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Quinze Annos Depois

Passa o primeiro centenario de José Estevão e a sua terra natal celebra-lhe com festivaes a commemoração de gloria. Era do seu dever. Era de honra sua.

Eis porque tambem sahe agora a lume a reproducção--segunda--d'essas sinceras e desataviadas palavras que uma vez, por occasião das ultimas festas commemorativas do grande tribuno, o signatario d'este opusculo teve ensejo de pronunciar no Theatro Aveirense. Foi no radioso e, para elle, inolvidavel sarau de 13 de agosto de 1894, tão cheio de galas e d'esplendores, e em que a unica nota discordante, gentilmente perdoada pela benevola assistencia, foi precisamente devida á palavra pallida e sem louçanias do ephemero e arrojado orador que alli appareceu--nem elle já se lembra bem como!--a dizer de José Estevão e da sua grande eloquencia.

É, pois, esta reedição, agora que passa o centenario do tribuno, do mesmo passo que uma opportuna homenagem, como que tambem uma especie de publicação posthuma feita por quem, como orador, ha muito já se deu por definitivamente morto. Sobre o seu nome oratorio, fruste e fugaz, cahiu com justiça e, porventura, com piedade, a irremovida, a grossa, a pesada terra do esquecimento. Felizmente para elle! Felizmente para os outros!

Todavia, se requintes litterarios e movimentos oratorios, como conspicuamente se dizia nos bons tempos em que o ominoso e erudito Figueiredo coimbrão dos «Logares Selectos» empunhava com gravidade a férula didactica de canonista supremo em coisas de eloquencias e de rhetoricas, não caracterisam nem valorisam a parlenda que adeante se reproduz, tem ella, no emtanto, o merito--unico--da sinceridade na emoção e do desassombro nas affirmações que contém. Porque, se para o orador foi um acto de audacia, só desculpavel pela temeridade da juventude, apresentar-se a fallar em publico no logar e nos termos em que fallou, não foi menos um ousado gesto de coragem civica abalançar-se a dizer o que disse e quando o disse--em plena dictadura Hintze-Franco--com a aggravante de pouco tempo ser volvido ainda sobre o sangrento e mallogrado movimento politico do Porto que o arrastara ao pretorio, e do pretorio á prisão. Demais era elle um alumno militar e, como tal, sujeito a regulamentos especiaes, aliás então bem mais benignos do que esses outros, verdadeiramente draconianos, que ora para ahi vigoram como doutrina legal.

Eis aqui os titulos pelos quaes essas paginas que adeante vão impressas ainda hoje são muito gratas ao auctor, e o principal motivo porque elle as reedita, concorrendo assim mais uma vez com o seu modesto tributo para a glorificação do portentoso tribuno liberal.

Publicadas pouco depois em opusculo, completamente esgotado e esquecido já, essas paginas, desvaliosas como são e como desvalioso ao tempo era--e ainda hoje é--o seu auctor, nem por isso a dictadura d'então deixou de procurar molestal-o, sob a falsa denuncia official, d'elle haver proferido o seu discurso, se assim se lhe póde chamar, n'um... comicio republicano!

Por esse motivo foi elle chamado a Lisboa á presença do Commandante Geral da Armada,--era assim que então se dizia--o vice-almirante Baptista d'Andrade que, depois de o ouvir, o mandou tranquilla e amavelmente em paz, quando se inteirou de que o «feroz tribuno» para o qual se lhe insinuavam as fulminações das suas reprimendas ou procedimento mais grave ainda, se limitara, no pleno uso do seu direito e sem aggravo da disciplina, a tomar parte n'um sarau litterario-musical promovido por uma commissão de que era presidente o governador civil de Aveiro e ao qual este mesmo presidira, sendo até, por signal, o primeiro a felicitar calorosamente o orador pelo seu discurso, sem duvida impulsionado n'esse acto cortez mais por um requinte de benevola gentileza, do que por quaesquer problematicos meritos oratorios que n'elle vislumbrasse...[1]

Os tempos eram ainda então um pouco diversos dos de hoje, como se vê, e os homens em evidencia nos meios politicos, algo mais toleraveis, em regra, na sua estatura mental e moral do que a grande maioria dos d'agora.

Se até os proprios rapazes das escolas--os do Ultimatum, os d'essa geração academica a que o auctor pertenceu--eram todos mais ou menos como elle, desinteressados, desempennados, enthusiastas, irreverentes, saccudidos por fremitos generosos, susceptiveis dos mais ousados movimentos, como dos mais tresloucados disparates. Se até pensamos muito a serio em organisar um batalhão academico que fôsse expulsar os inglezes do Chinde, começando mesmo a fazer-se uma inscripção especial, que mais ávante não foi pela sensata intervenção do governo... Sem duvida, que eramos todos ingenuamente patriotas e candidamente democratas!

Novos, muito novos que então eramos, seguramente! Mas já tinhamos devorado todos os grandes Romanticos; e, se na nossa alma vibratil encontrara um echo apaixonado a inspirada canção alacre de Mimi, tambem o nosso coração palpitara ardentemente com os êstos inflammados d'Enjolras, soberbo e loiro, juba ao vento, trepando por entre fumo e balas ao alto da barricada...

Novos, muito novos que então eramos, seguramente! Mas conheciamos todo o movimento litterario, scientifico e artistico contemporaneo. Poderiamos ignorar, por ventura, não poucas vezes, as lições estopantes dos compendios da aula; mas o que, com certeza não ignoravamos, eram as mais modernas estrophes de Moréas e Verlaine, toda a obra poetica dos parnasianos, os poemas marmoreos de Leconte de Lisle, e as rimas acirrantes e esplendidas de Baudelaire. Os nomes de Flaubert e dos Goncourt não sahiam das nossas boccas, n'uma encantação perenne; e era com uma anciedade viva, com um fervor religioso, que aguardavamos os volumes mais recentes de Bourget e Daudet e da galeria gigantesca dos Rougon-Macquart. Germinal desabrochara e florira para nós n'um Sinai de fulgurações e assombros...

Novos, muito novos que então eramos, seguramente. Mas entre nós havia, e em não pequena cópia, quem folheasse febrilmente todo o pensamento contemporaneo--os philosophos, os sociologos, os naturalistas... A anthropologia e a prehistoria tinham, nos nossos grupos, ferventes cultores. Fundavamos associações scientificas, como essa que se formou sob a invocação do nome glorioso de Carlos Ribeiro. Tinhamos revistas litterarias e revistas de sciencias; e redigiamos jornaes de combate. Eram da nossa _souche_--para só fallar dos mortos--poetas como Antonio Nobre, publicistas e ethnographistas como Rocha Peixoto, jornalistas como Hygino de Souza...

Por isso o brusco advento da Republica Brasileira fôra para quasi todos nós uma revelação e uma iniciação, gerando a esperança que nos inspirou e acalentou quando a affronta do ultimatum inglez nos feriu até ao coração e nos pungiu até ás lagrimas e... até á cólera. E vibramos, e protestamos, e actuamos tão intensamente que seduzimos e attrahimos até nós, como guias e como balsões de redempção e luz, poetas e pensadores formidaveis, como Anthero e Junqueiro...

Novos, muito novos que então eramos, seguramente. Mas já as «Farpas» haviam sido a nossa biblia. Com ellas aprenderamos a zombar dos nossos grandes homens que então ainda davam as cartas na sociedade e na politica. Com ellas haviamos lobrigado, dentro dos seus vultos magestosos e imponentes, a estopa misera e ridicula que os enchia e atufava...

O Eça tinha-nos modelado e descoberto já tambem, com a sua subtil arte incomparavel de ironia e belleza, o conselheiro Accacio--esse symbolo!--que nós viamos irreverentemente em toda a parte e em todos os grandes logares, perseguindo-o com a nossa troça implacavel, com a nossa galhofa insultante e cruel--no parlamento, na burocracia, na cathedra e no jornalismo...

Ai de nós! ai de nós! que vamos envelhecendo e que todos pouco mais ou menos então assim fomos, vibrantes e combativos, vivendo no azul dos grandes ideaes, nutrindo-nos, cheios de crença, de todas as espirituaes curiosidades luminosas! Ai de nós! ai de nós! que assim fomos, quando eramos novos, mas que nada tinhamos de mesquinhos e de subservientes, tendo feito da rebellião um culto e da irreverencia uma catapulta! Ai de nós! que, se temos de chorar hoje a nossa mocidade que lá vai, de revivêl-a com os olhos humedecidos d'agua, e--como diz o poeta--

...volver para traz o nosso olhar plangente, Para traz, para traz, para os tempos remotos, Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez, Porque, ai! a juventude é como a flôr do lotus Que em cem annos floresce apenas uma vez!

ai de nós! que, se assim temos de carpir esses dias cheios, bellos e irradiantes, não temos felizmente de amaldiçoar, n'um arrependimento, os nossos ideaes d'então, as nossas crenças, os nossos odios e mesmo as nossas loucuras. Da sua memoria ainda hoje vivemos, no seu enlevo ainda hoje nos consolamos, a sua saudade ainda hoje nos inspira. Porque, se somos ainda hoje intransigentemente liberaes e firmemente democratas, é porque muito grande foi a nossa esperança e muito vivo o nosso ardor. E ante as gerações que nos succederam, creadas, como ahi se está vendo, precisamente no culto do conselheiro Accacio--o conselheiro Accacio, o nosso supremo odio!--timoratas, respeitadoras, tementes a Deus e á Ordem, genuinas filhas da lei escolar do snr. João Franco e do açambarcamento didactico de Loyola e S. Thomaz, nós, que nos consideravamos tão pequenos já em face das duas gerações egregias que immediatamente nos haviam precedido, forçados somos agora á amarga decepção de termos de nos considerar comparativamente grandes, ao conspecto da miseria que por ahi vai d'uma mocidade de velhos precoces e calculistas, sem alôres, sem norte, sem vertebras, conselheiros in herbis, archeiros por vocação e sachristães ingenitos, irmãos de confrarias e confrades de Ligas conservadoras, deixando-se arrastar até á ignominia suprema de acatarem como mentor um velho beato como o snr. Samodães e de seguirem docilmente, como a um cornáca, ao festejado e festeiro meu caro Lencastre--dos vivas e das viajatas...

Que enorme distancia moral entre 1890 e 1909!

Mas agora reparo que já vae longa esta prefação, bem mais longa do que minha intenção era ao traçar-lhe as primeiras linhas. Prolixidades e rabujices, sem duvida, de quem começa a envelhecer e que só verdadeiramente ainda sente e vibra, ante a desconsolação do presente, com a emotiva saudade do passado que, a cada dia que foge, mais e mais se afunda no occaso. O leitor benevolo desculpará, porém, o comprehensivel e perdoavel desabafo, tanto mais que, quando os novos hoje se apresentam degenerescentemente velhos, não deve ser d'estranhar que, ao menos por honra do convento, aquelles que já attingiram a altura da vida d'onde começa a avistar-se a declinação do poente, como que se sintam obrigados a lembrar-lhes o quanto e como fôram moços e a mostrar-lhes o quanto ainda de mocidade lhes resta nas bastantes energias.

E a opportunidade do centenario de José Estevão é flagrante para o proposito. D'ahi a resurreição d'esse discurso que adeante se estampa.

Como ha quinze annos, na carta ao dr. Mello Freitas, posso e devo ainda hoje repetir, por minha parte, na actual consagração centenaria de José Estevão e perante o movimento liberal que se define e ella testemunha, o que eu então dizia, concluindo:--«Não defino a minha attitude--confirmo-a».

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