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Alexandre Herculano Conferencia pública realizada no Atheneu Commercial de Lisboa, na noite de 15 de Julho de 1900
Language: pt259 downloads on Project Gutenberg
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Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #34286.
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LISBOA LIVRARIA EDITORA TAVARES CARDOSO & IRMÃO 5--LARGO DE CAMÕES--6 MDCCCC
Typ a vapor da Empreza Litteraria e Typographica Rua de D. Pedro, 184--Porto.
MEUS SENHORES.
O homem nasceu para viver em sociedade. Apesar de todos os paradoxos sustentados por João Jacques Rousseau contra o estado social, é incontestavel que só neste estado é que elle se póde aperfeiçoar intellectual e moralmente. O selvagem é feroz, cruel e sanguinario.
Com as nações succede o mesmo que com os individuos. Assim como os individuos isolados não progridem, assim tambem as nações que vivem separadas das outras permanecem estacionarias. Quanto mais amplas forem as relações sociaes maior será o desenvolvimento da intelligencia humana. Se o commercio abre o caminho para a civilização e fraternidade dos povos, é a mais alta cultura litteraria e scientifica que poderá fazê-las attingir o seu auge. A cultura litteraria, além de ser indispensavel a todo o homem, seja qual fôr a sua posição social, é o factor mais poderoso da solidariedade universal. Quando as obras litterarias e scientificas em que se revela a maior pujança do espirito humano estiverem vulgarizadas em todos os paises, então a fraternidade universal não será certamente um sonho vão, prestar-se-ha o culto mais ardente á liberdade e á egualdade, finalizarão as guerras, que são verdadeiros crimes sociaes. São os eloquentes escriptores, os sublimes poetas e os eminentes sabios que mais têm contribuido para o progresso intellectual e moral do genero humano; devemos pois tributar as mais ardentes homenagens a todos os bemfeitores da humanidade, a todos os grandes homens que a têm honrado com o seu genio litterario, scientifico ou philosophico.
São rarissimas as manifestações populares que não são excitadas pelas paixões politicas. Este facto é um triste symptoma da profunda ignorancia que ainda lavra no nosso pais.
As homenagens prestadas aos grandes escriptores e aos sabios eximios devem ter por unica origem a gratidão popular pelos relevantissimos serviços que prestaram, pelos grandes esforços por elles envidados para instruir e moralizar a sociedade.
Bem sei que a politica é indispensavel para o progresso dos povos, mas tambem é certo que no campo da politica se põem ordinariamente as paixões partidarias acima dos affectos mais nobres e sublimes do coração humano, acima do amor da verdade e da justiça, da rectidão e da imparcialidade que devem caracterizar todo o homem de bem, todo o cidadão honrado e virtuoso. É um espectaculo assás desagradavel o vêr que, no campo da politica vil e mesquinha, de um lado se encontram homens sempre promptos a adular os poderosos da terra, todos os tyrannos; seja qual fôr a denominação que se lhes dê; do outro, individuos que, sob a mascara das doutrinas mais avançadas, procuram lisonjear as paixões muitas vezes ignobeis e mesquinhas das turbas analphabetas, ignorantes e fanaticas. O homem que só procura a verdade e o bem, que não se deixa dominar pelas paixões politicas, que é imparcial e recto, que ousa fallar ou escrever sem preconceitos contra a profunda corrupção do seu seculo e do seu pais, que não hesita em vituperar os vicios de todas as classes sociaes, que não vende a sua consciencia no mercado dos poderosos nem procura illudir a plebe ignorante e fanatica, que muitas vezes applaude inconscientemente os discursadores frivolos, cujo merito apenas consiste na verbosidade vacua e na habilidade para afagar as preoccupações populares, o homem que considera a mentira um crime, que louva ou vitupera com toda a sinceridade e justiça, forcejando por não faltar á verdade, que não mercadeja com a sua intelligencia, que Deus só lhe deu para conhecer o bello, o verdadeiro e o justo, aquelle que assim procede com toda a dignidade é sempre o alvo das censuras mais acres e injustas, chega a ser muitas vezes calumniado pelos fanaticos de todas as escolas e de todos os partidos; mas, no meio d'estas grandes miserias sociaes, ha sempre um grupo de homens sensatos e moderados, illustrados e honestos, que comprehendem o seu modo de pensar e de sentir e lhe fazem a devida justiça; quando isto não succedesse, bastar-lhe-hia a pureza da sua consciencia para o consolar, para lhe suavizar as amarguras provenientes da injustiça dos homens, porque a consciencia é para todo o homem sincero, imparcial e recto a fonte dos prazeres mais intensos e duradouros, porque é a voz da consciencia que o impelle a proseguir denodado e imperturbavel o caminho da verdade e da justiça, sem lhe importarem os murmurios, os vituperios que em volta d'elle possam levantar todos os ignorantes e maus, todos os homens dominados pelo fanatismo religioso, philosophico ou politico.
Ha uma cousa muito mais nobre e elevada do que a politica, uma occupação que não degrada os caracteres nem corrompe os costumes, em que não é preciso sacrificar a consciencia nem praticar a injustiça, que nos serve de consolação no meio de todas as angustias: é a cultura litteraria e scientifica. Sem esta cultura tão proveitosa não poderiam realizar-se nas sociedades transformações beneficas, solidas e duradouras, não teriam os povos consciencia dos seus direitos e dos seus deveres, não conheceriam o seu passado nem saberiam como proceder para se tornarem mais moralizados e felizes, não poderia haver politica liberal e sensata.
Quando se trata de prestar homenagens áquelles grandes vultos que tanta luz irradiaram nos seus escriptos, todos, sem distincção de partidos, de escolas philosophicas e litterarias, devem unir-se para mostrar a sua gratidão para com aquelles que tão poderosamente contribuiram para o progresso intellectual e moral da sua patria e da humanidade.
Ninguem mais digno das nossas homenagens do que o grande vulto de cujas virtudes e meritos litterarios e scientificos venho hoje fallar-vos. Ninguem mais digno das nossas homenagens do que o eminente escriptor que se chamava Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo. Ninguem mais digno das nossas homenagens do que aquelle cidadão illustre que foi a maior gloria portuguesa d'este seculo e uma das maiores glorias portuguesas de todos os seculos.
Lisboa, que foi o berço de Camões e de Vieira, de Diogo de Couto e de D. Francisco Manuel de Mello, tambem possue a gloria de ser a terra onde nasceu um escriptor em cuja alma se achavam, por assim dizer, conglobados muitos dos predicados que adornavam os espiritos d'aquelles grandes homens; um escriptor que chegou a adquirir na litteratura universal um dos nomes mais illustres; um grande lyrico, cujo sentimento religioso é profundo como o de Lamartine, cujo amor da liberdade é vehemente como o de Victor Hugo, cujo patriotismo é ardente como o de Béranger; um romancista que, alem de rivalizar com Walter Scott na erudição e no estylo, revela, na pintura das grandes paixões, a energia de Shakspeare e Byron, e nas descripções de batalhas se parece com Homero; um historiador eloquente como Tito Livio, vigoroso como Tacito, conciso como Sallustio, elegante como Xenophonte, claro como Taine, consciencioso e erudito como Thierry, imparcial como Maccaulay, philosophico como Guizot e poetico como Michelet; um epistolographo sentimental como Rousseau e sobrio como Voltaire; um polemista cujo estylo não é menos grandioso que o de Lamennais e que na vehemencia da indignação rivaliza com Juvenal. Ser tudo isto ao mesmo tempo é um dos phenomenos mais raros e maravilhosos que nos póde apresentar a historia litteraria. Pois tudo isto foi Herculano; este phenomeno extraordinario e verdadeiramente maravilhoso é-nos apresentado pela sua obra monumental e complexa.
É immensa a gloria de Herculano, mas tambem é immensa a gloria de Portugal por ter sido a patria de um escriptor tão insigne e de um varão tão austero. Herculano foi incontestavelmente um dos principaes mestres da nossa lingua, um dos pensadores mais profundos da nação portuguesa e um dos historiadores mais eloquentes, exactos e imparciaes que o mundo tem produzido. A immensidade do seu genio levou o grande historiador inglês, o illustre Maccaulay, tão sobrio em louvores, a proferir esta phrase enthusiastica: «A Hespanha deveria esforçar-se por conquistar Portugal só para possuir Herculano.»
O principe dos historiadores portugueses nasceu no dia vinte e oito de março de mil e oitocentos e dez. Ha por consequencia noventa annos que neste bello pais, nesta formosa cidade banhada pelo Tejo, debaixo d'este ceu puro e limpido, nasceu um escriptor em cujo coração se abrigava a sensibilidade ardente de um poeta e em cujo cerebro fulgia a intelligencia profunda de um philosopho. Ha noventa annos que nasceu em Portugal um dos seus escriptores mais brilhantes, fecundos e eruditos e o seu prosador mais eminente. Ha noventa annos que veiu ao mundo um dos artistas mais varonis, um dos caracteres mais austeros, um dos corações mais sensiveis, energicos e apaixonados, um dos mais brilhantes luminares da sciencia historica.
A natureza difficilmente produz os grandes homens; são rarissimos em todas as nações. Por isso devemos admirá-los e glorificá-los como entes extraordinarios que a Providencia destinou para conduzir a humanidade pela estrada do progresso e da civilização.
Se attendermos á pequenez do territorio que occupamos na Europa e á respectiva população, Portugal é uma das nações que maior numero de homens illustres têm produzido. O nosso pais tem sido o berço dos mais arrojados heroes e dos mais eloquentes escriptores. A litteratura portuguesa é tão rica e luxuriante como o solo da nossa patria.
A excellente posição geographica do nosso pais, o delicioso clima que possuimos, as bellezas naturaes que adornam esta abençoada terra sulcada de rios ora graves e imponentes, ora risonhos e graciosos, os valles amenos e serras magestosas de que ella é matizada e que despertam em nós o sentimento do bello, esse vasto e profundo oceano que nos offerece o espectaculo mais grandioso tornando-nos scismadores e melancolicos e impellindo-nos ás mais altas cogitações e ao mais profundo sentimentalismo, a aptidão assimiladora da nossa raça, cujo vigor não poude ser completamente destruido por mais de duzentos annos de educação jesuitica e de tyrannia inquisitorial, tudo ha contribuido poderosamente para que Portugal tenha produzido grande numero de homens distinctos em todos os ramos de litteratura, especialmente na poesia e na historia, que são os generos litterarios que mais se coadunam com a nossa indole nacional. No meio de tantos poetas e prosadores eminentes occupa Herculano incontestavelmente um dos primeiros logares.
Alexandre Herculano era um d'aquelles homens em quem se acham reunidos os predicados mais oppostos; possuia uma sensibilidade ardente e uma profundeza admiravel, uma imaginação vulcanica e uma grande perspicacia na investigação da verdade; a sua intelligencia era eminentemente analytica e synthetica; o seu espirito era simultaneamente poetico e philosophico; nas suas obras encontra-se um estylo ao mesmo tempo simples e solemne, conciso e energico, claro e imaginoso, sobrio e elegante. Era verdadeiramente assombroso o poder e a harmonia das suas faculdades. Herculano foi um dos genios mais notaveis do seu seculo e do seu pais; ninguem ainda revelou uma sensibilidade mais energica e varonil do que elle. Em todas as litteraturas rarissimas vezes se encontra um escriptor dotado ao mesmo tempo de aptidões tão elevadas e numerosas.
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