo denso, repleto de detalhes arquitetônicos e referências a documentos históricos, refletindo o romantismo tardio do século XIX. A linguagem, rica em arcaísmos e em descrições pitorescas, cria um ritmo contemplativo que agrada ao leitor interessado em narrativas de identidade nacional, genealogia nobre e debates intelectuais da época. Quem aprecia obras que mesclam erudição, ambientação meticulosa e um tom reflexivo sobre o passado de Portugal encontrará nesta obra um convite à imersão.
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Desde as quatro horas da tarde, no calor e silencio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinellos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita côr de rosa, trabalhava. Gonçalo Mendes Ramires (que n'aquella sua velha aldêa de Santa Ireneia, e na villa visinha, a aceada e vistosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo «Fidalgo da Torre») trabalhava n'uma Novella Historica, A Torre de D. Ramires, destinada ao primeiro numero dos Annaes de Litteratura e de Historia, Revista nova, fundada por José Lucio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenaculo Patriotico, em casa das Severinas.
A livraria, clara e larga, escaiolada d'azul, com pesadas estantes de pau preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos folios de convento e de fôro, respirava para o pomar por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra almofadados de velludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela madresilva que se enroscava nas grades. Deante d'essa varanda, na claridade forte, pousava a mesa--mesa immensa de pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada n'essa tarde pelos rijos volumes da Historia Genealogica, todo o Vocabulario de Bluteau, tomos soltos do Panorama, e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos amarellos. E d'ahi, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo deante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama da penna de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novella,--a Torre, a antiquissima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com uma pouca d'hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no azul de Junho, robusta sobrevivencia do Paço acastellado, da fallada Honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meiados do seculo X.
Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuino e antigo fidalgo de Portugal. Raras familias, mesmo coevas, poderiam traçar a sua ascendencia, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos Senhores que entre Douro e Minho mantinham castello e terra murada quando os barões francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do Borguinhão. E os Ramires entroncavam limpidamente a sua casa, por linha pura e sempre varonil, no filho do Conde Nuno Mendes, aquelle agigantado Ordonho Mendes, senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, que casou em 967 com Dona Elduara, Condessa de Carrion, filha de Bermudo o Gottoso, Rei de Leão.
Mais antigo na Hespanha que o Condado Portucalense, rijamente, como elle, crescera e se afamára o Solar de Santa Ireneia--resistente como elle ás fortunas e aos tempos. E depois, em cada lance forte da Historia de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou grandiosamente pelo heroismo, pela lealdade, pelos nobres espiritos. Um dos mais esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha o Cortador, collaço de Affonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de cavalleiro, vellára as armas na Sé de Zamora), apparece logo na batalha d'Ourique, onde tambem avista Jesus-Christo sobre finas nuvens d'ouro, pregado n'uma cruz de dez covados. No cerco de Tavira, Martim Ramires, freire de San-Thiago, arromba a golpes de acha um postigo da Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as duas mãos, e surde na quadrella da torre albarran, com os dous pulsos a esguichar sangue, bradando alegremente ao Mestre:--«D. Payo Peres, Tavira é nossa! Real, Real por Portugal!» O velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a levadiça erguida, as barbacans erriçadas de frecheiros, nega acolhida a El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que corriam o Norte em folgares e caçadas--para que a presença da adultera não macule a pureza extreme do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o Trovador desbarata um troço de bésteiros, mata o Adiantado-mór de Galliza, e por elle, não por outro, cahe derribado o pendão real de Castella, em que ao fim da lide seu irmão d'armas, D. Antão d'Almada, se embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao Mestre d'Aviz. Sob os muros d'Arzilla combatem magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu neto Fernão, e deante do cadaver do velho, trespassado por quatro virotes, estirado no pateo da Alcaçova ao lado do corpo do Conde de Marialva--Affonso V arma juntamente cavalleiros o Principe seu filho e Fernão Ramires, murmurando entre lagrimas: «Deus vos queira tão bons como esses que ahi jazem!...» Mas eis que Portugal se faz aos mares! E raras são então as armadas e os combates de Oriente em que se não esforce um Ramires--ficando na lenda tragico-maritima aquelle nobre capitão do Golpho Persico, Balthazar Ramires, que, no naufragio da Santa Barbara, reveste a sua pesada armadura, e no castello de prôa, hirto, se afunda em silencio com a náu que se afunda, encostado á sua grande espada. Em Alcacer-Kebir, onde dous Ramires sempre ao lado d'El-Rei encontram morte soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pagem do Guião, nem lezo nem ferido, mas não querendo mais vida pois que El-Rei não vivia, colhe um ginete solto, apanha uma acha d'armas, e gritando:--«Vai-te, alma, que já tardas, servir a de teu senhor!»--entra na chusma mourisca e para sempre desapparece. Sob os Philippes, os Ramires, amuados, bebem e caçam nas suas terras. Reapparecendo com os Braganças, um Ramires, Vicente, Governador das Armas d'Entre-Douro e Minho por D. João IV, mette a Castella, destroça os Hespanhoes do Conde, de Venavente, e toma Fuente-Guiñal, a cujo furioso saque preside da varanda d'um Convento de Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de melancia. Já, porém, como a nação, degenera a nobre raça... Alvaro Ramires, valido de D. Pedro II, brigão façanhudo, atordôa Lisboa com arruaças, furta a mulher d'um Védor da Fazenda que mandára matar a pauladas por pretos, incendeia em Sevilha depois de perder cem dobrões uma casa de tavolagem, e termina por commandar uma urca de piratas na frota de Murad o Maltrapilho. No reinado do Sr. D. João V Nuno Ramires brilha na Côrte, ferra as suas mulas de prata, e arruina a casa celebrando sumptuosas festes de Egreja, em que canta no côro vestido com o habito de Irmão Terceiro de S. Francisco. Outro Ramires, Christovam, Presidente da Mesa de Consciencia e Ordem, alcovita os amores d'el-rei D. José I com a filha do prior de Sacavem. Pedro Ramires, Provedor e Feitor-mór das Alfandegas, ganha fama em todo o Reino pela sua obesidade, a sua chalaça, as suas proezas de glutão no Paço da Bemposta com o arcebispo de Thessalonica. Ignacio Ramires acompanha D. João VI ao Brazil como Reposteiro-Mór, negoceia em negros, volta com um bahú carregado de peças d'ouro que lhe rouba um administrador, antigo frade capuchinho, e morre no seu solar da cornada de um boi. O avô de Gonçalo, Damião, doutor liberal dado ás Musas, desembarca com D. Pedro no Mindello, compõe as empoladas proclamações do Partido, funda um jornal, o Anti-Frade, e depois das Guerras Civis arrasta uma existencia rheumatica em Santa Ireneia, embrulhado no seu capotão de briche, traduzindo para vernaculo, com um lexicon e um pacote de simonte, as obras de Valerius Flaccus. O pae de Gonçalo, ora Regenerador, ora Historico, vivia em Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco Hypothecario e pelo lagedo da Arcada, até que um Ministro do Reino, cuja concubina, corista de S. Carlos, elle fascinára, o nomeou, (para o afastar da Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonçalo, esse, era bacharel formado com um R no terceiro anno.
E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras Gonçalo Mendes Ramires. Um seu companheiro de casa, José Lucio Castanheiro, algarvio muito magro, muito macilento, de enormes oculos azues, a quem Simão Craveiro chamava o «Castanheiro Patriotinheiro», fundára um Semanario, a *Patria*--«com o alevantado intento (affirmava sonoramente o Prospecto) de despertar, não só na mocidade Academica, mas em todo o paiz, do cabo Silleiro ao cabo de Santa Maria, o amor tão arrefecido das bellezas, das grandezas e das glorias de Portugal!» Devorado por essa idéa, «a sua Idéa», sentindo n'ella uma carreira, quasi uma missão, Castanheiro incessantemente, com ardor teimoso de Apostolo, clamava pelos botequins da Sophia, pelos claustros da Universidade, pelos quartos dos amigos entre a fumaça dos cigarros,--«a necessidade, caramba, de reatar a tradição! de desatulhar, caramba, Portugal da alluvião do estrangeirismo!»--Como o Semanario appareceu regularmente durante tres Domingos, e publicou realmente estudos recheiados de griphos e citações sobre as Capellas da Batalha, a Tomada d'Ormuz, a Embaixada de Tristão da Cunha, começou logo a ser considerado uma aurora, ainda pallida mas segura, de Renascimento Nacional. E alguns bons espiritos da Academia, sobretudo os companheiros de casa do Castanheiro, os tres que se occupavam das cousas do saber e da intelligencia (porque dos tres restantes um era homem de cacete e forças, o outro guitarrista, e o outro «premiado»), passaram, aquecidos por aquella chamma patriotica, a esquadrinhar na Bibliotheca, nos grossos tomos nunca d'antes visitados de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, d'Azurara, proezas e lendas--«só portuguezas, só nossas (como supplicava o Castanheiro), que refizessem á nação abatida uma consciencia da sua heroicidade!» Assim crescia o Cenaculo Patriotico da casa das Severinas. E foi então que Gonçalo Mendes Ramires, moço muito affavel, esvelto e loiro, d'uma brancura sã de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que facilmente se enterneciam, sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos sapatos--apresentou ao Castanheiro, n'um domingo depois do almoço, onze tiras de papel intituladas D. Guiomar. N'ellas se contava a velhissima historia da castellã, que, emquanto longe nas guerras do Ultra-mar o castellão barbudo e cingido de ferro atira a acha-d'armas ás portas de Jerusalem, recebe ella na sua camara, com os braços nús, por noite de Maio e de lua, o pagem de annellados cabellos... Depois ruge o inverno, o castellão volta, mais barbudo, com um bordão de romeiro. Pelo villico do Castello, homem espreitador e de amargos sorrisos, conhece a traição, a macula no seu nome tão puro, honrado em todas as Hespanhas! E ai do pagem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados. Já no patim da Alcaçova o verdugo, de capuz escarlate, espera, encostado ao machado, entre dous cepos cobertos de pannos de dó... E no final choroso da D. Guiomar, como em todas essas historias do Romanceiro d'Amor, tambem brotavam rente ás duas sepulturas, escavadas no êrmo, duas roseiras brancas a que o vento enlaçava os aromas e as rosas. De sorte que (como notou José Lucio Castanheiro, coçando pensativamente o queixo) não resaltava n'esta D. Guiomar nada que fosse «só portuguez, só nosso, abrolhando do sólo e da raça!» Mas esses amores lamentosos passavam n'um solar de Riba-Côa: os nomes dos cavalleiros, Remarigues, Ordonho, Froylas, Gutierres, tinham um delicioso sabor godo: em cada tira resoavam bravamente os genuinos: «_Bofé!... Mentes pela gorja!... Pagem, o meu murzello!_...»: e através de toda esta vernaculidade circulava uma sufficiente turba de cavallariços com saios alvadios, beguinos sumidos na sombra das cugulas, ovençaes sopezando fartas bolsas de couro, uchões espostejando nedios lombos de cêrdo... A Novella portanto marcava um salutar retrocesso ao sentimento nacional.
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