Public-domain ebook
Alexandre Herculano
Language: pt371 downloads on Project Gutenberg
Subjects
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #23590.
Public-domain ebook
Language: pt371 downloads on Project Gutenberg
Subjects
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #23590.
The opening · free to read
Pontifice das lettras, Alexandre Herculano não teve, como muitos, a benevolencia, a fraqueza, uma cynica bondade de confundir os mediocres e os de talento; e perseguiu com o seu rancor todos os que a inutilidade levantara, elevados pela politica, pela camaradice, pela intriga. Foi um amarguroso e um triste. Por despeito? por tedio da sua epoca? por cançaço do seu espirito! Interrogações irrespondiveis, antes de se analysarem as causas que levantaram este homem á imminencia, d'onde nunca cahiu, e d'onde tanta vez lançou sobre o seu tempo os threnos e as maldições d'um propheta que não pede perdão para a miseria humana, antes invoca a colera de Deus sobre as velhas cidades corrompidas. Ezequiel d'uma epoca indigna de historia, só começou a rugir, não por mando de Jehovah, mas depois de conhecer os homens e de se ter entediado d'elles. O seu temperamento soturno, a sua mente convulsiva, o seu caracter d'uma rectidão, tão inabalavel, tão egoista--que hoje nos chega a parecer estudada--eram o producto d'uma hereditariedade que nunca se desmentiu e lhe deu esse bello cunho de portuguez, inquebrantavel e forte.
Aos vinte annos, viu-se obrigado, por uma revolta militar do corpo a que pertencia, a refugiar-se no estrangeiro, por onde pairou algum tempo, visitando a Inglaterra e a França. Não sei se foi decisiva para a sua vocação essa viagem; o estado em que então se encontrava a Europa pode fazel-o crer. Uma outra era abria-se aos espiritos inquietos e convulsionarios. As nações, que durante quarenta annos se tinham agitado em guerras terriveis, nas epicas campanhas de Bonaparte, nas guerrilhas da Italia, na politica da Austria, sentiam a necessidade de pacificar-se. Começou pois a revolução na arte.
O inquieto Chateaubriand e o desesperante Byron tinham feito as suas obras no meio das agitações d'essa Europa, de que elles invocaram o passado, poetisando-o com as saudosas melancolias que desperta em todas as mentes doloridas. Na Allemanha Goethe e os irmãos Schlegels, Leopardi na Italia, cunhavam os seus escriptos com esse desespero de descontentes, de sempre tristes. O sol das batalhas apagara-se em Santa Helena ao mesmo tempo que o sol da poesia expirava ao avistar a Grecia, que ia libertar. Bonaparte e Byron foram os deuses d'essa geração; e, para completar a trindade, poder-se-hia juntar-lhe Leopardi. Mas o poeta do Amor e da Morte, o atheu sem esperança, o heroico resignado, não teve a influencia dos dois primeiros, nem a quiz. O vencedor de Marengo e o poeta de Manfredo, convulsivos e desesperados, tiveram o enthusiasmo e a acção; o triste que escreveu essa admiravel elegia ao Passaro Solitario, em nada acreditava, senão na inutilidade da vida e no repouso da morte. Não era portanto um guia que escolhessem os que viam a existencia mais complicadamente.
Byron, Vigny, Goethe, Musset, Shelley, Moore, Hugo, punham no que escreviam a nostalgia d'epocas remotas da historia, que elles lembravam com saudade. Outras indoles, partilhando o mesmo enthusiasmo, tentaram estudar esses seculos para reconstituil-os com os documentos e as memorias. D'aqui a historia e o romance historico.
O seculo XVIII foi para Portugal e para França o seculo da decadencia da arte.
Entre nós, á poesia das escolas chamadas italiana e hespanhola succedeu a Arcadia, agrupamento onde alguns vates semsaborões e massadores inventavam os meios de torcer a lingua em versos duros e corneos. A Francisco Rodrigues Lobo, a Sá de Menezes, a Santa Ritta Durão succederam Antonio Diniz, o engraçado do Hyssope, que hoje ninguem lê sem bocejar, o barbeiro Quita, Garção, Francisco Dias Gomes, e o nunca esquecido Filinto Elysio, o mais monstruoso escangalhador da simples e bella lingua portugueza, o mais inevitavel hymnifero de pindaricas, de epithalamios, de dithyrambos. Na prosa o abysmo era tão profundo: depois de Francisco Manoel de Mello, de fr. Luiz de Souza, de Manoel Bernardes, o padre Theodoro d'Almeida e o Candido Lusitano!
O seculo XIX iniciou-se sem presagios de mudança. O velho Lafões na Academia chamada das sciencias, fazia propaganda hypocrita das graçolas semsaboronas de Voltaire; mas, cousa sempre digna de ser observada nos philosophos portuguezes que applaudiam os encyclopedistas:--todos assistiam ás novenas, aos lausperennes, ás procissões com que n'essa epoca caprichavam em passar o tempo. A essa Academia podia-se juntar outra, tambem ainda florescente: a Arcadia.
Qualquer d'estas duas corporações eram gremios recreativos, onde o culto das musas era um passatempo e o escrever prosa um trabalho mechanico. Apenas o bilioso José Agostinho, o obsceno Bocage e o assucarado Tolentino, lançavam no concerto de numes uma nota alegre e discordante.
Respondia-lhe com uma tremenda descompostura o padre, que queria arranjar um Camões para uso da côrte de João VI e dos frades gracianos. O Tolentino, que nunca entendeu nada de litteratura, rabiscava versos, pedindo jantares e dinheiro.
Não se levantava uma voz dolorosa ou eloquente, um grito de convulsivo desespero, uma poesia d'arrebatadora inspiração. Tudo era pautado, mesquinho, uniforme como uma ceremonia da côrte. O povo apenas, heroico resignado, conservava o grande refugio no desdem e na indifferença. Nenhum vate da Arcadia o cantou; nenhum escriptor punha a penna ao serviço da sua causa, para o despertar. Massa inconsciente, que formigava n'um zumbido, sempre insistente, sempre pavoroso, como onda de temporal quebrando-se em rochedo terrivel--que lhe importava a elle que D. João VI fugisse e os francezes invadissem o reino? Atrophiado durante dois seculos--o decimo septimo e o decimo oitavo da nossa era--que tão inexoravelmente começam a ser julgados por uma historia mais visualisadora--sem poder tirar d'entre os seus uma das altivas figuras que fazem revoluções; enterrado até á crapula, ao asco, á immundice, á lama, mas n'uma immundice quasi aterradora, tanto era enorme, quasi epica, tanto era medonha, ninguem lhe poude infiltrar energia, ninguem lhe soube provocar coragem. Paulino Cabral, Thomaz Pinto Brandão, Bocage poetisaram (e de que maneira!) a viéla, a boneja, a marafona, a meretriz, o frade vicioso e o fadista; Nicolau Tolentino, professor de grammatica e empregado publico, era o cantor dos papelinhos dos frizados das senhoras, das reuniões burguezas, dos chás, dos namoros a altas horas com despejos de fezes em cima do peralvilho embasbacado. Curiosos de certo, caracteristicos, pittorescos mesmo, e muito mais interessantes do que os Arcades, bachareis e magistrados que se apellidavam «pastores» e «cysnes», nenhum ainda assim deu ás obras o cunho e o relevo do talento que as torna impereciveis. E Bocage, José Agostinho, Tolentino eram os que representavam a litteratura livre e sem peias; eram os idolos de que o povo sabia os versos e a vida, e se apontavam nas ruas.
Esses temperamentos que ficam assignalados n'uma epoca pelo amor, pelo heroismo, pela tristeza, pela infelicidade, já Portugal os não podia produzir. As lyricas de Camões e Bernardim Ribeiro, as desditas de Francisco Manoel de Mello, eram substituidas pelas piadas eroticas d'Elmano Sadino e as aventuras burguezas dos dois padres Macedos. Dos humildes que então soffriam, dos resignados que supportaram a vida, não chegou até nós um grito, um arranco, uma palavra. Almas desditosas e obscuras, ninguem soube pôr no papel os vossos desalentos, as vossas dores, as vossas hesitações! Quando a vossa crença era tentada, tinheis Te-Deums para não cairdes na desconfiança do intendente Pina Manique; e para as humilhações heroicas, das vidas obscuras, as suaves melancolias, os crueis desesperos, Filinto Elysio entoava um epithalamio ou um dithyrambo, Bocage versejava sobre um mote brejeiro, Tolentino escrevia a Funcção, etc.
Castilho em 1830 era ainda um arcade, Garrett quasi um ignorado. Em 1837 Herculano publicou anonymamente a _Voz do Propheta_--uma especie de threnos biblicos, d'uma eloquencia solemne e triste. Ahi se adivinhava a inclinação do novo escriptor para a historia, poetisada pela saudade e pelas recordações. Era a primeira chamma que se ateava n'esse espirito. Altivo, insoffrido e taciturno, resignando-se n'um trabalho em que as mais das vezes tinha de martellar o cerebro e soffrear os impetos da imaginação poetica, é com enthusiasmo e vibração que escreve as paginas mais alentadoras da sua Historia, os quadros mais artisticos e definitivos dos seus romances, os versos mais ricos das suas poesias.
Visitando a Inglaterra e a França, a saudade da patria amargurou-lhe o prazer da forçada viagem. Nas horas vagas d'essa vida de tribulações e cuidados, vida errante, refugiada apenas em longos labores e lentas meditações, pezou bem o seu destino. Tinha um temperamento de ferro; em cousas que a sua vontade decidisse, era inquebrantavel. Não se bandeou na politica, não se apulhou na litteratice. Pobre chimerico! acreditou na honra, desdenhoso dos estadistas e dos parlamentares; teve esperança na arte pura, e cultivou-a como o seu unico idolo. Depois tambem cultivou o azeite de Val-de-Lobos com idolatria, por que estava farto da epoca e dos homens. «Dá vontade de morrer!» disse elle. Hoje qualquer noticiarista, tendo apanhado alguma indigestão de lagosta ou sardinhas, repete a miudo a exclamação, confundindo assim a vontade de morrer com a de vomitar.
Joseph Prudhomme disséra em tempos que «a invasão das diversas attribuições produz em tudo a anarchia», e como elle ainda é autoridade para as classes burguezas e dominantes, não nos é licito duvidar. Que a litteratice ou a monomania litteraria invade tudo e todos, é inegavel. Ainda ha pouco, uma notabilidade medica, o sr. Manoel Bento de Souza, apercebendo-se d'isto, fez no Elogio do Doutor Antonio Maria Barboza a comparação de tres medicos-operadores com tres litteratos, explicando que usava d'esse meio para que os que não entendiam de medicina o comprehendessem melhor.
Imagine-se Sainte-Beuve, Taine e o sr. Oscar Wilde applicando este processo á critica! O esthetico inglez, por exemplo, comparando Morel-Makenzie com Dante Gabriel Rossetti; o philosopho das Origens da França Contemporanea approximando a maneira d'operar de Robespierre (e que medonho operador!) da do velho anatomista Bichat.
Para quê insistir sobre as surprezas que este methodo provocaria a cada momento?
Ao espirito severo d'Herculano, cerrado ao moderno, o espectaculo das contradicções e das inconsciencias da nossa epoca repugnava. Por isso a sua obra foi uma evocação do passado e dos tempos gloriosos. Elle escrevera no Bobo (pag. 13-14) estas linhas:
«Pobres, fracos, humilhados, depois dos tão formosos dias de poderio e renome, que nos resta senão o passado? Lá temos os thesouros dos nossos affectos e contentamentos. Sejam as memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus que nos revoque á energia social e aos sanctos affectos da nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo habilitam para os graves e profundos trabalhos da historia, se dediquem a ella. No meio d'uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma especie de sacerdocio. Exercitem-no os que podem e sabem; porque não o fazer é um crime.
The book keeps going
Reading is free forever. Sign up and watch scenes appear while you read.



Scenes Storieta drew for other classics.
New illustrated classics
Once or twice a month: the latest books to get full character casts, scene art, and free comic editions. No account needed.