
Public-domain ebook
Era uma vez...
Language: pt495 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: Children & Young Adult Reading·Novels·Mythology, Legends & Folklore
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #69239.

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In: Children & Young Adult Reading·Novels·Mythology, Legends & Folklore
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The opening · free to read
Ao Dr. Manoel Murtinho Nobre.
Por mim e pelos meus.
Gratidão.
Nem só os olhos da cara Vêem o que vai pelo mundo: Ha outra vista mais clara, Ha outro olhar mais profundo.
Com esse olhar, menos lento, De olhos de mais atenção, Vê mais longe o Pensamento, Vê mais fundo o Coração.
FILINTO DE ALMEIDA.
ERA UMA VEZ...
Quando a Princesa Edeltrudes nasceu, era tão pequenina, tão pequenina, que poderia dormir á vontade dentro de um dos sapatinhos da Rainha sua mãi. Mas o berço em que a meteram era muito lindo, todo de fios de ouro entrelaçados e grinaldinhas de folhagens e de rosas, simuladas por esmeraldas o rubins.
Com medo de que a sua fragilidade a matasse, bafejaram-na, amimaram-na, rodearam-na dos mais extremados carinhos...
E a Princesinha resistiu, e foi crescendo cheia de vontades imperiosas.
Era ainda muito tenrinha quando um dia a mãi, ao embala-la com as suas próprias mãos côr de cêra, deixou cair a cabeça sobre o peito e adormeceu... E assim como o berço deixou de oscilar, parou no peito da Rainha o coração.
Houve gritos, lamentos, correrias, mas a criança no meio das suas rendas não percebeu cousa alguma e nem um estremecimento sacudiu a carnação rosada do seu corpinho rechonchudo.
E desde então o Rei viveu com medo de que á filha acontecesse o mesmo que acontecera á esposa, e jurou por isso não lhe dizer jámais na vida um--não.
Quando Edeltrudes começou a falar e a distinguir o que a rodeava, todos que via eram seus servos. O próprio pai fazia-se seu escravo.--Que a tua vontade seja feita--era o que respondiam a todos os seus caprichos. E ela cada vez os tinha de mais difícil realização!
As damas da côrte e as aias viviam num suplício, e o povo cá fóra afirmava que a Princesinha tinha nascido sem coração.
Por isso a mãi lhe quisera dar o seu, sem o ter conseguido.
Poderia haver nada mais triste do que uma menina sem coração?
Todos os dias, mal abria os olhos, punha-se ela no seu leito a imaginar que tortura haveria de aplicar á primeira pessoa que lhe aparecesse; e a sua imaginação, exercitada nessa terrivel espécie de jogo, encontrava sempre um meio original de exercer a maldade. Toda gente no palacio tinha alcunhas, até aos próprios velhinhos ela tratava por tu e ordenava cousas dificeis e dolorosas.
E o Rei?
O Rei continuava a deixar que ela fizesse o que entendesse, todo embebido no seu amor paterno e na saudade da Rainha de mãos côr de cêra e olhos côr de turqueza fluida...
E no entanto ele era um homem forte, autoritário, que fazia tremer o assoalho da casa ao peso dos seus passos, e ajoelhar os subditos ao som da sua voz, grossa como um trovão.
Á proporção que se fazia mulher ia a Princesa compreendendo que a atmosfera que a envolvia era feita de indiferença e desamor. Só no pai encontrava sinceridade. Os outros não lhe queriam bem; porque ninguem pode ter afeição a quem seja, como era a Princesa, tão egoista e tão mau. Quem espalha maldições não pode colher simpatias, quem só produz o mal de quem poderá esperar o bem?
Bem compreendia a Princesa que a vida não era igual para todos, pois via ás vezes dos altos torreões do seu Castelo certas mulheres do povo beijarem na rua as crianças, enternecidamente. O beijo seria criado só para o uso da ralé?...
O próprio pai quando a abraçava apenas lhe roçava os lábios pela testa, receando talvez sufoca-la nas ondas argênteas das suas grandes barbas.
E a Princesa navegava assim na vida, como fóra da vida...
Era já mulher feita e linda, quando uma tarde mandou selar o seu melhor cavalo e saiu a galopar pelas alamedas do parque.
A ninguem era permitido acompanha-la nos seus giros de loucura, como ela mesma costumava dizer ao pai. Havia na solidão alguma cousa que a atraía; buscava inconscientemente a verdade que os cortezãos não lhe sabiam dizer...
Nessa linda tarde côr de violeta, tão distraída estava a Princesa que depois de ter saltado valados, pulado cêrcas, embarafustado por campos lavrados, meteu-se, já cançada, por uma longa estrada margeada de um lado por velhos muros de quintas e do outro por um riozinho sossegado.
Uma núvem côr de rosa flutuava num céu que era todo brandura; das moitas das ervinhas rasteiras subia um aroma de flores desconhecidas e da espessura dos pomares irrompeu um canto de ave antes nunca ouvido...
Seria o rouxinol?...
O cavalo da Princesa andava agora devagar, como se tivesse tambem ele entrado na harmonia plácida daquela hora divina. E Edeltrudes deixou que ele a levasse, sem mesmo saber para onde... E assim passou por duas lavadeiras que, de joelhos na areia, cantavam com alegria, batendo panos nas pedras. E a Princesa, que não cantava nunca, preguntou de si para si:
--Poder-se ha ser feliz sendo-se pobre?...
Como de propósito, uma das lavadeiras cantou mais alto:
"_A f'licidade da gente Está na boa consciência_..."
Mas quem faz caso do que dizem as lavadeiras, quando nas margens dos rios cantam por cantar? Só os poetas, que procuram em todas as vozes da natureza o segredo da vida para o pôr nos seus versos.
Já as lavadeiras tinham ficado para tras, quando a Princesa topou com um homem cultivando o campo. A enxada subia e descia, revolvendo a terra que cheirava bem. Já de um lado um pouco do terreno, afeiçoado pelo trabalhador, parecia mais bonito, pronto para receber a sementeira. E ela parou um instante a apreciar aquele movimento. Era a poesia do Trabalho que lhe entrava pela alma sem que ela mesma a compreendesse...
Eram os golpes daquela enxada que convertiam a terra em pão e em flores, o que quer dizer, que é das mãos dos homens rudes e humildes que depende a fartura da humanidade e a beleza do mundo!
Mas a Princesa não tinha espírito para agradecer áquelle lavrador o conforto e o gozo que ele lhe dava.
Assim foi indo, foi indo, até reconhecer num muro baixinho de tijolo uma das partes laterais do Asilo dos Cegos da cidade.
O casarão ficava lá ao fundo, branquejando entre árvores. Do alto do seu cavalo ela observou o jardim, de ruas largas, sem empecilhos, cobertas de areia fina. Sentiu-se logo curiosa de vêr como andariam por ali os cegos, ao mesmo tempo que lamentava que, para gente que não via, gastasse o Estado tanto dinheiro, dando-lhe tão vasta e linda propriedade. Para exercício dos cegos não bastaria um terreno sem flores, nem árvores, nem gramados?
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