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Vasco da Gama Livro de Leitura para familias e escolas
Language: pt384 downloads on Project Gutenberg
Subjects
In: PT Biografia·PT Navegações e Explorações·Biographies
Public-domain ebook sourced from Project Gutenberg #27540.
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Entre as causas que espertaram o animo e brio dos portuguezes para se abalançarem á empreza dos descobrimentos, podem apontar-se como principaes: o desejo de dilatar a fé christã em todo o mundo conhecido; a sêde de gloria e de renome; a ambição de grangear fortuna conduzindo para o reino as especiarias, o ouro e pedras preciosas em que abundam as regiões orientaes; e a curiosidade de desvendar os segredos da natureza n'aquellas remotissimas paragens.
E não se julgue que as navegações do seculo XV foram iniciadas sem plano, sem destino. Pelo contrario. Os nossos intrepidos mareantes levavam a sua rota já marcada, e não levantavam ferro sem se aperceberem de todos os conhecimentos e apparelhos necessarios ao cosmographo. A cultura intellectual do povo portuguez attingira o grau de desenvolvimento bastante grande para acompanhar o movimento scientifico e litterario das mais adiantadas nações da Europa, e com as suas viagens n'aquella época teve principio a historia verdadeira das navegações ao longo da Africa. Até ali tudo é vago, indeciso, fabuloso.
Portugal estava mais proximo, que nenhum outro povo, do litoral africano; tinha já tomado Ceuta; dobrara o cabo Bojador; e sabia, em virtude da passagem do cabo da Boa Esperança, que existia communicação entre o Atlantico e o mar das Indias. Por tudo isto nutria no peito a generosa aspiração de levar o nome da patria e do filho de Maria aos paizes em que nasce a aurora. Tal era o desejo, a vontade nacional. Ora, sempre que um povo nutre uma idéa grandiosa, surge de entre a multidão um grande homem, o qual é--porque assim digamos--a personalisação do sentimento popular. Esse grande homem, esse representante da vontade unica de todos os portuguezes foi Vasco da Gama.
Affirmam os chronistas que elle nasceu em Sines, e que teve por paes a Estevão da Gama e Isabel Sodré; e ainda que pouco escrevam, d'onde possamos inferir como correra a sua infancia e puericia, é comtudo facil presumir que principiou a sua carreira nos mares da Africa, e que sendo encarregado de negocios importantes, d'elles se desempenhou a contento do seu rei. A biographia de Vasco da Gama só é clara quando el-rei D. Manuel o escolheu para levar a cabo a empreza que sonhara. O facto de haver sido eleito pelo monarcha afortunado bem mostra que o Gama era navegante experimentado, e de animo feito e capaz de grandes cousas. E assim acontecia. Entre as qualidades que lhe adornavam o espirito, avultavam a energia com que exercia o mando, a constancia nos designios, e a inflexibilidade na administração da justiça.
Assomado de genio, commetteu atrocidades, é certo; mas, se ao lermos a descripção de suas inclemencias e durezas, nos lembrarmos das circumstancias em que foram praticadas, veremos que muitas, se não todas, dictou-as a necessidade de manter a disciplina, ou de domar a aspereza dos inimigos.
Tendo Vasco da Gama acceitado a espinhosa commissão, aperceberam-se os tres navios construidos expressamente para ella: S. Gabriel, S. Rafael e S. Miguel. No primeiro arvorou Vasco da Gama o pendão de commandante; ao segundo deu por capitão seu irmão Paulo da Gama; e o terceiro, conhecido pela alcunha de Berrio, ficou sob as ordens de Nicolau Coelho.
Nada faltava á expedição. Abundancia de mantimentos, boa artilheria, velame de sobreselente, medico, botica, presentes para os reis em cujos dominios aportasse, tudo se preparou. A armada partio do Tejo a 8 de julho de 1497 por entre as saudações e as lagrimas da numerosa multidão, que affluira á praia do Restello.
Depois de avistar as Canarias, e de fazer aguada na ilha de Santa Maria, archipelago de Cabo Verde, seguio Vasco da Gama para o cabo da Boa Esperança.. Começaram os trabalhos e os perigos. Desencadeavam-se furiosas as tempestades ameaçando submergir a armada inteira, e a esta lucta incessante com os elementos juntava-se a insubordinação dos tripulantes, que não queriam continuar a viagem. Serenadas as tormentas e suffocada a insurreição, chegou a frota no dia 8 de novembro á bahia que tem por nome Angra de Santa Helena.
Saídos em terra os portuguezes para fazer observações, descobriram dois negros atrás de uma collina. Deram-lhes de comer, e prometteram manjares e contas de cristal a todos os companheiros, que descessem á praia. Os negros accederam ao convite, mostraram-se amigos dos nossos; mas pouco depois revelaram-se traiçoeiros e malfeitores. Em vista da hospedagem que os indigenas lhe offereciam, decidio Vasco da Gama fazer-se novamente de véla, e a 20 de novembro conseguio dobrar o cabo da Boa Esperança. Removeram-se os terrores, com que o afamado promontorio salteava a imaginação dos tripulantes, e começou a empreza a affigurar-se mais auspiciosa.
A sessenta leguas de distancia a armada surgio e fundeou em uma bahia chamada Aguada ou Angra de S. Braz. E como os portuguezes temessem um recebimento igual ao que tiveram na Angra de Santa Helena, desembarcaram promptos e armados para a lucta. Tiveram com effeito de repellir a violenta aggressão de um enorme bando de negros hottentotes. Estes indigenas são de estatura meã, espadaúdos, e as mulheres têem uma bossa no prolongamento dos rins, que produz um effeito desusado, e que lhes serve para trazer os filhos. Cumpre todavia dizer que esta bossa é ainda mais accentuada nas mulheres bochimans.
Quando deixaram a Aguada de S. Braz padeceram os portugueses uma furiosa tempestade, que os fez quasi desesperar de salvamento; mas, conjurado o perigo, avistaram a 26 de dezembro os ilhéus Chãos, a 27 o ilhéu da Cruz, e chegaram no dia 28 á altura do rio do Infante, ultimo ponto a que chegara Bartholomeu Dias.
Forçado Vasco da Gama a entrar em algum porto onde se abastecesse de agua, aproximou-se da costa, e no dia 10 de janeiro de 1498 descobrio um pequeno rio. Como visse em terra muitos negros de elevada estatura e grande corpulencia, mandou desembarcar o lingua Martim Affonso com alguns brindes para o senhor d'aquelles negros, a fim de colher informações a respeito da India. Estavam os nossos no paiz da Cafraria, cujo chefe, deslumbrado pela formosura dos presentes e pelo incarnado da carapuça com que Vasco da Gama o brindara, recebeu amavelmente a Martim Affonso e ao companheiro, deu-lhes papas de milho e uma gallinha, e enviou ao commandante alguns refrescos.
A tribo da Cafraria que Vasco da Gama visitou, foi a dos zulus. São homens bravos, energicos, intelligentes, de pelle não preta, mas bronzeada. Pertencem á raça designada pelo nome de negroide. O nauta portuguez chamou á paragem, em que viviam estes cafres, Aguada ou Terra da Boa Paz, e ao rio em que se proveu de agua, Rio do Cobre.
Proseguindo na derrota, descobrio a 26 de janeiro um outro rio de larga embocadura, no qual vogavam alguns bateis tripulados por homens que pareciam mestiços de ethiopes e arabes. Eram em extremo communicativos, subiam ás naus, recebiam presentes, davam em troca os productos da sua terra, e um d'elles dizia ser de muito longe, e affirmava ter já visto navios do tamanho dos nossos. Contente com taes auspicios, Vasco da Gama baptisou o rio com o nome dos Bons Signaes, e erigio n'elle um padrão que vinha a bordo do S. Rafael, e que d'este nome tambem foi appellidado. A alegria porém foi pouco duradoura, porque tendo o commandante resolvido permanecer algum tempo n'aquelle rio, eis que a tripulação adoece ao cabo de poucos dias atacada de escorbuto. O rio era o Zambeze, cujas margens insalubres iam servindo de sepultura áquelle punhado de heroes.
Só a 24 de fevereiro continuou a armada o seu caminho. Avistadas algumas ilhotas, e não occorrendo cousa digna de menção, perceberam os portuguezes no dia 2 de março que de uma ilha navegavam sete ou oito barcos, e attentando nos tripulantes, viram que era gente mais culta do que os cafres. Conversaram com os nossos, disseram-lhes que a terra em que se achavam tinha o nome de Moçambique, e que os habitantes negociavam em ouro, prata, pimenta e especiarias com os mercadores arabes que íam da India áquelle porto. E mais disseram que o Preste João não era d'ali muito distante, com o que encheram de jubilo o coração dos portuguezes.
Vasco da Gama determinou logo dirigir-se a Moçambique para ver se eram fidedignas as informações, que acabava de obter, e com o fim de tomar piloto para a India, se as visse confirmadas. Nicolau Coelho entrou primeiro a sondar a barra no navio S. Miguel, e reconhecendo que havia bom fundeadouro, entrou o resto da armada e lançou ferro.
O xeque, apenas soube que a armada fundeara, mandou visitar Vasco da Gama, que por seu turno lhe enviou alguns presentes. O mouro, mais ambicioso que os cafres, pedia brindes de mais alto preço; porém não recusou os que lhe foram offertados, e veio visitar o capitão-mór. Vasco da Gama dispoz tudo para esconder a fraqueza da sua frota, e ordenou á sua gente que estivesse preparada para o caso de alguma traição urdida pelo xeque. Chegou este trajando as suas mais luzidas vestiduras, foi recebido com todas as mostras de amisade, e com um opiparo banquete. O xeque deu a Vasco da Gama dois pilotos, os quaes, por ordem do capitão, nunca íam juntos a terra, para que não lograssem pôr em execução algum trama combinado com o soberano.
A utilidade d'esta medida ficou em breve demonstrada, pois que se conheceu por indicios infalliveis que os mouros meditavam alguma affronta. Vasco da Gama deliberou então sair de Moçambique antes de lhe ser preciso combater; porém, tendo mandado em dois bateis alguns homens armados buscar agua e lenha, foram estes accommettidos pelos mouros, cuja audacia castigaram a tiros de espingarda. A armada levantou ferro no dia 10 de março e fundeou n'uma ilha proxima que Vasco da Gama appellidou S. Jorge. Ahi se ergueu um altar, celebrou-se missa, e todos portuguezes se confessaram e commungaram. Em seguida partio a frota para Calecut.
Após variados episodios, em que destaca principalmente a perfidia dos musulmanos e do piloto que acompanhava a armada, depois da impreterivel necessidade de resolver por armas, o que melhor fôra se resolvesse por palavras, chegou Vasco da Gama a Mombaça no dia 7 de abril, e entrou no porto com os navios embandeirados cuidando encontrar na cidade um numero avultado de christãos. Note-se que o capitão-mór só determinou ancorar no porto em vista das informações ministradas por dois degredados que trazia, e que mandára a terra observar qual a religião, a riqueza e a indole da gente de Mombaça. Apezar disso, mais uma vez teve de punir as insidias dos musulmanos que, de combinação com o piloto, pretendiam dar com as naus em cima dos baixios. Vasco da Gama ordenou que fossem mettidos a tormento, pingados com azeite a ferver.
Na quinta feira de Endoenças largou do porto de Mombaça, perdida a esperança de achar piloto que o conduzisse para Calecut. A poucas leguas de distancia apresou um zambuco tripulado por dezoito pessoas, que disseram existir não longe uma cidade, Melinde, em que facilmente se encontraria o piloto desejado.
Não obstante o que a gente do zambuco referia sobre a natural bondade do rei de Melinde, o Gama receiava submetter-se a nova experiencia. Não lhe saíam da memoria as torpes insidias de Mombaça, mas, como era urgente a necessidade, partio para Melinde, onde chegou domingo de Paschoa.
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