Storieta
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About this book

Esta obra reúne a correspondência entre Eça de Queirós e o poeta português Carlos Fradique Mendes, revelando o início de uma amizade que se estende de Lisboa a Paris entre 1867 e 1880. O texto abre com a lembrança de Queirós de um encontro casual no Café Martinho, onde, ainda adolescente, se deparou com um folheto da “Revolução de Setembro” contendo os primeiros poemas de Mendes, as “Lapidárias”. A partir daí, o narrador descreve a admiração que sentiu pelos temas inovadores do poeta, que mesclavam simbolismo épico e modernidade cotidiana, e relata como a descoberta desses versos marcou uma “aurora de poesia” para os jovens intelectuais de sua geração. O relato prossegue, entrelaçando memórias de leituras de Baudelaire, Leconte de Lisle e outros autores franceses, com detalhes biográficos de Mendes, sua família açoriana e a formação eclética que recebeu.

A voz do texto é íntima e reflexiva, carregada de referências literárias e históricas típicas do final do século XIX, com um estilo que combina erudição e entusiasmo juvenil. A linguagem, pontuada por citações em francês e por um ritmo quase poético, captura o espírito de um círculo literário que buscava novas formas de expressão além do romantismo. Este volume agradará leitores interessados em correspondências literárias, na história da literatura portuguesa, e em figuras como Eça de Queirós que, além de romancista, foi um observador perspicaz das correntes culturais de sua época.

Characters in A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

  • Eça de QueirósMiddle‑aged Portuguese gentleman, wavy dark hair, trimmed moustache, high‑collared frock coat, waistcoat, pocket watch, 19th‑century Lisbon attire
  • Carlos Fradique MendesYoung Portuguese poet, slender build, short curly hair, thoughtful eyes, linen shirt, waistcoat, slightly rumpled jacket, late‑1860s Parisian look

The opening · free to read

I

A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Paschoa,--justamente na semana em que elle regressára da sua viagem á Africa Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admiravel datava de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi no verão d'esse anno, uma tarde, no café Martinho, que encontrei, n'um numero já amarrotado da Revolução de Setembro, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam.

Os themas («os motivos emocionaes», como nós diziamos em 1867) d'essas cinco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de Lapidarias, tinham logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o tempo em que eu e os meus camaradas de Cenaculo, deslumbrados pelo Lyrismo Epico da Légende des Siècles, «o livro que um grande vento nos trouxera de Guernesey»--decidiramos abominar e combater a rijos brados o Lyrismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollegadas do coração, não comprehendendo d'entre todos os rumores do Universo senão o rumor das saias d'Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monotona e interminavel confidencia de glorias e martyrios de amor. Ora Fradique Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre sem-igual da Légende des Siècles, iam, n'uma universal sympathia buscar motivos emocionaes fóra das limitadas palpitações do coração--á Historia, á Lenda, aos Costumes, ás Religiões, a tudo que através das idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas além d'isso Fradique Mendes trabalhava um outro filão poetico que me seduzia--o da Modernidade, a notação fina e sobria das graças e dos horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos testemunhar ou presentir nas ruas que todos trilhamos nas moradas visinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de nós por penumbras humildes.

Esses poemetos das Lapidarias desenrolavam com effeito themas magnificamente novos. Ahi um Santo allegorico, um Solitario do seculo VI, morria uma tarde sobre as neves da Silesia, assaltado e domado por uma tão inesperada e bestial rebellião da Carne, que, á beira da Bemaventurança, subitamente a perdia, e com ella o fructo divino e custoso de cincoenta annos de penitencia e d'ermo: um corvo, facundo e velho além de toda a velhice, contava façanhas do tempo em que seguira pelas Gallias, n'um bando alegre, as legiões de Cesar, depois as hordas de Alarico rolando para a Italia, branca e toda de marmores sob o azul: o bom cavalleiro Percival, espelho e flôr d'Idealistas, deixava por cidades e campos o sulco silencioso da sua armadura d'ouro, correndo o mundo, desde longas éras, á busca do San-Gral, o mystico vaso cheio de sangue de Christo, que, n'uma manhã de Natal, elle vira passar e lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um Satanaz de feitio germanico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n'uma viella de cidade medieval uma serenada ironica aos astros, «gottas de luz no frio ar geladas»... E, entre estes motivos de esplendido symbolismo, lá vinha o quadro de singela modernidade, as Velhinhas, cinco velhinhas, com chales de ramagens pelos hombros, um lenço ou um cabaz na mão, sentadas sobre um banco de pedra, n'um longo silencio de saudade, a uma restea de sol d'outono.

Não asseguro todavia a nitidez d'estas bellas reminiscencias. Desde essa sésta de agosto, no Martinho, não encontrei mais as Lapidarias: e, de resto, o que n'ellas então me prendeu, não foi a Idéa, mas a Fórma--uma fórma soberba de plasticidade e de vida, que ao mesmo tempo me lembrava o verso marmoreo de Lecomte de Lisle com um sangue mais quente nas veias do marmore, e a nervosidade intensa de Baudelaire vibrando com mais norma e cadencia. Ora precisamente, n'esse anno de 1867, eu, J. Teixeira de Azevedo e outros camaradas tinhamos descoberto no céo da Poesia Franceza (unico para que nossos olhos se erguiam) toda uma pleiade d'estrellas novas onde sobresahiam, pela sua refulgencia superior e especial, esses dois sóes--Baudelaire e Lecomte de Lisle. Victor Hugo, a quem chamavamos já «papá Hugo» ou «Senhor Hugo-Todo-Poderoso», não era para nós um astro--mas o Deus mesmo, inicial e immanente, de quem os astros recebiam a luz, o movimento e o rythmo. Aos seus pés Lecomte de Lisle e Baudelaire faziam duas constellações de adoravel brilho: e o seu encontro fôra para nós um deslumbramento e um amor! A mocidade d'hoje, positiva e estreita, que pratíca a Politica, estuda as cotações da Bolsa e lê George Ohnet, mal póde comprehender os santos enthusiasmos com que nós recebiamos a iniciação d'essa Arte Nova, que em França, nos começos do Segundo Imperio, surgira das ruinas do Romantismo como sua derradeira encarnação, e que nos era trazida em Poesia pelos versos de Lecomte de Lisle, de Baudelaire, de Coppée, de Dierx, de Mallarmé, e d'outros menores: e menos talvez póde comprehender taes fervores essa parte da mocidade culta que logo desde as escolas se nutre de Spencer e de Taine, e que procura com ancia e agudeza exercer a critica, onde nós outr'ora, mais ingenuos e ardentes, nos abandonavamos á emoção. Eu mesmo sorrio hoje ao pensar n'essas noites em que, no quarto de J. Teixeira d'Azevedo, enchia de sobresalto e duvida dois conegos que ao lado moravam, rompendo por horas mortas a clamar a Charogne de Baudelaire, tremulo e pallido de paixão:

Et pourtant vous serez semblable à cette ordure, A cette horrible infection, Étoile de mes yeux, soleil de ma nature, Vous, mon ange et ma passion!

Do outro lado do tabique sentiamos ranger as camas dos ecclesiasticos, o raspar espavorido de phosphoros. E eu, mais pallido, n'um extase tremente:

Alors, oh ma beauté, dites à la vermine Qui vous mangera de baisers, Que j'ai gardé la forme et l'essence divine De mes amours décomposés!

Certamente Baudelaire não valia este tremor e esta pallidez. Todo o culto sincero, porém, tem uma belleza essencial, independente dos merecimentos do Deus para quem se evola. Duas mãos postas com legitima fé serão sempre tocantes--mesmo quando se ergam para um Santo tão affectado e postiço como S. Simeão Stylita. E o nosso transporte era candido, genuinamente nascido do Ideal satisfeito, só comparavel áquelle que outr'ora invadia os navegadores peninsulares ao pisarem as terras nunca d'antes pisadas, Eldorados maravilhosos, ferteis em delicias e thesouros, onde os seixos das praias lhes pareciam logo diamantes a reluzir.

Li algures que Juan Ponce de Leon, enfastiado das cinzentas planicies de Castella-a-Velha, não encontrando tambem já encanto nos pomares verde-negros da Andaluzia--se fizera ao mar, para buscar outras terras, e mirar algo nuevo. Tres annos sulcou incertamente a melancolia das aguas atlanticas: mezes tristes errou perdido nos nevoeiros das Bermudas: toda a esperança findára, já as prôas gastas se voltavam para os lados onde ficára a Hespanha. E eis que n'uma manhã de grande sol, em dia de S. João, surgem ante a armada extatica os esplendores da Florida! «_Gracias te sean, mi S. Juan bendito, que he mirado algo nuevo!_» As lagrimas corriam-lhe pelas barbas brancas--e Juan Ponce de Leon morreu de emoção. Nós não morremos: mas lagrimas congeneres com as do velho mareante saltaram-me dos olhos, quando pela primeira vez penetrei por entre o brilho sombrio e os perfumes acres das Flôres do Mal. Eramos assim absurdos em 1867!

De resto, exactamente como Ponce de Leon, eu só procurava em Litteratura e Poesia algo nuevo que mirar. E para um meridional de vinte annos, amando sobretudo a Côr e o Som na plenitude da sua riqueza, que poderia ser esse algo nuevo senão o luxo novo das fórmas novas? A Fórma, a belleza inedita e rara da Fórma, eis realmente, n'esses tempos de delicado sensualismo, todo o meu interesse e todo o meu cuidado! Decerto eu adorava a Idéa na sua essencia;--mas quanto mais o Verbo que a encarnava! Baudelaire, mostrando á sua amante na Charogne a carcassa pôdre do cão e equiparando em ambas as miserias da carne, era para mim de magnifica surpreza e enlevo: e diante d'esta crespa e atormentada subtilisação do sentir, que podia valer o facil e velho Lamartine no Lago, mostrando a Elvira a cansada lua, e comparando em ambas a pallidez e a graça meiga? Mas se este aspero e funebre espiritualismo de Baudelaire me chegasse expresso na lingua lassa e molle de Casimir Delavigne--eu não lhe teria dado mais apreço do que a versos vis do Almanach de Lembranças.

Foi sensualmente enterrado n'esta idolatria da Fórma, que deparei com essas Lapidarias de Fradique Mendes, onde julguei vêr reunidas e fundidas as qualidades discordantes de magestade e de nervosidade que constituiam, ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois idolos--o auctor das Flôres do Mal e o auctor dos Poemas Barbaros. A isto accrescia, para me fascinar, que este poeta era portuguez, cinzelava assim preciosamente a lingua que até ahi tivera como joias acclamadas o Noivado do Sepulchro e o Avè Cesar!, habitava Lisboa, pertencia aos Novos, possuia decerto na alma, talvez no viver, tanta originalidade poetica como nos seus poemas! E esse folhetim amarrotado da Revolução de Setembro tomava assim a importancia d'uma revelação d'Arte, uma aurora de Poesia, nascendo para banhar as almas moças na luz e no calor especial a que ellas aspiravam, meio adormecidas, quasi regeladas sob o algido luar do Romantismo. Graças te sejam dadas, meu Fradique bemdito, que na minha velha lingua hé mirado algo nuevo! Creio que murmurei isto, banhado em gratidão. E, com o numero da Revolução de Setembro, corri a casa de J. Teixeira de Azevedo, á travessa do Guarda-Mór, a annunciar o advento esplendido!

Encontrei-o, como de costume, nos silenciosos vagares das tardes de verão, em mangas de camisa, diante de uma bacia que trasbordava de morangos e de vinho de Torres. Com vozes clamorosas, atirando gestos até ao tecto, declamei-lhe a Morte do Santo. Se bem recordo, este asceta, ao findar sobre as neves da Silesia, era miserrimamente trahido pela desleal Natureza! Todos os appetites da paixão e do corpo, tão laboriosamente recalcados por elle durante meio seculo d'ermo, irrompiam de repente, á beira da eternidade, n'um tumulto bestial, não querendo para sempre findar com a carne que ia findar--antes de serem uma vez satisfeitos! E os anjos que, para o receber, desciam d'aza serena, sobraçando mólhos de Palmas e cantando os Epithalamios, encontravam, em vez d'um Santo, um Satyro, senil e grotesco--que de rojos, entre bramidos sordidos, mordia com beijos vorazes a neve, a macia alvura da neve, onde o seu delirio furiosamente imaginava nudezes de cortezãs!... Tudo isto era tratado com uma grandeza sobria e rude que me parecia sublime. J. Teixeira d'Azevedo achou tambem «sublime--mas bréjeiro». E concordou que convinha desentulhar Fradique Mendes da obscuridade, e erguel-o no alto do escudo como o radiante mestre dos Novos.

Fui logo n'essa noite á Revolução de Setembro, procurar um companheiro meu de Coimbra, Marcos Vidigal, que, nos nossos alegres tempos de Direito Romano e Canonico, ganhára, por tocar concertina, lêr a Historia da Musica de Scudo, e lançar através da Academia os nomes de Mozart e de Beethoven, uma soberba auctoridade sobre Musica classica. Agora, vadiando em Lisboa, escrevia na Revolução, aos domingos, uma «Chronica lyrica»--para gozar gratuitamente o bilhete de S. Carlos.

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